![]() |
|
Uma idéia luminosa
Por Patrícia Marini, de Maquiné, RS
"É claro que não posso viver só desse trabalho", diz Renck, que também ajuda o pai na fábrica de esquadrias da família. "O Fábio Rosa me ganhou no dia em que fui acompanhá-lo para aprender a fazer a instalação dos sistemas de energia solar. Andamos por uma trilha no mato até chegar a uma clareira com um casebre de chão de terra batida, onde viviam uma anciã e uma menina. Quando a lâmpada acendeu, a mulher jogou-se de joelhos aos meus pés, agradecendo, e disse que achava que ia morrer sem conhecer luz elétrica. Depois disso, não largo mais esse trabalho", lembra Renck. A família de Veranilda da Silva vive em uma localidade perto do mar, mas a 700 metros de altitude. São poucas as moradias. Criaram os três filhos à luz de lampião. "De manhã, as narinas do bebê estavam pretas de ficar respirando a fumaça de querosene durante a noite. "Seu vizinho Manuel Fisher, caseiro de uma fazenda improdutiva de 300 hectares há vinte anos, mora com o filho que trabalha como servente de pedreiro e acha que o ganho com os painéis solares "não é grande coisa, nem dá pra funcionar uma geladeira, e a TV pega mal". Fisher sonha em mudar-se para uma pequena chácara que adquiriu, 20 quilômetros mais perto da vila. Mesmo julgando que a energia que tem não é tão farta quanto a das redes urbanas, ele paga sua conta de luz sempre adiantado. Praticamente numa volta às origens, o Ideaas agrega a disponibilidade de energia
renovável a estímulos para produção, geração de renda e melhoria da qualidade de vida no meio rural, dentro de outro projeto, batizado de Quíron. Os primeiros módulos estão na zona rural do município de Encruzilhada do Sul, numa vasta região pobre conhecida como Metade Sul do Estado. O Quíron consiste não apenas em levar energia, mas em implantar um plano de longo prazo para geração de renda. A propriedade passa por três fases produtivas:no primeiro ano, a renda mensal média pode triplicar com a colheita de feno de alfafa, por exemplo; a partir do terceiro ano, a renda média aumenta cinco vezes com a colheita de uvas para fornecimento às vinícolas; e, em vinte anos, aumenta 25 vezes, com a produção de madeiras nobres nativas para a indústria moveleira, concentrada na região da serra gaúcha. Seis meses depois de ter acesso à energia, 80% das famílias de Encruzilhada tinham adquirido telefone celular. Para elas, o único meio de comunicação com a cidade. Psicologia Hoje, ele visita as comunidades acompanhado de uma psicóloga. "Estamos falando de gente. Eu sei que tenho de trabalhar com melhoria da renda familiar, mas como explicar a uma pessoa que não tem água para beber que ela vai ter de capinar o dia todo? Não funciona assim, primeiro você tem de estabelecer relações. Das várias possibilidades que temos de chegar a isso, a que mais caminha hoje passa pelo acesso à energia. Para nós, esta é a oportunidade de iniciar um processo de mudança. A luz, ou o acesso a esse código da modernidade, tem um significado:o cidadão sente-se incluído na sociedade. " A Metade Sul está sendo palco de grandes plantios de eucalipto por indústrias papeleiras para fabricação de celulose. Os investimentos têm gerado polêmica. O Ideaas também desenvolve um modelo de manejo florestal. No município de Alegrete, na fronteira oeste do estado, usou espécies madeireiras nativas da mata atlântica. Começou há quatro anos. "Agora estamos medindo o desempenho dos vegetais. Temos
mais doze ou treze anos para entrar em boa
produção", prevê Rosa. São 25 espécies de árvores, de três tipos: as pioneiras (que crescem mais rápido e farão sombra para as demais), as de floresta intermediária e as de madura (madeiras nobres, como louro ou cedro, só se desenvolvem bem na sombra). Um metro cúbico de eucalipto vale 200 reais para o produtor. Um metro cúbico de cedro vale 2 mil reais. "Podemos produzir isso em quinze ou vinte anos, como apontam nossos estudos, e encontro uma oportunidade de negócio muito interessante e uma aplicação prática do que significa entender e valorizar a biodiversidade. Não estou falando em cortar árvores nativas, mas em coletar nosso banco genético e passar a manipulá-lo de forma inteligente, inclusive para recuperar áreas degradadas", explica. "Os franceses importam o fruto da aroeira, colocam em frascos e exportam como pimenta, um rico condimento. Por que não plantamos aroeira e fazemos um projeto para comunidades? Não é difícil! Por que ninguém fez?" Para Fábio Rosa, as espécies exóticas têm um papel a cumprir. "Até porque não temos alternativa, hoje somos prisioneiros disso, precisamos desse processo, mas temos de criar uma situação mais inteligente e, além disso, boa para todo mundo: para a natureza e para a gente. E para prender o homem no campo. Numa propriedade de 5 hectares, se 1 hectare for reservado para produção de madeira nativa, em vinte anos o produtor passa a receber por mês 1, 7 mil dólares. Eles plantam cana, alguns têm gado. O conceito do projeto é criar um fluxo de caixa estável para o produtor rural. " Custos Em projetos assim, tirar uma família da miséria e levá-la a um nível de pobreza com dignidade tem custo médio em torno de 15 mil dólares, em três anos de investimento. É um valor relativamente alto se não for contabilizado o impacto social e ambiental. O BNDES trabalha com a cifra de 5 mil dólares em investimentos em infra-estrutura para criar um emprego urbano. O custo para assentar uma família numa vila, com casa popular e saneamento básico, gira em torno de 4 mil dólares. "Isso é para restabelecer alguém que saiu de um lugar e foi para outro. Deixar o homem lá talvez valha muito mais a pena, até pela questão cultural", argumenta Rosa. "Temos observado que o acesso à energia elétrica catalisa o interesse de todos. Os 15 mil dólares vão em acesso à energia, na infra-estrutura da casa e na implantação da área produtiva. Assim que podem, a primeira coisa que fazem é melhorar as coisas básicas: o fogão (as mulheres são muito vulneráveis a moléstias pulmonares), o acesso à água e fazer um banheiro. É impressionante isso. Passei a considerar que a melhor forma de introduzir um processo de mudança comportamental não é entrar pressionando pela questão econômica, mas sim com as coisas que movem a vida das pessoas: a melhoria das condições da habitação, a perspectiva de ter os filhos bem cuidados, de ter um banheiro. . . "

