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Edição 31
Maio/2006

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Entrevista
Ciro de Quadros
Saúde é o que interessa

Por Andréa Wolffenbüttel, de São Paulo

Claudio Gatti/Prensa TrêsDesafios - Existem novas vacinas que estão para surgir?
Quadros
- O desenvolvimento de vacinas é um processo longo e caro. E quem investir na pesquisa dessas vacinas não tem certeza de que conseguirá recuperar o dinheiro. Para superar esse problema, a Gavi tomou outra iniciativa, que se chama Advanced Market Commitment. Esse mecanismo tem o seguinte funcionamento. O poder público de um país pobre informa que precisa de determinada vacina, com certas características. Então o Advanced Market Commitment, bancado por países ricos, garante a compra de uma quantidade de doses, o suficiente para ressarcir o fabricante pelos custos da pesquisa. Assim que o fabricante recupera o dinheiro, o preço unitário da dose cai. Por exemplo, inicialmente a dose pode ser vendida a 50 dólares. O Advanced Market Commitment financia 49 dólares e o país pobre paga 1 dólar. Depois de comprar o número estabelecido para a recuperação dos custos de desenvolvimento, a dose da vacina passará a ser vendida por 1 dólar.

Desafios - E quais são as novas vacinas que estão sendo desenvolvidas?
Quadros
- Bem, há três vacinas que são de alta importância, de alto interesse: a contra a malária, a nova vacina contra a tuberculose e a vacina contra a Aids. Essas são as vacinas que estão recebendo os maiores investimentos. Também temos pesquisas de vacinas contra a dengue, a encefalite japonesa e algumas meningites, para as quais ainda não se tem vacina, como a meningite B. Estamos trabalhando também para criar combinações de vacinas, o que é muito importante, pois, quanto mais vacinas, mais injeções precisam ser aplicadas nas crianças. Para evitar isso, temos de conseguir combinar as vacinas. Nós já temos algumas, como a vacina contra sarampo, caxumba e rubéola numa só injeção e a vacina contra difteria, tétano e coqueluche, além de outras.

Desafios - Por que é preciso uma nova vacina contra a tuberculose?
Quadros
- A vacina que temos, a BCG, não funciona como se esperava. Ela é bastante eficaz para proteger da meningite tuberculosa, mas não tem nenhum efeito na tuberculose biliar do adulto jovem e por isso precisamos de uma nova.

"Não quero diminuir a importância da Aids, porque é um problema seriíssimo. A questão é que a Aids tem tanta visibilidade porque tem um grupo interessado nisso. E não há nenhum grupo interessado em divulgar as ameaças da pneumonia ou da meningite"

Desafios - Talvez por ser uma doença que atinja todos em todos os países, haja uma grande preocupação a respeito da vacina contra a Aids.
Quadros
- Em primeiro lugar, não é só a Aids que é democrática. Existe outra doença muito mais democrática, o rotavírus. É um vírus que causa um grande problema em países industrializados porque a melhora do saneamento ambiental não resolve a questão. Por isso é chamado popularmente de "vírus democrático". O sarampo também é democrático. A pólio é democrática. O HIV talvez seja menos democrático porque tem grandes grupos que não são atingidos pela Aids, isto é, todas as pessoas que se protegem quando têm relações sexuais. A prevenção da Aids é muito mais fácil que a prevenção da diarréia e do sarampo nas populações pobres.

Desafios - Mas por alguma razão temos a impressão de que a Aids é uma grande ameaça.
Quadros
- Não quero diminuir a importância da Aids, porque é um problema mundial seriíssimo. A questão é que a Aids tem tanta visibilidade porque tem um grupo interessado nisso. E não há nenhum grupo interessado em divulgar as ameaças da pneumonia, da meningite ou do sarampo. Eu não quero que não exista um grupo lutando contra a Aids. Eu acho que deve existir. O problema é que as outras também deveriam ter seus grupos defensores. Se tivessem, teriam a mesma magnitude, pois, do ponto de vista da mortalidade, elas matam muito mais do que a Aids.

Desafios - E o que o senhor tem a dizer sobre a gripe aviária?
Quadros
- Os países em que essa doença existe já tomaram as providências necessárias e estão sendo feitos investimentos para obter a vacina. Mas é um problema muito complexo. Para que a gripe se transforme numa pandemia, ou epidemia urbana, será necessário uma mutação do vírus. E até agora não se sabe qual mutação seria essa. Portanto, não dá para produzir, neste momento, uma vacina. Mas esse caso teve um lado positivo, que foi as autoridades mundiais acordarem e perceberem que nos últimos trinta ou cinqüenta anos não houve nenhum grande investimento para melhorar a tecnologia de produção da vacina contra a influenza. A tecnologia que temos hoje é um absurdo: para cada dose de vacina, é preciso um ovo. Imagina quantos milhões de ovos de galinha são necessários! Pelo menos as autoridades mundiais agora investem no desenvolvimento de uma vacina contra a influenza com outras metodologias que não exijam um ovo para cada dose.

"Acho que no Brasil o desafio maior é manter os progressos que foram alcançados nos últimos vinte, 25 anos. Foi algo sensacional!"

Desafios - E no Brasil, quais são os desaf ios que enfrentamos atualmente em termos de vacinação?
Quadros
- Acho que no Brasil o desafio maior é manter os progressos que foram alcançados nos últimos vinte, 25 anos. Foi algo sensacional. O Brasil erradicou a pólio, o sarampo, e introduziu novas vacinas. Precisamos manter isso, porque entra governo, sai governo, mudam as prioridades, e o programa pode cair. Isso não deve acontecer. O segundo desafio no Brasil é a introdução das novas vacinas. O Brasil trouxe a vacina contra o rotavírus março ou abril do ano passado. Excelente! Foi o primeiro país da América Latina a fazer isso. Agora existe a vacina contra o pneumococos e contra o HPV (câncer de colo de útero), que precisam ser aplicadas.

Desafios - Está sendo feito algo para trazer essas vacinas para cá?
Quadros
- Na última vez que estive no Brasil, em dezembro passado, as autoridades mencionaram que estão fazendo estudos epidemiológicos para identificar a magnitude do problema. A situação é a seguinte: essas vacinas são caríssimas e é preciso fazer uma avaliação da incidência e do custo da doença nos países. Eu sei que soa estranho falar assim. Quando uma criança adoece de pneumonia, ela pode morrer. Se for o minha filha, não tem preço essa morte, mas em geral o ministro das Finanças provavelmente não está pensando assim. Porém, se morre uma vaca, imediatamente todo o governo fica preocupado. Faz grandes investimentos para evitar a morte da vaca. Deviam dar o mesmo valor para a vida humana. Aliás, não. A vida humana tem de vir em primeiro lugar. Mas vamos deixar isso de lado. O que as autoridades avaliam é se prevenir a doença não é mais barato do que vacinar a população. E para isso são feitos os estudos.

Desafios - Esses estudos demoram muito?
Quadros
- Não. Nós fizemos um estudo sobre o impacto da doença pneumocócica para a América Latina que levou dez meses, que é um tempo bom para a região. O resultado demonstrou que realmente é recomendável introduzir a tal vacina. Agora, é claro que cada país tem de usar seus dados para ver a própria realidade.

Desafios - E em termos de pesquisa e desenvolvimento de vacinas? Como estamos no Brasil?
Quadros
- Bem, outro desafio brasileiro é continuar o esforço que vem sendo feito pelo Instituto Butantan e pelo Bio-Manguinhos para se tornarem auto-suficientes na produção de vacinas. Além disso, seria muito bom que houvesse investimento na área de desenvolvimento de vacinas, para que o Brasil não fique somente absorvendo tecnologia estrangeira, como, em geral, é o caso.

Desafios - Em comparação com outros centros de pesquisa no mundo, como são considerados o Butantan e o Bio-Manguinhos?
Quadros
- São centros de excelência, mas é claro que não estão no mesmo nível de instituições de países como os Estados Unidos, que fazem investimentos de magnitude muito maior. Não que o Brasil não tenha cérebros para isso, ao contrário, tem cérebros iguais aos daqui, o problema é o investimento que o governo faz. O governo brasileiro nunca fez os investimentos necessários para que o país saia da condição de somente absorver as tecnologias estrangeiras e passe a desenvolver tecnologias. É importante que isso seja feito.

Desafios - O governo acha que é mais barato esperar que a vacina seja desenvolvida lá fora e depois absorver a tecnologia?
Quadros
- Não posso responder a essa pergunta porque não estou a par da política do governo nessa área. Minha opinião é pela observação que fiz nos anos em que trabalhei na Organização Pan-Americana da Saúde. Constatei que os investimentos feitos nunca foram suficientes para que realmente o país deslanchasse no desenvolvimento de vacinas. Mas isso pode ter mudado nos últimos dois ou três anos. Acho que o Butantan e a Bio-Manguinhos têm feito investimentos muito importantes. Como eu disse, o parque industrial de vacinas é de qualidade, os cientistas são de primeira magnitude, só falta o investimento. E isso é factível. A Índia, por exemplo, transformou- se num dos principais fornecedores de vacinas para o Unicef.

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