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Edição 9
Julho/2004

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Saúde
O valor da vida
Estudo mostra qual é o investimento necessário para a redução da mortalidade infantil no país. Na última década, o Brasil conseguiu diminuir o indicador em 40%.

Por Andréa Wolffenbüttel, de São Paulo

Unicef/Anselmo Jarbas/Serpro
Fornecimento de água tratada tem impacto imediato na taxa de mortalidade infantil e na saúde das crianças
Fernanda Matos Duarte estava no sétimo mês de gravidez quando soube que seu bebê tinha problemas de má-formação. Não havia tempo a perder. No mesmo dia percorreu os quase 200 quilômetros que separam sua cidade, Torre de Pedra, da capital paulista, onde poderia receber atendimento médico especializado. Na viagem, não conseguia ordenar os pensamentos, dividida entre as preocupações com o bebê que trazia no ventre e com a filhinha de 3 anos, que ficara aos cuidados do pai. "Estava morta de medo. Tudo o que pude fazer foi pedir a Deus que arrumasse o melhor lugar do mundo para o meu filho nascer", lembra.

Encaminhada ao Hospital das Clínicas (HC), provavelmente a mais bem equipada instituição pública de saúde do país, foi submetida a uma cesariana. O bebê, chamado André Luiz, nasceu com um grave problema nos rins. Ficou na Unidade de Cuidados Intensivos Neonatal, conectado aos aparelhos que permitiram seu desenvolvimento, até que estivesse apto a passar por uma cirurgia corretiva. A história de Fernanda teve um final feliz e André Luiz crescerá sem sequer saber que esteve muito próximo de engordar as estatísticas de mortalidade infantil no seu aspecto mais grave, isto é, a morte no primeiro dia de vida.

Mais do que um indicador de saúde, a mortalidade infantil é considerada um indicador social, pois sofre influência direta de diversos fatores, tais como educação, saneamento e meio ambiente. Na última década, o Brasil conseguiu diminuir a mortalidade infantil em 40%. O número de óbitos de crianças com até 1 ano de idade em cada mil nascidas vivas caiu de 46,99 em 1991 para 27,43 em 2001. A redução reflete ações realizadas num período de tempo mais longo. Na área de saneamento, houve o Plano Nacional de Saneamento (Planasa), concebido no início da década de 70, que criou as companhias estaduais de saneamento para equipar as cidades, na época em rápido crescimento.

No setor da saúde, a ação mais determinante foi a criação do Sistema Único de Saúde (SUS), com atendimento gratuito e universal, aliado, mais recentemente ao Programa de Saúde da Família. E, no que diz respeito à educação, houve sucessivos projetos para a erradicação do analfabetismo. Mesmo assim o Brasil ainda está 20 anos atrasado em relação aos países desenvolvidos - e não se sai bem mesmo quando comparado a seus "pares", como a Argentina, cuja taxa de mortalidade infantil é 17, e o Chile, campeão do subcontinente, que registra índice 8.

Os indicadores mostram que ainda há muito a fazer para que o Brasil apresente uma taxa de mortalidade infantil compatível com seu nível de desenvolvimento econômico. Em busca da melhor relação custo-benefício das diversas iniciativas que afetam a ocorrência de mortes durante o primeiro ano de vida, dois pesquisadores do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) elaboraram um estudo. Estimaram o investimento necessário para salvar uma vida a partir de cada uma das formas de atacar o problema, a via da saúde, a do saneamento e a da educação. "Apesar de todas elas atuarem em conjunto, com uma ferramenta estatística foi possível calcular o impacto de cada determinante sobre a mortalidade infantil", explica Mário Jorge Cardoso de Mendonça, um dos autores do estudo "Saúde e Saneamento no Brasil", ao lado de Ronaldo Seroa da Motta.

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