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Edição 34
Agosto/2006

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Fernando Reinach Inovação e risco
Investimentos em projetos de inovação dão retorno no longo prazo e têm risco elevado. Sem segurança quanto à propriedade intelectual, não se investe

Por lia Vascocncelos, de São Paulo

"A ciência, em si, é igual no mundo inteiro.Mas a maneira como é avaliada, os critérios de excelência, a relação entre a ciência e a tecnologia; assim como a percepção da sociedade sobre informação, inovação, tudo isso é muito diferente, varia de país para país"

Desafios - O senhor foi um dos criadores do Projeto Genoma, que produziu o seqüenciamento genético da Xylella fastidiosa. Esse projeto pode ser considerado um marco a partir do qual se estabeleceu uma nova forma de produzir ciência no país? Qual seu legado?
Reinach -
Esse foi, sem dúvida, um marco na produção de ciência na área da biologia. Tradicionalmente, as pesquisas biológicas ocorriam em projetos pequenos, que envolviam poucas pessoas e não compunham um grande trabalho em equipe. Os físicos já há muitos anos tinham projetos assim, mais ambiciosos, como o dos aceleradores nucleares, máquinas enormes que forçavam os pesquisadores a trabalhar em equipes grandes. Os projetos de genoma foram os primeiros que obrigaram a reunião de esforços de pesquisadores em biologia para que fosse possível a obtenção de resultados. Houve outro aspecto interessante.

A ciência brasileira é muito hierarquizada. Nesse caso, os grande papas, com 60 a 70 anos de idade, não se envolveram, pois no início muitos não acreditaram no projeto.Os envolvidos no trabalho tinham, em sua maioria, menos de 40 anos. Para eles, o desafio era formar uma nova geração de pesquisadores, fora da tutela dos mais velhos. Assim, o trabalho teve também um papel importante na auto-estima das pessoas, dos cientistas brasileiros, e da ciência do país em geral. Desenvolvemos, no Brasil, um projeto que foi capa da revista Nature, foi citado em reportagem da revista The Economist. Assim, toda uma geração teve a sensação de que era possível fazer coisas maiores. Creio que o Projeto Genoma foi um fator importante para quebrar aquele complexo de país subdesenvolvido, de que sempre fazemos coisas de segunda categoria.Outro de seus legados foi a formação de uma quantidade enorme de pessoas. Hoje existe no Brasil uma nova geração muito ativa de biologistas moleculares, e parte disso se deve ao projeto.

Desafios - Qual foi a importância do trabalho em rede?
Reinach -
A rede permitiu que muita gente trabalhasse em conjunto e produzisse resultados melhores.O potencial da rede está em reunir pessoas para tentar resolver problemas maiores do que a soma das partes. Para que alcance bons resultados, o trabalho exige coordenação, liderança e entendimento entre as pessoas.Numa rede não existe uma estrutura hierárquica, como numa empresa ou num centro de pesquisa, o que não é comum no ambiente científico. É uma maneira nova de trabalhar, e por isso não é fácil fazer com que as coisas funcionem. Nesse caso, fomos bem-sucedidos. Há outros que não têm a mesma sorte.

Desafios - É possível ser otimista em relação ao ambiente de inovação no país?
Reinach -
Às vezes sou otimista, às vezes pessimista.Veja nossa experiência com biotecnologia agrícola. Começamos há cinco anos, quando a regulamentação dos transgênicos estava um caos.Calculamos que em cinco anos o Brasil teria resolvido o problema,e investimos. Agora, temos uma empresa que vai começar a gerar produtos.Eles precisam ser aprovados para liberação comercial e o caos permanece igual. É preciso definir, por exemplo, se biotecnologia agrícola é importante para o país.A falta de decisão é desanimadora, mas no geral eu acho que as coisas estão melhorando.As empresas estão mais atentas à necessidade de inovação, às oportunidades reais de geração de riqueza com a ciência. Onde estão as chances reais do Brasil? Em biodiversidade e biotecnologia agrícola, por exemplo.

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