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| Usuários trabalham na produção de papel reciclado, em uma das 11 oficinas do Cândido Ferreira |
Quem sintoniza a rádio Educativa FM de Campinas (101,9 MHz) tem a oportunidade de conhecer um programa diferente. É o Maluco Beleza, que está no ar desde maio de 2002. Com uma hora de duração, ele trata de assuntos polêmicos, como a luta para acabar com os manicômios no Brasil ou as drogas. É produzido por pessoas com transtornos mentais, atendidas pelo Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira, de Campinas, cidade do interior paulista, e registra boa audiência. Essa é uma das iniciativas do pessoal do hospital, fundado em 1924 como Hospital de Dementes Pobres do Arraial de Souzas, que mudou de nome e, a partir de 1990, também de rumo. Aderiu ao movimento da Reforma Psiquiátrica. A proposta desse movimento é restringir ao máximo a internação de doentes mentais e proporcionar sua reintegração à sociedade, combatendo preconceitos. Produtores e locutores do Maluco Beleza não vivem no hospital, mas com suas famílias ou em casas que funcionam como repúblicas estudantis. Sua atividade como radialistas não é apenas uma terapia ocupacional, mas parte de um processo de inclusão social e de resgate da cidadania. Eles participam da Oficina de Comunicação do Cândido Ferreira, que também edita um jornal mensal chamado Candura, "um espaço aberto para um novo pensamento", com tiragem de quatro mil exemplares.
A Reforma Psiquiátrica defende "o reconhecimento dos direitos fundamentais dos portadores de sofrimento mental, enquanto pessoas e cidadãos, e o respeito à vida e à convivência na diversidade". O movimento é inspirado no exemplo do psiquiatra italiano Franco Basaglia, que nos anos 70 revolucionou a medicina em sua área ao extinguir manicômios e inserir os internos em seu núcleo social.
Para o movimento que defende a Reforma Psiquiátrica, a internação, em hospitais, asilos ou hospícios, isola as pessoas com doenças mentais da família, do trabalho e da sociedade - o que faz com que percam as referências de vida e qualquer possibilidade de reintegração ao mundo. O atendimento clínico e terapêutico deve ser dado em centros especializados. Em Campinas há sete Centros de Atenção Psicossocial (CAP), e cada um atende 200 pessoas por dia, três deles sob supervisão do hospital.
História A história da experiência campineira é exemplar. Em 1993 o Cândido Ferreira foi considerado pela Organização Mundial da Saúde um hospital de referência no tratamento de saúde mental. Tudo começou em 1990, quando a instituição, filantrópica, tratava os doentes mentais de maneira convencional e estava praticamente falida. Então uma nova equipe assumiu sua direção. Foi feito um convênio com a Prefeitura Municipal de Campinas, e verbas do Sistema Único de Saúde (SUS) passaram a entrar no caixa.
Mais que isso, foi alterada a concepção de tratamento de doentes mentais. Liderada pelo psiquiatra William Valentim, a equipe começou a extinguir a internação dos pacientes. "Quando chegamos, havia cerca de 190 pessoas vivendo em nossas instalações. Começamos a tentar transferi-las para suas famílias. Em muitos casos os doentes não foram aceitos e em 1991 fizemos a primeira experiência de montar uma residência externa, alugada, mobiliada e mantida pelo hospital, para que eles vivessem ali", diz o psiquiatra Nobusou Oki, superintendente do Cândido Ferreira. Segundo ele, a grande virtude dessas moradias é permitir a integração com a vizinhança.
"A vida confinada num hospital psiquiátrico representa a privação da vontade e se limita à rotina de aguardar a hora da medicação, da comida ou de dormir." A convivência com vizinhos, com o dono da padaria, com a faxineira, ao contrário, é estimulante. Aos poucos, aqueles que deixam o hospital voltam a ter desejos, a sonhar com uma vida diferente, e isso facilita o processo de recuperação.
Atualmente, o Cândido Ferreira, cuja sede fica no distrito de Souzas, a 10 quilômetros do centro de Campinas, atende aproximadamente 1,2 mil pessoas, mas apenas um pequeno grupo, cerca de 80 doentes, é interno. Estes têm problemas mais sérios, deficiências clínicas ou estão sendo submetidos a tratamento de dependência de drogas ou álcool. Com a nova orientação, a camisa-de-força, o tratamento com choques elétricos ou a prática de lobotomia foram banidos.
Os funcionários não usam uniformes nem crachás. Dessa forma, evitam-se as distinções entre as pessoas que ocupam o prédio. No princípio foi difícil superar os preconceitos, mas hoje os funcionários têm orgulho de participar da equipe e o hospital tornou-se uma espécie de comunidade terapêutica. A instituição mantém 31 moradias, onde vivem 130 pessoas com problemas mentais. Algumas até tentaram voltar para casa quando foram liberadas, mas por conflitos ou pelo gosto de experimentar a independência, preferiram se mudar para as repúblicas. Quem recebe tratamento no hospital é chamado de "usuário", e não de paciente.
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