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Jogo de interesses
O acordo entre a União Européia e o Mercosul depende da Rodada de Doha
por Maria Helena Tachinardi, de São Paulo
Interesse Na opinião da especialista em política agrícola européia e pesquisadora do Grupo de Economia Mundial do Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences-Po), Géraldine Kutas, o interesse da UE pelo Mercosul não vai diminuir porque mudou a Comissão Européia. "Estou convencida de que a Comissão está buscando apoio de outros blocos nas negociações da OMC e que o Brasil é um ator-chave por seu papel no G-20 (grupo formado por países em desenvolvimento). Um acordo com o Mercosul ajudaria muito nesse sentido. Mas não creio que Mandelson aceitará um acordo light", analisa. Mandelson classificou o Mercosul como prioridade número quatro de sua gestão. Ele estará preocupado com o conteúdo do acordo, mais do que com os prazos, lembra o empresário Ingo Plöger, presidente pelo Mercosul do Mercosur-European Business Fórum (MEBF), órgão empresarial criado em 1999 para facilitar os negócios entre os dois blocos. O presidente do lado europeu é Guy Dolé, presidente da Arcelor. O MEBF tentou até a última hora que os dois blocos se comprometessem com um acordo com as melhores ofertas já feitas até agora, e depois concluíssem as negociações dentro de três a quatro meses.
Propostas Ao mesmo tempo em que o calendário pressionava por uma definição sobre o acordo, o setor privado não queria a assinatura de qualquer documento com propostas irrisórias porque há interesses enormes em jogo. Vários cálculos surgiram nos últimos meses sobre os custos de oportunidades. Um deles, a pedido do Itamaraty, é do pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Honório Kume. Seu estudo revela que ao final de dez anos, se o acordo birregional se concretizasse com as últimas ofertas formais colocadas sobre a mesa (e com a administração das quotas tarifárias nas mãos dos importadores), as exportações brasileiras teriam um incremento de 649 milhões de dólares, somente levando-se em consideração a primeira etapa. O ganho seria de 393 milhões de dólares excluindo-se o etanol, produto cuja exportação para a Europa pode se materializar independente do acordo. "Seria um ganho pequeno", avalia Kume. Entretanto, segundo estimativas do Ministério da Agricultura, estão em jogo na negociação pelo menos 2,5 bilhões de dólares de ganhos adicionais de receita de exportação somente para o agronegócio brasileiro. E o MEBF chegou à conclusão de que com a melhora do acesso a mercados para os cem produtos mais exportados, haveria o ganho anual de 2,5 bilhões de dólares para o Mercosul e igual quantia para a Europa, ao final do período de implementação total do acordo. "Isso representaria um adicional de 1,5% ao PIB do Mercosul", diz Plöger.
Prioridade O interesse do lado europeu prende-se à abertura de mercados no Mercosul para seus produtos industriais, serviços, investimentos e participação nas compras governamentais. Em 2002 a agricultura representou apenas 3% do total exportado pela União Européia para o Mercosul. Os principais produtos embarcados foram vinhos e demais bebidas alcoólicas, malte e azeite de oliva. Em contrapartida, a UE absorve 35% de todas as exportações agrícolas do Mercosul, que representam 48% de tudo o que o bloco vende para os europeus.
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