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Ignacy Sachs, O agitador de idéias
Por Andréa Wolffenbüttel, de São Paulo
Desafios - Como o senhor avalia o desenvolvimento brasileiro na última década? Desafios - As políticas brasileiras têm tido sucesso na redução da desigualdade mais por meio da distribuição de renda do que pela geração de empregos. Como o senhor vê esse processo? Desafios - E como seria feita essa geração? Desafios - O senhor já procurou o governo para propor esse tipo de iniciativa?
O estudioso franco-polonês Ignacy Sachs é um daqueles raros economistas que colocam os valores humanos acima de tudo. Famoso por ter cunhado, nos anos 1970, a expressão ecodesenvolvimento, Sachs sempre voltou seu olhar para os países mais pobres e buscou descobrir caminhos que levassem ao crescimento econômico pela via da justiça social.Atualmente é professor da École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris, mas costuma visitar sempre o Brasil, onde passou parte de sua juventude. Em seu apartamento no bairro de Higienópolis, em São Paulo, cercado de arte barroca e popular latino-americana, ele falou a Desafios.
Sachs - Eu diria que, em vez de falar da década, devemos falar dos últimos 25 anos. O crescimento tem sido pífio e obviamente aumentar o crescimento é um desafio fundamental.Mas não se pode perder de vista que o problema não está unicamente no ritmo do crescimento, mas também nos conteúdos e nos impactos, tanto sociais como ambientais. O Brasil, como muitos outros países, ressente-se do grave déficit de oportunidades de trabalho decente. Trabalho decente no sentido considerado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), ou seja, incluindo não só critérios quantitativos como também os qualitativos no que diz respeito à remuneração e às condições de trabalho.Eu acho que esse é um ponto absolutamente central: como expandir oportunidades de trabalho decente e ao mesmo tempo tentar contribuir para a solução do segundo grande problema que a humanidade enfrenta,que é o das mudanças climáticas. São esses dois megaproblemas que vão marcar o século.
Sachs - Sem desmerecer o papel que teve o Bolsa Família e os programas que o antecederam, o que está sendo discutido atualmente é o problema das saídas do Bolsa Família. O que se fez foi uma modificação na margem de distribuição da renda por meio de programas de redistribuição de parte do Produto Interno Bruto.Essa é uma forma de subsidiar o consumo dos mais pobres, mas requer que seja repetida ano após ano. A solução definitiva só virá com a geração de oportunidades de trabalho.
Sachs - Eu acho que seria muito interessante examinar no Brasil a experiência que está tentando a Índia hoje com o que chamam de esquema de garantia de empregos. Esse esquema se baseia numa experiência realizada no estado de Maharasira.A proposta é que um membro de cada família pobre tenha direito a cem dias de trabalho remunerado por ano, a um salário mínimo. Essa mão-de-obra é aplicada em obras públicas de caráter local. É uma volta ao conceito da Frente de Trabalho, que, no Brasil, nunca foi uma frente de trabalho mesmo, e sim uma pseudofrente de trabalho. Mas essa experiência negativa do passado não deve descartar a possibilidade de um grande programa de obras públicas de caráter local, que não exigem muita verba e,portanto,podem ser financiadas por créditos públicos. A idéia é que o aumento da demanda por bens de consumo gerada por esse programa seja absorvida pela produção adicional de feijão, arroz, cachaça, havaianas, jeans etc.Temos de voltar ao bê-abá. E confiar que não haverá inflação enquanto houver condições de enxugar a demanda adicional com uma produção adicional de bens e salários.
Desafios - Esse programa está funcionando na Índia?
Sachs - A idéia de fazer disso um projeto nacional foi no ano passado, mas eles testaram esse esquema durante vários anos antes de tentar generalizálo. Primeiro o aplicaram em um número limitado de distritos e só agora pretendem expandi-lo para todo o país.Mas o que eu quero destacar é o conceito de, em vez de simplesmente distribuir dinheiro, gerar mais oportunidades de empregos locais.Eu gostaria de insistir nas enormes oportunidades de pequenas obras públicas de caráter local.Aliás, existem alguns casos aqui no Brasil, que podem ser intensificados e acelerados.Por exemplo, o programa da construção de 1 milhão de cisternas no semi-árido, tocado pela ASA (Associação do SemiÁrido), e também o programa H2O, que combina as cisternas com a construção de barragens subterrâneas para melhor aproveitamento das águas de chuva.Creio que existe também um enorme campo para uma área na qual o Brasil teve experiências isoladas,que é a de mutirão assistido para a construção de habitações populares.Nesse caso, ainda se acrescenta a vantagem de que o trabalho das famílias que vão morar se transforma em poupança não monetária, portanto muito disso ainda tem um benefício paralelo. Por essa razão acredito na possibilidade de avançar no campo do trabalho. Falo a esse respeito no meu livro mais recente, Desenvolvimento: Includente, Sustentável, Sustentado, especialmente no último capítulo.Lá eu discuto uma proposta elaborada pelo escritório brasileiro da OIT sobre a possibilidade de uma estratégia de emprego para o Brasil.
Sachs - Sim.Conversas houve muitas, agora vamos ver o que vai acontecer.

