Construção Civil
O Brasil sem teto
A falta de crédito, o atraso tecnológico e a informalidade emperram o desenvolvimento de um dos principais setores da economia brasileira, que responde por 7% do PIB. O déficit é de 6,7 milhões de moradias.
Por Andréa Wollfenbuttel*, de São Paulo
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Empreendimentos residenciais de luxo no bairro de Campo Belo, zona sul de São Paulo. |
Ao som estridente e alto de uma emissora popular de rádio, Crispiniano José da Silva dá os retoques finais no reboque das paredes de uma casa no Jardim Nakamura, bairro periférico da zona sul de São Paulo. O serviço será interrompido bem antes da conclusão da obra, porque Edna da Silva Souza, uma educadora social de 25 anos, não tem dinheiro para comprar o material que falta. Ela tomou um empréstimo de seis mil reais na Caixa Econômica Federal, já gastou dez mil e ainda está longe de se mudar para o novo lar, que na verdade é apenas mais um pavimento na casa de seus pais. "É complicado calcular quanto vai custar a obra porque o preço do material varia", explica o empreiteiro à proprietária à beira do desespero. Afinal, seu casamento foi adiado porque os noivos não tinham onde morar. Indiferente ao drama, Silva continua a remexer a massa, sem imaginar que com sua colher de pedreiro está misturando quase todos os elementos que compõem o problemático desempenho da construção civil no Brasil.
A primeira coisa que o pedreiro Silva ignora é que seu trabalho rende pouco. Ele passa nove horas por dia no serviço, empenha-se, mas a sua produtividade é muito baixa. A constatação foi apresentada pela consultoria McKinsey em seu estudo "Medição e Resultados da Produtividade da Mão-de-Obra do Setor de Construção no Brasil". A produtividade média do trabalhador norte-americano no setor de construção residencial é 2,9 vezes superior à do trabalhador brasileiro e a diferença é ainda maior no esquema informal em que opera o pequeno empreiteiro Silva. A culpa não é da mão-de-obra, mas da falta de padronização do material de construção, do projeto inadequado, e da falta de planejamento e organização da grande maioria dos construtores no setor de edificação.
Não é uma questão de falta de competência ou de tecnologia da indústria de construção civil, pois na área de construção pesada, dominada por empresas altamente organizadas, o Brasil é líder em muitos segmentos . O problema está especialmente nas edificações para a população de baixa renda, onde é maior a necessidade de eficiência e produtividade, pois existe um déficit de 6,7 milhões de moradias, sendo 90% entre famílias com renda inferior a cinco salários mínimos.
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