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Edição 6
Abril/2004

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Tecnologia na veia
O mais ambicioso projeto de inclusão digital do país injeta nova vida em Piraí, uma pequena cidade do Rio de Janeiro que se tornou referência internacional em matéria de inclusão digital.

Por Andréa Wollfenbuttel, de Piraí



Qualidade
A coordenadora de informática educativa do projeto Piraí Digital, Mônica Norris, lembra bem das primeiras aulas de treinamento dos professores, quando percebeu que, por desconhecimento, muitos demonstraram o temor de que os computadores pudessem roubar seus empregos. "Foi preciso muito tato para mostrar que a informática é uma ferramenta que vai facilitar o trabalho deles, mas nunca substituí-los", diz Norris. Agora, o quadro mudou. Os professores estão montando as aulas no computador, trocando informações por e-mail e animados para a nova etapa do curso de capacitação.

O livre acesso à Internet também está melhorando a qualidade da saúde em Piraí. A rede de transmissão permitiu a instalação de um sistema de vídeo conferência conectando o único hospital da cidade às grandes instituições de saúde do país. A primeira aplicação do novo recurso foi um treinamento em cardiologia, aberto aos médicos e funcionários interessados, ministrado por professores da Universidade Federal do Rio de Janeiro. No momento, os técnicos da secretaria de Saúde da cidade estão trabalhando para harmonizar o sistema com outras localidades para que ele também possa ser usado para consultas à distância, evitando que pacientes de Piraí tenham de deslocar-se até os grandes centros para serem examinados por especialistas.

A febre da internet acabou por contagiar todos em Piraí, sem distinção alguma, sobretudo de idade. Entre os idosos, o interesse foi tão grande que o Núcleo da Terceira Idade decidiu promover um curso para que os mais velhos pudessem aproveitar melhor um telecentro instalado especialmente para eles. A iniciativa foi um sucesso e atraiu um grande grupo de alunos que jamais tinha tido coragem de sequer tentar entender como funciona essa tal informática.

Maria do Carmo Silva Tavares, de 66 anos, estava acostumada a ver a neta passar horas diante de um monitor de computador, mas nunca tinha se aproximado da máquina. Depois do curso, continua longe do computador porque a neta não dá trégua, mas orgulha-se de poder entrar no banco e operar sozinha o terminal de auto-atendimento. "Antes eu era inibida para chegar na agência e usar o caixa automático. Tinha de pedir ajuda às pessoas. Agora faço tudo que preciso, saco dinheiro, pago as contas, tiro extrato. É uma maravilha! Já, já vou comprar um computador só para mim."

A experiência está longe de ser isolada. Daisy Lúcia Lima Botelho, coordenadora do Núcleo da Terceira Idade, percebeu que a dificuldade para lidar com os terminais bancários era algo muito comum entre os alunos do curso e que, ao se formar, quase todos os 40 estudantes tinham superado os temores. Marcelina Cândida Duarte, de 67 anos, foi mais longe. Ao freqüentar as aulas de informática descobriu que ainda tinha condições de aprender e resolveu retomar os estudos que havia abandonado quando jovem. Há três meses matriculou-se e no único curso supletivo da cidade e agora espera ansiosamente o resultado das primeiras provas. "Tenho aula todos os dias, não falto e estou decidida a ir até o fim. Vou conseguir o meu diploma!", diz, entusiasmada.

Não muito longe da casa dela, outro grupo de estudantes também está se beneficiando do livre acesso à internet: os 350 alunos que cursam a única faculdade existente na cidade, o Centro de Educação à Distância do Estado do Rio de Janeiro, (Cederj), fruto de uma parceria com as universidades públicas do estado do Rio de Janeiro. Como o nome diz, não se trata de uma faculdade convencional. É um modelo alternativo, cujo ensino é feito à distância, justamente por meio de computadores, de onde os alunos retiram todo o material didático, onde apresentam seus trabalhos e fazem contato com os professores.

Sem o auxílio de um computador, é impossível estudar, mas muita gente que não tem o equipamento em casa está cursando faculdade. Josiane Ferreira Pinheiro, de 19 anos, está concluindo o segundo semestre de Biologia. "O curso é muito puxado, mas com o suporte aqui no Cederj estou conseguindo acompanhar. Posso inclusive conversar on-line com os professores para tirar dúvidas", diz. "Sem o Cederj, provavelmente eu não estaria estudando." Ela sonha em ser pesquisadora, mesmo consciente das limitações da cidade onde vive. Flávia Batista de Oliveira Silva, de 26 anos, funcionária da Vigilância Sanitária de Piraí, também está cursando Biologia, depois de ter parado os estudos por seis anos. "Se não fosse por essa estrutura, dificilmente eu conseguiria voltar à escola", diz. Ambas vão diariamente ao Cederj, como se fossem alunas de uma escola tradicional.

Depoimentos como esses são exatamente o que o governo de Piraí esperava colher quando idealizou um município totalmente interligado. E eles são tão eloqüentes que estão atraindo a atenção dos moradores das cidades vizinhas. "Daqui a pouco teremos de criar a Piraitur para atender aos romeiros digitais", brinca Coelho, coordenador do projeto Piraí Digital. Além dos habitantes, alguns prefeitos também estão interessados em replicar o modelo de Piraí. Rio das Flores, Vassouras, Valença e Barra do Piraí, todos no estado do Rio de Janeiro, foram os primeiros a se apresentar. Como estão próximos a Piraí, surgiu a idéia de construir uma infovia de municípios digitais que aproveite ao máximo a estrutura instalada em cada um deles.

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