Publicidade
Edição 4
Fevereiro/2004

Publicidade
Caixa
Embraer
Imprimir

Uma chama de esperança
Os bons resultados obtidos por um trabalho desenvolvido junto a jovens infratores no Jardim Ângela, um bairro repleto de problemas na periferia de São Paulo.

por Maysa Provedello, de São Paulo


O jeito tímido, calmo e ao mesmo tempo risonho de Costa, 36 anos, parece um ingrediente crucial para coordenar tantos funcionários, voluntários além, é claro, dos adolescentes. Em meio a uma ensurdecedora aula de break (dança do movimento hip hop), conta mansamente que gosta de rap e cita seus grupos prediletos. Minutos depois, no mesmo tom, coordena reuniões de trabalho com técnicos, autoridades, faz cobranças, visita parceiros e apresenta-se em seminários. Foi com esse estilo que ele superou a insegurança em adotar padrões privados de administração e planejamento no projeto. Fechar um contrato não foi fácil, levou quase um ano. Os dois lados aprenderam a ceder durante o processo. A Fundação Telefonica reviu trâmites burocráticos e adaptou-os às possibilidades da iniciativa, que por sua vez topou incorporar padrões profissionais de trabalho e monitoramento de resultados. "Foi difícil entendermos o que era exatamente uma administração mais profissional, mas valeu a pena. Hoje estamos mais maduros", diz.

Amadurecimento O aprendizado ao qual se refere passou por momentos curiosos, que certamente se repetem em iniciativas semelhantes, dada a necessidade de adequação ao jeito e aos interesses da localidade onde estão inseridas. Por exemplo, quando estavam ainda na fase de elaboração, os fundadores do RAC planejaram a realização de um número maior de oficinas obrigatórias do que há hoje. O retorno era fraco em algumas delas, havia pouca motivação. Por isso, foi feita uma pesquisa detalhada sobre os interesses e a identidade local. A partir dos resultados, o trajeto traçado no papel ficou diferente na prática. As aulas de panificação, que não empolgavam ninguém, deram lugar ao concorrido curso de cabeleireiro. A capoeira não existe mais: foi substituída pela dança. O desconhecimento do mundo juvenil também levou a um erro inicial, que depois foi corrigido, com relação ao hip hop. Para quem não sabe, ele é um movimento ligado à rua e à música, composto por quatro elementos básicos: o rap (palavra cantada), o disk jockey - DJ (base musical), o grafite (desenho), e o break (dança). Para o começo dos trabalhos do RAC, estavam planejados cursos de DJ e grafite. "Foi muito interessante, nós também aprendemos com os meninos, que nos ensinaram que o movimento é um só, com todos esses itens", relata Costa. Hoje, eles aprendem o lado musical e ideológico do movimento, por meio dos quatro elementos, símbolos das vidas nas ruas das periferias.

Ariel de Castro, membro da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil, acredita que a iniciativa privada precisa participar de forma mais ativa da recuperação de adolescentes em conflito com a lei, não apenas doando recursos para projetos. "Não basta tratá-los com cuidados psicológicos, deixá-los preparados, se neles não houver inserção profissional", diz. Segundo ele, empresas de qualquer porte e de todo o Brasil podem firmar parcerias de estágio e contratar jovens como aprendizes. "O que o mundo nos pede, o mundo não nos dá", diz Daniel dos Santos, de 19 anos, que passou pelo RAC em 2003 sem ter participado de qualquer atividade criminosa. "Quando vamos procurar emprego, nos pedem experiência e conhecimentos que não temos como conseguir se não tivermos uma escola e a condição de aprender." No projeto ele conheceu as técnicas de pizzaiolo e se aperfeiçoou nos conhecimentos do movimento hip hop. Tentou emprego sem sucesso, mas decidiu não ficar parado. É voluntário, aos sábados e domingos, sem qualquer ajuda de custo, em uma escola local que abre aos finais de semana para a comunidade. Ali ele ensina crianças a dançar. "Eu tive sorte de não cair no crime, porque ficar de bobeira, sem fazer nada, facilita demais. Esse mundo está muito perto da gente, por isso é preciso trabalhar, nem que seja como voluntário, sem ganhar nada." Mas ele tem um sonho maior, de longo prazo: quer cursar faculdade de artes plásticas e trabalhar como professor.

PÁGINAS :: << Anterior | 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | Próxima >>


Copyright © 2007 - DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação sem autorização.
Revista Desafios do Desenvolvimento - SBS Quadra 01, Edifício Bndes, sala 801 - Brasília - DF - Fone: (61) 3315-5188