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Ignacy Sachs, O agitador de idéias
Por Andréa Wolffenbüttel, de São Paulo
Desafios - O senhor acredita que a economia mundial caminha para retomar esses princípios anteriores ao que o senhor chama de contrareforma neoliberal? Desafios - Falando um pouco sobre sustentabilidade, que é uma de suas áreas de interesse, como o senhor analisa o momento atual em termos de desenvolvimento sustentável?
Desafios - E o senhor acredita que esse caminho ainda é viável?
Sachs - Claro! Os três princípios básicos que mencionei estavam na base da experiência chamada de socialista na Europa Oriental e estavam também na base do capitalismo reformado, que conheceu seus trinta anos gloriosos, de 1945 a 1975. Essa expressão "trinta anos gloriosos" não é minha, é de um economista francês que se chama Fourastier.Foi assim que ele denominou esse período conhecido como a idade do ouro do capitalismo. Mas as coisas mudaram com a degradação da situação do mundo soviético, sobretudo depois da invasão à República Checa em 1968, com o surto inflacionário que coincidiu em parte com a primeira grande crise energética.Foi então que surgiu, no Ocidente, uma contra-reforma neoliberal que trouxe governantes como Ronald Reagan e Margareth Thatcher e levou ao descrédito do keynesianismo1 e à instauração de teorias de cunho monetarista. Infelizmente ainda não nos livramos dessa herança,que considero maldita, da contra-reforma neoliberal. O que defendo não se trata de uma volta ao passado, mas simplesmente reatar com aquelas idéias e análises que admitem que o Estado financie obras públicas de alta intensidade em mão-deobra. E eu proponho que sejam obras públicas de maturação rápida,não projetos faraônicos que vão levar décadas, mas pequenos experimentos de irrigação, caminhos vicinais, construção de cisternas - por exemplo, tudo que permite a melhor gestão das águas de chuva.Somos muito ruins nisso.Quando chove,quanta água vai direto para o mar? Ou então vai para o piscinão, e depois do piscinão vai para o mar. O piscinão aqui não é considerado uma fonte de água, é só um depósito temporário. Não estou certo se hoje a questão do gerenciamento de águas de chuva é um problema fundamental, mas tenho certeza de que a construção de habitações populares é um problema monstruosamente grande, portanto acho que há espaço para avançarmos.
Sachs - Bem, se olharmos para o desempenho dos países da Ásia, veremos que eles deixaram de lado um pouco a cartilha neoliberal e estão muito melhor do que a América Latina,que adotou o perfil do Consenso de Washington2. Não sei se podemos considerar que haja um movimento global,mas dá para dizer que minhas propostas têm espaço numa mesa de discussão.
Sachs - Obviamente o debate sobre desenvolvimento tem de se basear em critérios éticos e sociais.As condicionalidades ecológicas, que começamos a entender melhor desde a Conferência de Estocolmo, em 1972, passando pela Conferência do Rio, a Cúpula da Terra, de 1992, estão nos ameaçando com mudanças climáticas, muitas vezes irreversíveis. Portanto, esse problema de sustentabilidade existe e é concreto,mas não adianta discutir os objetivos sociais e a sustentabilidade ecológica sem pensar no terceiro pé do tripé, que é a viabilidade econômica. Para que essas duas coisas aconteçam,é preciso que elas sejam economicamente viáveis. A extrapolação do modelo atual de economia mundial leva, obviamente, à impossibilidade, e isso eu acho que todo mundo tem consciência. Todos sabem que o planeta não comporta que os chineses tenham o mesmo número de carros dos norteamericanos. Daí o problema da discussão sobre como limitar o consumo e também o desperdício de recursos nos países ricos e ao, mesmo tempo, como aumentar o consumo desses mesmos recursos nos países pobres.
Desafios - O senhor vê uma solução consensual para esse dilema?
Sachs - Infelizmente,o debate de uma estratégia global choca-se com interesses políticos e individuais. Eu não creio que nós possamos ter uma solução global negociada, embora essa fosse a conclusão mais lógica.Autolimitar o consumo dos ricos é um desafio, que já foi colocado ao mundo por Gandhi há muito tempo. Esse é um problema ético complicado, ao mesmo tempo em que nos perguntamos o que fazer para diminuir as desigualdades que já nos pareciam abissais há cinqüenta anos e que só vêm se agravando.Há pouco saiu um estudo elaborado pela Universidade das Nações Unidas mostrando que 2% dos adultos mais ricos possuem a metade de toda a riqueza das famílias do mundo. Isso prova que estamos caminhando no sentido oposto ao que queremos. E uma das dificuldades para melhorarmos esse quadro é a forma como avaliamos o desempenho dos países.

