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Trabalho
Corporação de informais
Os flanelinhas de Brasília são um exemplo de organização social espontânea que, de certa forma, replica a estrutura da sociedade formal
Por Pedro Ivo Alcântara, de Brasília
Cidade planejadana década de 50 para acolher a burocracia governamental, quando a indústria automobilística mal se instalara no país, ela tem poucas vagas para estacionamento nas áreas comerciais da zona central. Em mais de 40 anos sua população - e o número de veículos - cresceu exponencialmente. Os guardadores de carros, ou flanelinhas, ali, são personagens essenciais para o bom funcionamento da máquina pública - são eles que garantem que os funcionários consigam estar em seus gabinetes no horário de trabalho. Estas, segundo a pesquisadora, que também é professora do Instituto de Ensino Superior do Acre, são estratégias de "sobrevivência" das classes mais pobres e excluídas do mercado. A pesquisa trata da cena urbana brasiliense e não representa necessariamente o que ocorre com os demais trabalhadores informais. Contudo, é um exemplo da organização de alguns setores da informalidade no Brasil. A cotação varia de dois a seis mil reais. Mais comum é que flanelinhas sem ponto fixo, mas que possuam algum vínculo de amizade ou parentesco com um guardador, lavem carros para seus companheiros - e dividam o lucro obtido com o "dono" do local, numa espécie de terceirização de serviços. Assim, por exemplo, cada um respeita e preserva a clientela do outro e, sobretudo, seu espaço territorial. Com um comportamento ético, eles evitam conflitos entre si e invasões de pessoas estranhas ao local. Para Christiane Girard, socióloga e professora da UNB, "a rede criada em torno da informalidade é uma maneira de afirmar a inclusão e, também, de garantir a renda e a tradição. Tudo está ligado também a uma relação de proteção. A informalidade é muito mais organizada do que se imagina".
É sabido que o Brasil tem uma frota imensa de automóveis, que a maior parte dela está nas grandes cidades e que estas não foram projetadas para abrigá-la e permitir a fluidez do trânsito. Esse é um problema comum que as prefeituras enfrentam. Decorre dele um outro, social: a multiplicação dos guardadores de carros em áreas públicas que não foram planejadas para funcionar como estacionamentos. Em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Salvador e em Belo Horizonte esse fenômeno pode ser observado sem maior dificuldade. Em Brasília, no entanto, o caso é mais grave.
Por ser um caso exemplar, os flanelinhas de Brasília têm sido estudados por gente da academia. E as pesquisas têm revelado fatos interessantíssimos. O principal deles é que, na informalidade, os guardadores de carros reproduzem muitas das características da sociedade e do mercado formal de trabalho.
A análise é significativa porque os flanelinhas compõem boa parte dos 52,6% (cerca de 36,3 milhões de pessoas) da população brasileira que exerce algum trabalho remunerado - mas sem o registro, a documentação e o respaldo previstos nas leis trabalhistas. Não recolhem impostos, não possuem Fundo de Garantia e muito menos direito a aposentadoria. Segundo a professora Angélica Duarte de Aguiar, autora da dissertação de mestrado "A lógica doméstica do espaço público de Brasília: flanelinhas no setor informal de trabalho", pela Universidade de Brasília (UNB), "os guardadores de carros criam em suas áreas de trabalho pequenas sociedades com suas próprias regras e leis".
Hierarquia No Setor Bancário Sul (SBS) de Brasília, a informalidade se debruça sobre o espaço público, transformado em estacionamento, dividido em pequenas glebas, territórios em que os trabalhadores possuem referenciais éticos e regras de conduta próprias. O sentimento de propriedade é tão acentuado que, segundo o estudo feito pela professora, alguns deles se dispõem a alugar sua área - que é, como já se viu, pública - por algo em torno de 400 reais, ou até mesmo a vendê-la.
Os trabalhadores criam laços de confiança sociais em seu universo profissional. "Aqui todo mundo é amigo e se respeita", diz William Campos, 25 anos, guardador de carro há cincos anos. Segundo o estudo de Aguiar, há uma rede de solidariedade muito forte no dia-a-dia dos guardadores, o que gera "certa estabilidade informal". Ou seja, existe uma política de cooperação mútua que se resume em ajudar para ser ajudado, como define o estudo, "dar-receber-retribuir".
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