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Edição 34
Agosto/2006

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Fernando Reinach Inovação e risco
Investimentos em projetos de inovação dão retorno no longo prazo e têm risco elevado. Sem segurança quanto à propriedade intelectual, não se investe

Por lia Vascocncelos, de São Paulo

Marco Antonio SáFernando de Castro Reinach deveria dispensar apresentação. Biólogo que há mais de 25 anos atua na academia, na administração pública e na iniciativa privada, esse brasileiro de renome internacional tem sua marca em importantes inovações.

Formou, por exemplo, a primeira rede de pesquisa cooperativa entre laboratórios - um dos fatores do sucesso do Projeto Genoma brasileiro,modelo adotado,hoje, em todo o mundo.Diretor executivo da Votorantim Novos Negócios, fundo de investimento de capital de risco em empresas tecnológicas, Reinach falou a Desafios sobre problemas e vantagens do Brasil em ciência e inovação.

Desafios - Como está o ambiente de negócios para quem quer investir em inovação tecnológica no Brasil?
Reinach -
Acho que dois aspectos interligados pesam contra a inovação no Brasil.O primeiro é a falta de uma cultura de respeito à propriedade intelectual. O Brasil ainda está tentando resolver o respeito à propriedade de bens físicos, então, para a maioria dos brasileiros, é estranho o conceito de que idéias também têm dono, não podem ser roubadas, e as pessoas têm de ser remuneradas por suas invenções e descobertas.A inovação se dá pela segurança de que, se for incorporada a um produto, terá um valor. Assim, o respeito à propriedade intelectual é central para que haja inovação, e esse movimento ainda está começando no Brasil. Outro aspecto é o econômico. Inovar requer investimento e dá retorno no longo prazo.Não é como montar um posto de gasolina, que fatura assim que começa a operar. O tempo de carência de investimentos em projetos de inovação,até que gerem riqueza, é grande. E pressupõe risco. Para que investidores estejam dispostos a correr esse risco e esperar o tempo necessário até obter retorno, é necessário que haja umambiente de segurança - e aí voltamos ao respeito à propriedade intelectual, à Lei de Patentes.Afinal, por que alguém investirá milhões num produto novo se no dia seguinte ele será copiado? A cultura brasileira, portanto, tem de mudar.O governo tem de afirmar que é contra a apropriação indébita, a Lei de Patentes tem de valer, a Lei de Cultivares existe para ser respeitada.

E esses conceitos têm de ser disseminados entre a população.É verdade que o remédio está caro,mas é preciso considerar que os investimentos feitos antes do lançamento de um medicamento inovador devem ser remunerados.

Desafios - Patentes são indicadores importantes da inovação em um país? Reinach - A vantagem das patentes está no fato de os registros serem de fácil contabilização. No entanto, o que importa é a quantidade do PIB nacional, da riqueza gerada com a inovação.Deveríamos somar quanto as patentes produzem, em dinheiro, pois muitas inovações patenteadas jamais chegam ao mercado. Ultimamente tem-se falado que o Brasil será exportador de tecnologia de etanol,mas a verdade não é essa: não temos patente nessa área. O produto brasileiro tem de ter essa carapaça, que agrega valor. Como não tem, a geração de riqueza nessa indústria é proveniente da venda de equipamentos. E há risco em utilizar o número de patentes como indicador.Por exemplo, se o indicador de alfabetização é a competência para escrever o alfabeto, e os professores são pagos para alcançar essa meta, logo o índice de alfabetização sobe, mas os supostos alfabetizados nem sempre são capazes de compreender uma frase simples. É, portanto, preciso dar mais atenção à qualidade.

Ciência, administração e negócios

Aos 51 anos de idade, o biólogo Fernando de Castro Reinach é um dos poucos cientistas brasileiros que acumulam experiências não só em laboratórios e em salas de aula, mas também em prospecção de negócios, criação de empresas e administração pública. Professor titular de Bioquímica na Universidade de São Paulo (USP), licenciado, é diretor executivo da Votorantim Novos Negócios, fundo de capital de risco destinado a fomentar empresas de base tecnológica.Antes, trabalhou em entidades como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e foi secretário de desenvolvimento científico do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). Fundou a .comDominio, prestadora de serviços de datacenter, e a Genomic Engenharia Molecular, um dos primeiros laboratórios a realizar testes de paternidade no Brasil; além de empresas como a Alellyx e a CanaVialis, cujo objetivo é explorar o potencial da ciência genética no campo agroindustrial. É autor de três livros e mais de sessenta artigos publicados em periódicos científicos.

O currículo pode indicar que se trata de uma pessoa inquieta e criativa ou de alguém com talento para aproveitar as oportunidades que se apresentam. Digamos que Reinach não deixa passar oportunidades, mas sua característica mais notável é a criatividade. É um dos pais do Projeto Genoma, cujos feitos garantiram respeito do universo internacional da pesquisa à ciência brasileira. Foi o idealizador da formação de redes de laboratórios para investigação cooperativa, modelo mais tarde adotado em todo o planeta. Não foi por acaso que seu nome figurou na edição de dezembro de 2003 da revista Scientific American entre as cinqüenta personalidades que mais contribuíram para o desenvolvimento tecnológico no mundo. Também não é por acaso que está nesta edição de Desafios. Trata-se de personagem ímpar, cujas idéias merecem ser observadas com atenção.

Desafios - O que é necessário para que o conhecimento produza riqueza? Reinach - O principal é criar um cenário claro de respeito à propriedade intelectual, com cortes especiais no Judiciário. A incerteza inibe o investimento. Além disso, a Lei de Inovação não mexeu num ponto fundamental: as bases legais para que se possa fazer investimento de risco em pesquisas desenvolvidas nas universidades.Nossas empresas buscam pessoas nas universidades para que não haja dúvida sobre a paternidade de inovações, desenvolvidas dentro das companhias. Isso é ruim para o investidor, porque é mais caro,e para a universidade,que não recebe investimento. A Lei de Inovação permite que o funcionário público tire licença ou passe determinado número de horas em consultoria a empresas.

Mas não resolve nenhum dos problemas do capital de risco, da insegurança institucional. O que mais que falta?
Universidades que gerem conhecimento capaz de criar riqueza.Um dos erros está em considerar que é papel da universidade desenvolver um produto,um remédio,uma máquina.Para que a teoria gere riqueza, tem de haver a intermediação da empresa. O sistema que funciona melhor é o seguinte: a universidade gera a idéia, a propriedade intelectual. O capital de risco, que percebe o que tem potencial de mercado, cria uma sociedade entre a universidade e o setor privado.Agora, a universidade tem de ser remunerada.E para isso são necessárias regras claras.

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