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As dimensões da pobreza
Por Lia Vasconcelos, de Brasília
Ainda que a pobreza seja perceptível em diversos lugares e situações, é muito difícil captar exatamente sua dimensão. Quais são as carências e o que é preciso fazer para amenizar o sofrimento das pessoas que vivem com pouco ou nenhum recurso. Para ajudar a traçar um perf il mais preciso dos problemas da pobreza no Brasil, o Ipea propõe a aplicação de um índice que leve em consideração as diversas facetas das necessidades da população e que possa calcular o nível de vulnerabilidade família a família Quem são os pobres? Onde eles estão? Como vivem? As perguntas podem parecer um tanto óbvias quando falamos de países como o Brasil,em que a pobreza é muito exposta.Mas,ao contrário do que se possa imaginar, medi-la não é tarefa trivial. Muitos são os estudiosos que se debruçam sobre o tema e muitos foram os índices criados até hoje.A forma mais simples e mais usada costuma ser o estabelecimento de uma linha de pobreza dividindo pobres e não-pobres.A variável central para a construção dessa fronteira normalmente é a renda per capita de uma família comparada com o custo de satisfação das necessidades básicas.A referência é o preço de uma cesta básica de alimentos.Assim, são consideradas em situação de indigência as famílias e pessoas cuja renda per capita é inferior ao custo da tal cesta básica de alimentos. Um dos índices mais conhecidos é a linha estabelecida pelo Banco Mundial, segundo a qual são pobres os que vivem com menos de 1 dólar por dia.Alguns pesquisadores, no entanto, acham essa perspectiva muito limitada.A crítica principal é que esse conceito não dá conta de um problema complexo e multifacetado por natureza. Assim,desde a década de 1970,novas concepções vêm surgindo com o objetivo de construir uma caracterização mais precisa do cenário de privação vivenciado pelas pessoas em situação de pobreza.Essa visão mais profunda inclui no cálculo aspectos essenciais do bem-estar, como saúde, educação, saneamento básico e moradia. A idéia de construir um indicador que sintetizasse todas as dimensões relevantes da pobreza humana tomou maior impulso somente após a criação do Índice de Pobreza Humana (IPH) pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), em 1997.É o índice que mais tem sido utilizado em estudos aplicados, em particular nos relatórios de desenvolvimento humano.Com o objetivo de contribuir para esse debate,pesquisadores do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) lançaram recentemente um estudo chamado "Pobreza multidimensional no Brasil", no qual propõem um novo cálculo do índice de pobreza,baseado nas informações coletadas pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad),do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A grande novidade é que o índice pode ser calculado para cada família com base nas informações da Pnad.Assim,será possível, a partir de agora,não apenas avaliar o grau de pobreza de bairros,municípios e países,mas também de grupos demográficos específicos,como negros,crianças,idosos e analfabetos.Será também possível investigar quais dimensões - educação,moradia etc.- da pobreza são as principais responsáveis pelas diferenças existentes entre grupos sociais considerados pobres."O trabalho é uma contribuição relevante e competente para a análise da pobreza no Brasil", acredita Rodolfo Hoffman, professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

