Desafios - Mas agora a Alca já perdeu muita força, até por uma decisão do Brasil...
Baumann - Do Brasil e de outros também. O Brasil não é a única pedra no sapato da Alca. O Brasil é, talvez, a economia que mais tem a perder se a negociação for malfeita. Por quê? Porque tem uma estrutura produtiva diversificada. Porque tem nítidas vantagens comparativas no agronegócio. E porque tem interesse direto em regras em relação às quais boa parte dos países demonstra resistência em negociar: disciplina de aplicação de código antidumping, disciplina para aplicação de subsídios, questões de propriedade intelectual e medidas de incentivos a investimentos. Tudo isso é de extremo interesse brasileiro, e tudo isso não se quer negociar na Alca. Então qual é a graça? Não é que o Brasil tenha empatado a Alca, é que se ele não fizer isso corre o risco de ter uma significativa perda.

Desafios - Bem, a Alca esfriou, Doha ora avança, ora recua, e mesmo assim o Mercosul não evolui. O comércio interno no bloco continua caindo.
Baumann - Acontece que em alguns setores, como linha branca e têxtil, o Brasil e a Argentina sempre foram concorrentes diretos. Por isso, os brasileiros, mais uma vez, aceitaram as cotas em termos de volume de suas exportações, entendendo que elas dariam espaço no mercado argentino para os produtores locais. Mas uma das grandes queixas, hoje, dos negociadores brasileiros é que acabou ocorrendo um desvio de comércio. Em lugar da substituição de produtos brasileiros por argentinos, está havendo uma enorme substituição de produtos brasileiros por produtos chineses.
Desafios - E vice-versa da parte do Brasil. Em 2006, a China foi o segundo maior fornecedor para o Brasil, ultrapassando a Argentina.
Baumann - Aí são coisas um pouco diferentes. No caso das importações brasileiras, trata-se do peso relativo de um fornecedor no valor total importado. Se você importa trigo da Argentina pagando 100 e importa componentes
eletrônicos da China pagando 2 mil, é claro que as compras da China vão pesar mais. No caso que eu mencionei, é substituição produto a produto. É como se o Brasil se autolimitasse nas suas exportações de sapato e depois descobrisse que, em vez de os argentinos estarem produzindo sapatos, eles estão comprando sapato chinês.
Desafios - Brasil e Argentina vivem sempre em conflitos comerciais. Agora a Argentina está em disputa com o Uruguai por causa da fábrica de papel. O Paraguai há muito que se sente alijado do grupo e reclama das assimetrias econômicas. O Mercosul é um casamento em crise total.
Baumann - O casamento pode estar em crise, mas pagar pensão é muito caro. O custo de sair é muito alto. Por isso, mantém- se essa relação de amor e ódio. Em 2006, nós fizemos aqui na Cepal um documento sobre os quinze anos do Mercosul. Olhando os dados oficiais
apresentados nesse documento, é fácil constatar que Uruguai e Paraguai não têm muito a festejar. Eles têm déficit comercial com os demais países do bloco e têm déficit em relação ao resto do mundo. Era esperado que no comércio regional houvesse uma compensação, já que o Mercosul não tem nenhum fundo de desenvolvimento para superar eventuais desequilíbrios comerciais. Há uma percepção crescente por parte do Brasil e da Argentina de que algo tem de ser feito em relação aos sócios menores, já que só existe um exercício de integração regional sustentável ao longo do tempo se os participantes constatarem
que houve ganhos. Isso explica,
em grande medida, as recorrentes tentativas,
por exemplo, do governo uruguaio
de negociar de forma bilateral
com os Estados Unidos. Mesmo a Argentina,
no passado, tentou essa negociação. E elas só não se concretizaram por uma resistência da parte dos Estados Unidos, que sempre afirmaram que querem negociar com os quatro.
"O casamento pode estar em crise, mas pagar pensão é muito caro. O custo de sair é muito alto. Por isso, mantém-se essa relação de amor e ódio" |
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