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A vida que segue
O Brasil tem o maior sistema público de transplantes do mundo, que cobre 75% dos 15 mil procedimentos realizados anualmente no país. Porém, fora das salas de cirurgia, o sistema sofre com a falta de profissionais capacitados para detectar potenciais doadores, a concentração geográfica dos hospitais credenciados e a ausência de informações confiáveis
Por Sucena Shkrada Resk, de São Paulo
Há oito anos, Luiz César Rossi, um paulista de 49 anos, passa três vezes por semana por sessões de hemodiálise que duram, em média, quatro horas cada uma. "Eu gostaria de sair da máquina, porque maltrata muito a gente", desabafa. Ele é um dos mais de 33 mil brasileiros que estão na fila do transplante à espera de um rim. Enquanto o tempo passa, Rossi luta contra o "fantasma da morte"e alimenta a expectativa de dias melhores. A história de Rossi não parece condizer com a realidade de um país que mantém o maior sistema público de transplantes do mundo, cobrindo 75% de todos os procedimentos realizados, e conta com um corpo médico da mais alta qualificação na especialidade. O problema é que, se a técnica é moderna, a gestão do sistema jamais atingiu o mesmo patamar de excelência. Muito pelo contrário. O estigma de uma fila de 68. 195 pessoas à espera de órgãos, de acordo com dados mais recentes do Sistema Nacional de Transplantes (SNT), que só vão até julho do ano passado; a subnotificação no registro de captação de órgãos e tecidos; e a disparidade de cobertura regional são considerados os principais obstáculos para que o sistema funcione de forma eficiente. Óbitos "A média de espera, de acordo com o órgão a ser doado, varia de 5, 5 a onze anos. Muitos pacientes morrem antes disso", constata o economista Alexandre Marinho, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e responsável por estudos desenvolvidos sobre a eficiência do SNT, subordinado ao Ministério da Saúde (MS). O SNT, entretanto, não mantém um controle de registro sistematizado desses óbitos. "Muitas vezes, descobre-se que o paciente faleceu quando ele é chamado para o transplante. No estado de São Paulo, o controle da mortalidade é um pouco melhor, principalmente em relação à fila de rins e à de fígados, que exigem exames periódicos dos pacientes", afirma a presidente da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), a nefrologista Maria Cristina Ribeiro de Castro. Os dados, segundo ela, seriam importantes para melhorar os procedimentos adotados para a própria fila. "O ideal seria haver softwares específicos e analistas que pesquisassem os levantamentos para apontar alternativas viáveis para melhorar a sobrevida dos pacientes", considera. Números Quando se observa o número de transplantes realizados pelo SNT em 2004 e 2005, o aumento é mínimo, foram respectivamente 11. 074 e 11. 095, segundo dados disponibilizados pelo próprio órgão. A ampliação é mais significativa na comparação com os anos anteriores. Em 2001, foram 7. 229; no ano seguinte, houve 7. 981 intervenções cirúrgicas; e 8. 544 em 2003. De acordo com o SNT, em situação regular de autorização hoje existem 211 estabelecimentos para transplante de rim, em 23 estados; 53 para transplante de fígado, em treze estados; 64 para transplante de coração, em dezoito; 701 estabelecimentos para transplante de córnea, em 22 estados, e oito para transplante de pulmão, em três. Ao todo, são 25 centrais de transplantes, que cobrem todas as unidades da federação, exceto os estados de Roraima e Tocantins, atendidos pelas demais referências da região. "Considerando que muitos serviços realizam uma quantidade de transplantes aquém de sua capacidade, percebemos que o número de equipes e estabelecimentos é suficiente, embora haja concentração desses serviços nas regiões Sudeste e Sul . As exceções são o transplante pulmonar e o de medula óssea, com serviços em número insuficiente", diz Roberto Schlindwein, coordenador do SNT. Segundo ele, o SNT e as câmaras técnicas específicas de especialistas estudam a melhor estratégia para relacionar o número de serviços à concentração populacional e à organização de redes de referência para o adequado acesso do cidadão a esses serviços. "O objetivo é estabelecer redes assistenciais que possam diagnosticar as necessidades de transplante e permitir um fluxo adequado de encaminhamento desses pacientes a um serviço de referência para sua inclusão na lista de espera, contemplando todo o território nacional", afirma Schlindwein. No processo de ampliação, as mais recentes Centrais Estaduais de Transplante foram implementadas no Acre, em Rondônia e no Amapá. "Já são realizados transplantes renais no Acre e existe autorização para o transplante de medula na região Nordeste", informa o coordenador do SNT. 

