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Edição 8
Junho/2004

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Biotecnologia
O Brasil na ponta
Pesquisas brasileiras são elogiadas pela revista Nature e o crescimento de empresas na área tem sido contínuo. Faltam investidores dispostos a correr riscos

Por Andréa Wolffenbüttel*, de São Paulo

Sérgio Castro/AE
Pesquisas na área de biotecnologia: recursos dos fundos de risco devem dobrar neste ano
Você aplicaria suas economias num investimento que leva cerca de sete anos para dar resultados, não pode ser retirado durante esse período e tem uma chance de apenas 10% de dar lucro? Se lhe parece que a resposta uníssona a uma pergunta assim seria um redondo não, está enganado. Existe um grupo de investidores especializado em apostar no mais improvável porque, como é do conhecimento de todos, quando a iniciativa dá certo, o prêmio cobre os gastos de uma vida.

E um dos setores que têm atraído investidores de risco é o de biotecnologia, que cresce na esteira do sucesso do agronegócio brasileiro. Foi esse o foco da Votorantim Novos Negócios, o mais forte fundo de venture capital brasileiro, que é ligada ao grupo Ermírio de Moraes e tem Fernando Reinach, cientista de renome, como sócio. "Pela natureza do investimento, sabemos que o resgate será no longo prazo e que passaremos por diversos cenários macro-econômicos durante esse tempo. O que nos assusta mais é a dificuldade do governo em construir uma legislação clara para nortear o setor", diz Reinach.

Ele se refere à questão da Lei de Biossegurança, que está tramitando há um ano e meio no Congresso sem definição. "A falta de garantias sobre o que é legal ou ilegal restringe muito nosso campo. Além de todos os perigos intrínsecos à empreitada, ninguém quer aplicar recursos numa atividade que pode simplesmente ser proibida, como as pesquisas com células-tronco", diz. Por segurança, ele investiu apenas em três empresas de biotecnologia, todas voltadas para a agricultura. Quem recebeu maior fatia dos recursos foi a Alellyx, que, com o aporte de 11 milhões de reais, se transformou na maior e mais moderna empresa de pesquisas biotecnológicas de ponta da América Latina.

Criada por quatro sócios oriundos da Universidade de Campinas, ela entrou em operação em outubro de 2002, com 15 funcionários. Hoje conta com mais de cem. Os fundadores trabalharam no projeto de mapeamento genético da Xylella fastidiosa, bactéria que provoca a doença do amarelinho nos laranjais e que deu nome à empresa (Alellyx é Xylella lido de trás para frente).

Estimulados por Reinach, os pesquisadores animaram-se a usar o conhecimento obtido na academia para abrir uma empresa de biotecnologia com foco nas culturas de laranja, eucalipto e cana. Enquanto passeia pelo imponente laboratório de 800 m2, instalado em um condomínio tecnológico próximo de Campinas, no interior de São Paulo, Paulo Araújo, um dos sócios, fala sobre suas dificuldades. "Depois da folha de pagamentos, nossos maiores gastos vêm dos insumos, que são todos importados, e não temos nenhum incentivo fiscal. Pagamos os mesmos impostos que qualquer empresa.

No Japão e na Europa, companhias que desenvolvem tecnologia de alto valor agregado, como a nossa, têm 50% de desconto nos impostos sobre importação." Por esses e outros motivos, ele acha que ainda não existe de fato, no Brasil, uma política séria de apoio às empresas de inovação tecnológica, e muito menos uma ação específica para o ramo da biotecnologia, que geralmente consome quantias vultosas antes de trazer algum retorno. A Alellyx só deve começar a faturar seus primeiros reais dentro de oito anos.

Porém, o fantasma que mais assombra Araújo e seus colegas não vem de Brasília, e sim do Rio de Janeiro, onde funciona o Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (Inpi), órgão responsável pela concessão de patentes. O Brasil tem lidado com a questão das patentes de forma ambígua. Por um lado com respeito, porque sabe que as normas são parte fundamental do jogo da economia globalizada; por outro lado, com ameaças de quebras de direitos, como no caso do coquetel de AZT contra a aids e do remédio contra o amarelinho, que estava dizimando as plantações de laranja. "O governo pode quebrar patentes, mas tem de saber que o preço é a imediata fuga dos investimentos", avisa Reinach.

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