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Edição 4
Fevereiro/2004

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Uma chama de esperança
Os bons resultados obtidos por um trabalho desenvolvido junto a jovens infratores no Jardim Ângela, um bairro repleto de problemas na periferia de São Paulo.

por Maysa Provedello, de São Paulo

Samuel Iavelberg
Vista do Jardim Ângela, um dos bairros mais violentos e pobres da capital paulista
Em vez de ficar amaldiçoando a escuridão, acenda um fósforo." A frase quase simplista de autoria anônima inspirou o padre irlandês Jaime Crowe a iniciar uma pequena chama de resgate social de algumas centenas de adolescentes do Jardim Ângela, na periferia de São Paulo - um trabalho aplaudido pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef, em inglês). O bairro é grande, tem cerca de 260 mil habitantes, sendo que entre 75 e 80 mil são jovens com idade entre 14 e 24 anos. Problemas lá não faltam. Para começar, boa parte das pessoas vive em áreas irregulares, de mananciais da represa de Guarapiranga, o que dificulta a legalização das moradias e empreendimentos e adia investimentos de peso. Além disso, há tráfico de drogas, desemprego, miséria. O Jardim Ângela ostenta marcas que assustam. É um dos bairros mais violentos de São Paulo: na faixa etária de 15 a 24 anos, registra 150,1 homicídios por 100 mil habitantes, dado mais do que preocupante se comparado aos 29,7 homicídios por 100 mil habitantes ocorridos na Vila Mariana, bairro de classe média da cidade. Registra ainda o maior índice de exclusão social entre os bairros da capital paulista, segundo dados da prefeitura.

O projeto Redescobrindo o Adolescente na Comunidade (RAC), criado há quatro anos pela organização não-governamental Santos Mártires, ligada à Igreja Católica, vem conseguindo unir metodologia simples e inovadora, parceria com a comunidade e resultados invejáveis no campo das chamadas medidas socioeducativas em meio aberto, aquelas punições alternativas aplicadas a adolescentes que cometeram crimes leves ou àqueles que estão em fase de transição entre as unidades de internação e a liberdade. O RAC trabalha com duas modalidades de punições desse tipo. A primeira delas é a liberdade assistida, que prevê o monitoramento freqüente dos jovens e sua participação em atividades educativas. A segunda é a prestação de serviços à comunidade. Os jovens trabalham por algumas horas em entidades locais, como bibliotecas comunitárias e escolas, sob monitoramento dos técnicos. As atividades envolvem 250 jovens, sendo 100 em liberdade assistida, 50 em regime de prestação de serviços à comunidade e outros 100 moradores da vizinhança, sem qualquer problema com atos infracionais.

Índices O mais significativo indicador de que as ações do projeto alcançam resultados positivos é o índice de reincidência dos adolescentes. Enquanto na Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (Febem), do estado de São Paulo, a taxa de reincidência no crime dos adolescentes em liberdade assistida fica na casa de 18%, no projeto do Jardim Ângela ela não passa de 11%. Outros fatores apontam a melhoria de vida, como a presença na escola, a procura por emprego, a interação familiar.

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