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Edição 6
Abril/2004

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Tecnologia na veia
O mais ambicioso projeto de inclusão digital do país injeta nova vida em Piraí, uma pequena cidade do Rio de Janeiro que se tornou referência internacional em matéria de inclusão digital.

Por Andréa Wollfenbuttel, de Piraí

Paulo Jabur
Crianças de Piraí brincam no quiosque da Praça da Preguiça, orientados por um monitor
Encravada no topo da Serra das Araras, no estado do Rio de Janeiro, a 390 metros do nível do mar, a cidade de Piraí, com cerca de 23 mil habitantes, foi repentinamente incluída no mapa da tecnologia da informação quando, em junho do ano passado, a respeitada revista norte-americana Newsweek publicou uma reportagem classificando-a entre as cidades digitais do planeta, ao lado de Auckland, na Nova Zelândia, e Seul, na Coréia do Sul.

O que colocou o pequeno município em tão prestigiosa companhia? Um ambicioso programa de inclusão digital baseado na instalação de uma rede de alta velocidade de transmissão de dados, voz e imagem que cobre 95% de toda a sua área e permite o acesso à Internet, e a seus benefícios, a praticamente todos os moradores. Desde que foi inaugurada a rede, a pacata paisagem da cidade do século XVIII vem se transformando aos poucos.

Quem passa pela Praça da Preguiça, cujo nome se deve a dois tímidos bichos-preguiça que se escondem entre as árvores, não pode deixar de reparar na movimentação ao redor de um pequeno quiosque de madeira, onde está instalado um microcomputador que monopoliza a atenção, sobretudo, de jovens e crianças. Luiz Carlos da Costa Silva, de nove anos, está sempre por lá. "É legal porque dá para baixar joguinhos", diz ele, enquanto controla com habilidade os macaquinhos que pulam na tela. A seu lado, o primo Lucas Manoel da Costa, um ano mais novo, presta atenção em tudo, procurando aprender e esperando sua vez de experimentar o novo brinquedo. Ao todo, existem oito quiosques, cada um com um microcomputador ligado à Internet, exceto o que fica na estação rodoviária, que tem dois microcomputadores. Além disso, existem 15 laboratórios de informática em escolas municipais, cada um com dez micros.

A alavanca que alçou o quase desconhecido município a referência de inclusão digital nasceu da firme convicção de um prefeito de que o conhecimento é um direito de todos e de que a tecnologia é o único meio capaz de assegurar esse direito.Tudo começou em 2001, quando Piraí ganhou o Prêmio Gestão Pública e Cidadania, concedido pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e pelo Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES), graças a um projeto de desenvolvimento econômico local. Na ocasião, o prefeito Luiz Fernando de Souza, que era filiado ao PDT, foi convidado pelo BNDES a elaborar um plano de inclusão digital para a cidade.

Foi então que Souza, mais conhecido como Pezão, justo apelido para quem calça sapatos número 47, resolveu que não faria um programa para beneficiar apenas alguns, mas para contemplar toda a população. Concebeu o projeto Piraí Digital, prevendo a cobertura dos 504 quilômetros quadrados do município por meio de transmissão de alta velocidade, sem cabos (wireless), interligada por antenas de rádio. A idéia era inovadora porque substituía o conceito tradicional de inclusão ponto a ponto por uma inclusão total e simultânea.

Além disso, também estava cerca de uma década adiante das expectativas nacionais, já que o plano da Anatel prevê que os municípios com menos de 50 mil habitantes só estejam ligados em banda larga entre 2010 e 2014. O problema era que o projeto requeria financiamento da ordem de dois milhões de reais e, para decepção de Pezão, foi vetado pelo BNDES. "Disseram que eu tinha direito a um Fusquinha e estava pedindo uma BMW", lembra Pezão. Mas o prefeito queria mesmo uma BMW. Com o plano embaixo do braço, foi bater em outras portas. "Nessa época me tornei devoto de São Pidão", diz, "ninguém agüentava mais me ver pedindo recursos."

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