Fernando de Castro Reinach deveria dispensar apresentação. Biólogo que há mais de 25 anos atua na academia, na administração pública e na iniciativa privada, esse brasileiro de renome internacional tem sua marca em importantes inovações.
Formou, por exemplo, a primeira rede de pesquisa cooperativa entre laboratórios - um dos fatores do sucesso do Projeto Genoma brasileiro,modelo adotado,hoje, em todo o mundo.Diretor executivo da Votorantim Novos Negócios, fundo de investimento de capital de risco em empresas tecnológicas, Reinach falou a Desafios sobre problemas e vantagens do Brasil em ciência e inovação.
Desafios - Como está o ambiente de negócios para quem quer investir em inovação tecnológica no Brasil?
Reinach - Acho que dois aspectos interligados pesam contra a inovação no Brasil.O primeiro é a falta de uma cultura de respeito à propriedade intelectual. O Brasil ainda está tentando resolver o respeito à propriedade de bens físicos, então, para a maioria dos brasileiros, é estranho o conceito de que idéias também têm dono, não podem ser roubadas, e as pessoas têm de ser remuneradas por suas invenções e descobertas.A inovação se dá pela segurança de que, se for incorporada a um produto, terá um valor. Assim, o respeito à propriedade intelectual é central para que haja inovação, e esse movimento ainda está começando no Brasil. Outro aspecto é o econômico. Inovar requer investimento e dá retorno no longo prazo.Não é como montar um posto de gasolina, que fatura assim que começa a operar. O tempo de carência de investimentos em projetos de inovação,até que gerem riqueza, é grande. E pressupõe risco. Para que investidores estejam dispostos a correr esse risco e esperar o tempo necessário até obter retorno, é necessário que haja umambiente de segurança - e aí voltamos ao respeito à propriedade intelectual, à Lei de Patentes.Afinal, por que alguém investirá milhões num produto novo se no dia seguinte ele será copiado? A cultura brasileira, portanto, tem de mudar.O governo tem de afirmar que é contra a apropriação indébita, a Lei de Patentes tem de valer, a Lei de Cultivares existe para ser respeitada.
E esses conceitos têm de ser disseminados entre a população.É verdade que o remédio está caro,mas é preciso considerar que os investimentos feitos antes do lançamento de um medicamento inovador devem ser remunerados.
Desafios - Patentes são indicadores importantes da inovação em um país? Reinach - A vantagem das patentes está no fato de os registros serem de fácil contabilização. No entanto, o que importa é a quantidade do PIB nacional, da riqueza gerada com a inovação.Deveríamos somar quanto as patentes produzem, em dinheiro, pois muitas inovações patenteadas jamais chegam ao mercado. Ultimamente tem-se falado que o Brasil será exportador de tecnologia de etanol,mas a verdade não é essa: não temos patente nessa área. O produto brasileiro tem de ter essa carapaça, que agrega valor. Como não tem, a geração de riqueza nessa indústria é proveniente da venda de equipamentos. E há risco em utilizar o número de patentes como indicador.Por exemplo, se o indicador de alfabetização é a competência para escrever o alfabeto, e os professores são pagos para alcançar essa meta, logo o índice de alfabetização sobe, mas os supostos alfabetizados nem sempre são capazes de compreender uma frase simples. É, portanto, preciso dar mais atenção à qualidade.
| Ciência, administração e negócios |
Aos 51 anos de idade, o biólogo Fernando de Castro Reinach é um dos poucos cientistas brasileiros que acumulam experiências não só em laboratórios e em salas de aula, mas também em prospecção de negócios, criação de empresas e administração pública. Professor titular de Bioquímica na Universidade de São Paulo (USP), licenciado, é diretor executivo da Votorantim Novos Negócios, fundo de capital de risco destinado a fomentar empresas de base tecnológica.Antes, trabalhou em entidades como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e foi secretário de desenvolvimento científico do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). Fundou a .comDominio, prestadora de serviços de datacenter, e a Genomic Engenharia Molecular, um dos primeiros laboratórios a realizar testes de paternidade no Brasil; além de empresas como a Alellyx e a CanaVialis, cujo objetivo é explorar o potencial da ciência genética no campo agroindustrial. É autor de três livros e mais de sessenta artigos publicados em periódicos científicos.
O currículo pode indicar que se trata de uma pessoa inquieta e criativa ou de alguém com talento para aproveitar as oportunidades que se apresentam. Digamos que Reinach não deixa passar oportunidades, mas sua característica mais notável é a criatividade. É um dos pais do Projeto Genoma, cujos feitos garantiram respeito do universo internacional da pesquisa à ciência brasileira. Foi o idealizador da formação de redes de laboratórios para investigação cooperativa, modelo mais tarde adotado em todo o planeta. Não foi por acaso que seu nome figurou na edição de dezembro de 2003 da revista Scientific American entre as cinqüenta personalidades que mais contribuíram para o desenvolvimento tecnológico no mundo. Também não é por acaso que está nesta edição de Desafios. Trata-se de personagem ímpar, cujas idéias merecem ser observadas com atenção.
Desafios - O que é necessário para que o conhecimento produza riqueza? Reinach - O principal é criar um cenário claro de respeito à propriedade intelectual, com cortes especiais no Judiciário. A incerteza inibe o investimento. Além disso, a Lei de Inovação não mexeu num ponto fundamental: as bases legais para que se possa fazer investimento de risco em pesquisas desenvolvidas nas universidades.Nossas empresas buscam pessoas nas universidades para que não haja dúvida sobre a paternidade de inovações, desenvolvidas dentro das companhias. Isso é ruim para o investidor, porque é mais caro,e para a universidade,que não recebe investimento. A Lei de Inovação permite que o funcionário público tire licença ou passe determinado número de horas em consultoria a empresas.
Mas não resolve nenhum dos problemas do capital de risco, da insegurança institucional. O que mais que falta?
Universidades que gerem conhecimento capaz de criar riqueza.Um dos erros está em considerar que é papel da universidade desenvolver um produto,um remédio,uma máquina.Para que a teoria gere riqueza, tem de haver a intermediação da empresa. O sistema que funciona melhor é o seguinte: a universidade gera a idéia, a propriedade intelectual. O capital de risco, que percebe o que tem potencial de mercado, cria uma sociedade entre a universidade e o setor privado.Agora, a universidade tem de ser remunerada.E para isso são necessárias regras claras.
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