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A dura vida da sociedade alternativa
Existem quase 15 mil empreendimentos no Brasil no setor de economia solidária, onde não há patrões e a gestão é feita coletivamente. Apesar da boa vontade dos participantes, muitas iniciativas não sobrevivem à falta crédito, à inexperiência dos novos sócios e à dif iculdade de manter a clientela
Por Ottoni Fernandes Jr, de São Paulo
Acestaria dos índios baniwa, que habitam a região amazônica do alto rio Negro, e o artesanato com a técnica de marchetaria da comunidade cultural Quilombaque, no bairro de Perus, na metrópole paulistana, são produtos da economia solidária.O universo é variado, vai de uma pequena cooperativa de catadores de papel a uma forjaria que fatura 145 milhões de reais por ano, mas todas compartilham um conceito: não existem patrões, são administradas de maneira coletiva e autogestionária. Os nomes quase sempre evocam unidade ou esperança - Uniforja, Apóstolos da Ecologia, Cooperativa das Costureiras Unidas Venceremos. A maioria (54%) dos empreendimentos assume a forma de uma associação, mas 33% constituem grupos informais, como mostra um estudo feito no ano passado pela Secretaria Nacional da Economia Solidária (Senaes), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).O levantamento apontou a existência de 14.954 empreendimentos de economia solidária, que envolvem 1, 2 milhão de pessoas. Esse tipo de organização floresceu a partir da década de 1980, quase sempre abrigada em uma paróquia da Igreja Católica, e ganhou força na década seguinte, quando o desemprego cresceu e muitas empresas quebraram.

Uniforja, em Diadema, na Grande São Paulo, é um dos empreendimentos de economia solidária que tiveram maior sucesso
Foi assim que surgiu a Uniforja, a Cooperativa Central de Produção Industrial de Trabalhadores em Metalurgia, em Diadema, na Grande São Paulo (leia quadro Sucesso na base de muita conversa).Quando a metalúrgica faliu, em 1997, os trabalhadores mantiveram a produção e criaram uma cooperativa que alugou e posteriormente comprou as instalações da antiga Conforja. Hoje, a empresa é lucrativa, fatura 12 milhões de reais por mês, mas, lamentavelmente, é uma exceção entre as empresas recuperadas por cooperativas de trabalhadores. Os técnicos José Ricardo Tauile e Huberlan Rodrigues, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), fizeram uma pesquisa com 25 empresas controladas por cooperativas de trabalhadores, publicada na edição de setembro de 2005 de Mercado de Trabalho, Conjuntura e Análise, do MTE e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).O levantamento aponta os problemas que essas empresas enfrentam em seu dia-a-dia: falta de acesso a linhas de crédito, defasagem tecnológica - pois quase sempre tinham sido abandonadas pelos antigos proprietários - e falta de conhecimento de gestão empresarial da parte dos novos controladores.Além disso, é difícil mudar a mentalidade de quem sempre trabalhou como empregado e convencer sócios de que "a trajetória de máximo crescimento está vinculada a maior taxa de reinvestimento, o que implica menor distribuição dos lucros ou, no caso, das sobras", mostra a pesquisa.
Em geral, as empresas geridas por cooperativas de trabalhadores "estão abaixo do padrão capaz de sustentar a concorrência", constata o estudo, que aponta como alternativa para resolver essa defasagem a criação de economias de rede para ganhar escala com a formação de cooperativas de segunda ordem.Foi esse o caminho seguido por quatro cooperativas de trabalhadores que resultou na criação da Justa Trama, marca de roupas e acessórios lançada em 2005.Os produtos são todos feitos com algodão orgânico, e a entidade já exporta para a França e a Alemanha.Tudo começa com o algodão plantado, sem o uso de agrotóxicos, pelos 240 agricultores reunidos na Associação de Desenvolvimento Educacional e Cultural (Adec) de Tauá, no Ceará.O segundo parceiro cuida da fiação, que fica a cargo da Cooperativa Nova Esperança (Cones), de Nova Odessa, no interior de São Paulo, uma empresa autogestionária, recuperada pelos trabalhadores, que tem 240 sócios mais noventa trabalhadores contratados. A etapa seguinte era de responsabilidade da Cooperativa de Trabalhadores em Fiação, Tecelagem e Confecções (TextilCooper), de Santo André, na Grande São Paulo, encarregada de fazer o tecido.Nas mãos das 22 mulheres da Cooperativa das Costureiras Unidas Venceremos (Univens), o tecido toma as formas das roupas da Justa Trama, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul."Esse tipo de cadeia produtiva solidária é uma vantagem, porque ao eliminarmos os intermediários a retirada de todos os envolvidos duplicou", conta Nelsa Inês Nespolo, presidente da Univens, cooperativa criada em 1996, na qual cada uma das costureiras recebe entre 500 e 1.000 reais por mês. Empolgada com o sucesso da Justa Trama, Nespolo afirma que o próximo passo será dar personalidade jurídica ao empreendimento. Ele será transformado em uma cooperativa de segundo grau, que comprará a produção das outras participantes. A mudança deve acontecer ainda neste mês.
Antes, porém, será preciso substituir um elo quebrado da corrente, porque a TextilCooper fechou as portas em outubro do ano passado, abatida por aqueles problemas que tornam alta a taxa de mortalidade de empresas recuperadas por trabalhadores.A cooperativa de Santo André foi criada em 2001, pelos funcionários da Randi, uma fábrica de cobertores que entrou em concordata. Porém faltou dinheiro para investir na diversificação da linha de produtos e, quando as vendas caíam, devido a um inverno mais quente, por exemplo, a empresa cambaleava, como aconteceu em 2003 e 2005. Em 2004, os sócios da TextilCooper buscaram apoio da União e Solidariedade das Cooperativas Empreendimentos de Economia Social do Brasil (Unisol Brasil), organização não-governamental montada com apoio da Central Única dos Trabalhadores (CUT).Ela deu assessoria para atualizar o desenho dos cobertores e para a criação de novas embalagens. Os sócios da TextilCooper colocavam muita esperança na produção de tecido para a Justa Trama e conseguiram um financiamento da Fundação Banco do Brasil para a compra de um novo tear.O equipamento chegou um pouco antes de a empresa encerrar suas atividades, pois a maioria dos sócios desistiu do empreendimento, que não garantia retiradas suficientes para o sustento."Nem todos os ex-empregados estão preparados para trabalhar no esquema de autogestão", avalia Nespolo, mas garante que vão tentar reabrir a TextilCooper com um grupo menor de associados e manter a cadeia produtiva que abastece a Justa Trama.
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