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Edição 9
Julho/2004

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Trabalho
Corporação de informais
Os flanelinhas de Brasília são um exemplo de organização social espontânea que, de certa forma, replica a estrutura da sociedade formal

Por Pedro Ivo Alcântara, de Brasília

Ricardo B. Labastier/VersorÉ sabido que o Brasil tem uma frota imensa de automóveis, que a maior parte dela está nas grandes cidades e que estas não foram projetadas para abrigá-la e permitir a fluidez do trânsito. Esse é um problema comum que as prefeituras enfrentam. Decorre dele um outro, social: a multiplicação dos guardadores de carros em áreas públicas que não foram planejadas para funcionar como estacionamentos. Em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Salvador e em Belo Horizonte esse fenômeno pode ser observado sem maior dificuldade. Em Brasília, no entanto, o caso é mais grave.

Cidade planejadana década de 50 para acolher a burocracia governamental, quando a indústria automobilística mal se instalara no país, ela tem poucas vagas para estacionamento nas áreas comerciais da zona central. Em mais de 40 anos sua população - e o número de veículos - cresceu exponencialmente. Os guardadores de carros, ou flanelinhas, ali, são personagens essenciais para o bom funcionamento da máquina pública - são eles que garantem que os funcionários consigam estar em seus gabinetes no horário de trabalho.

Por ser um caso exemplar, os flanelinhas de Brasília têm sido estudados por gente da academia. E as pesquisas têm revelado fatos interessantíssimos. O principal deles é que, na informalidade, os guardadores de carros reproduzem muitas das características da sociedade e do mercado formal de trabalho.

A análise é significativa porque os flanelinhas compõem boa parte dos 52,6% (cerca de 36,3 milhões de pessoas) da população brasileira que exerce algum trabalho remunerado - mas sem o registro, a documentação e o respaldo previstos nas leis trabalhistas. Não recolhem impostos, não possuem Fundo de Garantia e muito menos direito a aposentadoria. Segundo a professora Angélica Duarte de Aguiar, autora da dissertação de mestrado "A lógica doméstica do espaço público de Brasília: flanelinhas no setor informal de trabalho", pela Universidade de Brasília (UNB), "os guardadores de carros criam em suas áreas de trabalho pequenas sociedades com suas próprias regras e leis".

Estas, segundo a pesquisadora, que também é professora do Instituto de Ensino Superior do Acre, são estratégias de "sobrevivência" das classes mais pobres e excluídas do mercado. A pesquisa trata da cena urbana brasiliense e não representa necessariamente o que ocorre com os demais trabalhadores informais. Contudo, é um exemplo da organização de alguns setores da informalidade no Brasil.

Hierarquia No Setor Bancário Sul (SBS) de Brasília, a informalidade se debruça sobre o espaço público, transformado em estacionamento, dividido em pequenas glebas, territórios em que os trabalhadores possuem referenciais éticos e regras de conduta próprias. O sentimento de propriedade é tão acentuado que, segundo o estudo feito pela professora, alguns deles se dispõem a alugar sua área - que é, como já se viu, pública - por algo em torno de 400 reais, ou até mesmo a vendê-la.

A cotação varia de dois a seis mil reais. Mais comum é que flanelinhas sem ponto fixo, mas que possuam algum vínculo de amizade ou parentesco com um guardador, lavem carros para seus companheiros - e dividam o lucro obtido com o "dono" do local, numa espécie de terceirização de serviços.

Os trabalhadores criam laços de confiança sociais em seu universo profissional. "Aqui todo mundo é amigo e se respeita", diz William Campos, 25 anos, guardador de carro há cincos anos. Segundo o estudo de Aguiar, há uma rede de solidariedade muito forte no dia-a-dia dos guardadores, o que gera "certa estabilidade informal". Ou seja, existe uma política de cooperação mútua que se resume em ajudar para ser ajudado, como define o estudo, "dar-receber-retribuir".

Assim, por exemplo, cada um respeita e preserva a clientela do outro e, sobretudo, seu espaço territorial. Com um comportamento ético, eles evitam conflitos entre si e invasões de pessoas estranhas ao local. Para Christiane Girard, socióloga e professora da UNB, "a rede criada em torno da informalidade é uma maneira de afirmar a inclusão e, também, de garantir a renda e a tradição. Tudo está ligado também a uma relação de proteção. A informalidade é muito mais organizada do que se imagina".

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