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Edição 31
Maio/2006

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Uma idéia luminosa
Por Patrícia Marini, de Maquiné, RS

Eduardo Tavares
Veranilda Lusia da Silva acende a lâmpada que lhe permite ler e fazer crochê à noite

Era uma vez um engenheiro agrônomo que se tornou Secretário de Agricultura de uma cidade recém-emancipada. Pretendia construir estradas para ajudar a população rural, mas descobriu que o que fazia mais falta era a energia. Aplicou um sistema barato de eletrif icação e levou luz para os moradores do campo. Dessa forma, foi possível melhorar a irrigação das culturas, aumentar a renda dos agricultores e o êxodo rural foi sendo revertido aos poucos. Isso aconteceu em 1982. Hoje, calcula-se que o modelo desenvolvido pelo ex-secretário já tenha iluminado a casa de mais de 1 milhão de brasileiros.

Primeiramente, quatrocentas famílias de Palmares foram ligadas à rede elétrica, ao custo de 400 dólares por casa. Na rede convencional, o custo de instalação era de 7 mil por casa

Primeiro foi o verbo, depois a luz e, então, a água - nessa ordem. O engenheiro agrônomo gaúcho Fábio Rosa nunca imaginou que ficaria conhecido internacionalmente pela abrangência dos projetos de eletrificação rural em comunidades que em pleno século XXI ainda vivem sem acesso à energia elétrica. Tudo começou em 1982, porque sem energia não havia como bombear água do subsolo para irrigar as lavouras de arroz no pequeno e então recém-fundado município gaúcho de Palmares. Hoje, calcula-se que a implantação de suas propostas já tenha iluminado a casa de mais de 1 milhão de brasileiros.

Levar energia a áreas isoladas não era o objetivo final. Revelou-se o meio mais eficiente para cativar as populações, possibilitar aumento da renda e gerar desenvolvimento. O laboratório, no início da década de 1980, foi a Secretaria de Agricultura de Palmares do Sul, no extremo norte da Lagoa dos Patos. Recém-formado, Rosa tinha 22 anos, um carro velho à disposição e a confiança do primeiro prefeito da cidade, Ney Azevedo. Tinha, sobretudo, a convicção que o acompanha até hoje, uma de suas mais marcantes características.

Em Palmares, um dos resultados imediatos foi a reversão do êxodo rural. "Notamos que a vontade dos jovens de ir embora ficou aplacada com a chegada da luz e, em seguida, gente que tinha deixado o lugar para inchar as periferias urbanas começou a voltar para o campo", lembra. O fato chamou a atenção do Banco Mundial e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Sua primeira descoberta foi que os pequenos plantadores de arroz gastavam quase um quarto de seus custos de produção comprando água. Isso era três vezes mais que a média mundial. A única maneira barata de tirar água do subsolo era com eletricidade, e 70% da população local (cerca de 9 mil pessoas) não tinha acesso a ela.

Eduardo Tavares
Menina mostra o velho lampião, que virou peça de decoração depois da chegada da placa solar

Atrás de uma solução, Rosa descobriu o sistema desenvolvido pelo professor Ennio Amaral, da Escola Técnica Federal de Pelotas. Em vez de três fios para compor o potente sistema "trifásico", Amaral usava um sistema de corrente de alta tensão "monofásico": um só fio carregava a corrente de um transformador para a residência. Era adequado a um consumo de energia modesto. Amaral reduzira ainda mais os custos substituindo fios de cobre por fios de ferro, condutores mais baratos, com menos postes, transformadores menores e gente comum do lugar em vez de construtores profissionais. Amaral, que faleceu dois anos depois, passara uma década desenvolvendo o sistema.

"O invento funcionava bem, mas era ilegal, pois não obedecia à norma estadual", conta Rosa, que então se lançou numa campanha para que um novo padrão fosse aceito pela companhia elétrica estatal, a CEEE. Mas só em 1988, durante o governo de Pedro Simon no Rio Grande do Sul, a companhia viria a acatar o novo padrão, hoje copiado Brasil afora no programa Luz para Todos, do governo federal. Os dados oficiais identificam 12 milhões de brasileiros sem acesso à energia, mas Rosa estima que seja pelo menos o dobro.

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