![]() |
|
Paul Dempsey Voando às cegas
Por Marina Nery, do Rio de Janeiro
Desafios - Com essa perspectiva tripla do mercado de aviação, o senhor considera que o Brasil deve ou não mudar o controle aéreo para mãos civis? Desafios - Como especialista em regulação do espaço aéreo, o senhor defende um mercado mais, ou menos, regulado? Desafios - E quem pagou todo esse prejuízo? Desafios - Essa situação prejudica mais as grandes companhias ou as pequenas?
Poucos profissionais entendem tanto do mercado de aviação quanto Paul Stephen Dempsey. Afinal, como ele mesmo diz, sua perspectiva tem pelo menos três visões: a de ex-advogado de uma extinta agência de regulação da aviação norte-americana (Civil Aeronautics Board), a de acadêmico de economia (professor do Institute of Air & Space Law, da McGill University, no Canadá) e a de empresário preocupado com os negócios, proprietário da bem-sucedida Frontier Airlines, que começou com duas aeronaves em 1994 e hoje já possui 55,que voam nos Estados Unidos, no México e no Canadá.Do alto de toda essa experiência,ele avalia a crise das companhias aéreas em todo o mundo.
Dempsey - Em primeiro lugar, é preciso analisar sempre o mercado aéreo de um país de acordo com suas especificidades. As características chinesas jamais serão as mesmas das indianas, por exemplo. Em relação ao caso brasileiro, trata-se de analisar eficiência e custo. É mais caro o controle civil ou o militar? Em qual deles há mais segurança para o passageiro? Qual deles ocasionará mais atrasos e congestionamentos? São variáveis desse gênero que necessitam ser levadas em conta. Mesmo em outros países em que os civis mantêm o controle,há muita infraestrutura em mãos militares. O Brasil também deve refletir em qual vertente poderá haver controle político exacerbado por autoridades de governo.Não vou me arriscar a dar uma opinião em favor de um controle ou de outro, até porque não sou um estudioso das condições específicas do Brasil,mas estou fornecendo as variáveis que precisam ser avaliadas para uma tomada de decisão nesse assunto.
Dempsey - O que pude verificar nos Estados Unidos é que, após a desregulação da indústria aérea, em 1978, as perdas financeiras cresceram progressivamente. Na era pré-regulação nos Estados Unidos não houve falência de companhias aéreas. Mas em 1981- 1982 duas grandes companhias aéreas americanas faliram e uma foi liquidada. As perdas financeiras do mercado aéreo foram da ordem de 1,4 bilhão de dólares. De 1990 a 1994, cinco grandes empresas aéreas entraram em falência e duas em liquidação.Naquele período, o prejuízo foi de mais 13 bilhões de dólares. Por fim, de 2000 a 2006 cinco grandes empresas aéreas também faliram. O rombo somente nestes últimos seis anos alcançou 35 bilhões de dólares. A indústria aérea norte-americana perdeu todo o lucro auferido desde o vôo inaugural dos irmãos Wright. É como disse Alfred Kahn, um dos maiores estudiosos da regulação econômica: “A competição destrutiva tem sido uma das surpresas desagradáveis da desregulação”.
Dempsey - Os passageiros pagaram as contas.E os acionistas sofrem também. No caso das empresas que entraram em concordata,os credores se transformaram em acionistas.As empresas aéreas também deixaram de ter um lucro maior.Houve época em que o lucro era de 6%, mas ele declinou radicalmente após a tragédia das torres gêmeas em 11 de setembro de 2001. Hoje, a margem de lucro de 2% a 3% é considerada muito boa. Desde a invenção da roda, no longo prazo ninguém ganhou dinheiro transportando pessoas.
Dempsey - A menos que as grandes empresas aéreas aumentem o faturamento, elas têm uma estrutura de custos insustentável. Suas principais despesas são com a força de trabalho (32% dos custos do setor de transporte aéreo) e combustível (18% dos custos). As empresas que estão entrando no mercado têm certa vantagem em relação a esses custos.

