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Edição 30
Abril/2006

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A opção atômica
Ameaça de racionamento energético e crise do gás boliviano trazem de volta o debate sobre o uso da energia nuclear. Ecologistas alertam sobre possíveis impactos ambientais, mas técnicos garantem que novas tecnologias são seguras. O Plano Nacional de Energia 2030, ainda em fase de elaboração, prevê a implementação de mais quatro usinas termonucleares, após Angra 3

Por Sucena Shkra da Resk, de São Paulo

REUTERS/Bruno Domingos
Os rejeitos nucleares de alta atividade são a principal preocupação dos ambientalistas

Depois de passar algumas décadas no papel de vilã das fontes energéticas, a fusão nuclear volta a ocupar espaço nas diretrizes dos projetos de diversificação da matriz de energia elétrica brasileira anunciados pelo governo federal.A proposta divulgada no Plano Decenal de Energia Elétrica (2006- 2015), elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), do Ministério de Minas e Energia (MME), prevê a possibilidade de funcionamento de Angra 3 em 2013, com a injeção de recursos, inicialmente, de 1, 8 bilhão de dólares.A usina, com capacidade de 1.350 MW, é uma pauta polêmica e tornou- se um grande problema de gestão para o país, desde 1975. A termonuclear já consumiu cerca de 750 milhões de dólares em equipamentos e, apesar de estar inativa, sua manutenção custa cerca de 20 milhões de dólares por ano.

A aprovação ou não da implementação de Angra 3 está sob análise do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), presidido pelo ministro de Minas e Energia, Silas Rondeau, e pode vir a sofrer alterações de prazos quanto à operação na nova versão do plano decenal (2007-2016), de acordo com a assessoria de imprensa da EPE. A palavra final caberá ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Para que se tenha uma noção de como a política energética afeta a vida do país, o conselho predominantemente da esfera federal reúne um grupo de sete ministros, além de Rondeau:Luís Carlos Guedes Pinto (Agricultura, Pecuária e Abastecimento), Dilma Roussef (Casa Civil), Sérgio Rezende (Ciência e Tecnologia), Luiz Fernando Furlan (Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior), Guido Mantega (Fazenda), Marina Silva (Meio Ambiente) e Paulo Bernardo (Planejamento).

Também participam um representante dos estados da federação, que atualmente é o secretário de Energia do Rio de Janeiro, Wagner Victer, e um representante das universidades, cujo titular é o diretor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Jérson Kelman.Somente a cadeira do conselheiro, que representaria o cidadão brasileiro especialista, está vazia porque os demais integrantes ainda não fizeram uma eleição para nomeá-lo.A decisão sobre a operação de Angra 3 dependerá de um quórum de metade mais um da atual composição.

Entre os prós e os contras, as ressalvas maiores à implementação partem da ministra Marina Silva e de ambientalistas que questionam a viabilidade do projeto em relação à segurança dos rejeitos radioativos. O argumento da ministra é rebatido principalmente por Rondeau, Dilma Roussef e Sérgio Rezende. Eles garantem que houve evolução nos métodos de depósito do lixo atômico, que já não representa o perigo que foi no passado.

O fato de o Brasil ter a sexta maior reserva de urânio, matéria-prima básica das usinas, em apenas 30% dos potenciais prospectados, pesa na projeção de expansão governamental, segundo Maurício Tolmasquin, presidente da EPE.Os primeiros colocados são Cazaquistão, Austrália, África do Sul, Estados Unidos e Canadá.Aliado a esse argumento está o recente domínio da tecnologia do ciclo completo do combustível enriquecido pelo Brasil (utilizado nos reatores nucleares no chamado processo de fissão nuclear), que numa estimativa aproximada de uma década poderá fazer com que o país fique independente do mercado externo para a produção energética.

Cenário Atualmente, Angra 1 e Angra 2 abastecem cerca de 45% da demanda energética do estado do Rio de Janeiro, com capacidade total de 2, 007 mil MW.As fontes nucleares representam apenas 2, 1% das matrizes de geração no país (veja gráfico Fontes energéticas usadas no Brasil).Segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), que coordena o Sistema Interligado Nacional (SIN), em 2005 a fonte nuclear produziu 11, 58 mil GW, o que correspondeu a 32, 6% da geração térmica nacional.

O Plano Nacional de Energia 2030, em fase de elaboração pela EPE, prevê ainda a implementação de, no mínimo, mais quatro usinas termonucleares, após Angra 3. Elas estariam divididas entre as regiões Sudeste e Nordeste, com capacidade de 1.000 MW cada uma. Nesse cenário, a matriz poderia ser ampliada de 2.007 MW para 7, 3 mil MW.

Independentemente das projeções, a vocação hidrelétrica não deixará de prevalecer no país, devido ao potencial de recursos hídricos nacional. Segundo o MME, o predomínio da fonte hidráulica é da ordem de 76, 2%, seguida pela térmica (gás, diesel e carvão), que detém 21, 5% de um total de 96.504 MW de capacidade instalada em 2006.A estimativa de investimentos prevista pela EPE até 2015 é de 75 bilhões de reais, sendo 60 bilhões em hidrelétricas e 15 bilhões em unidades térmicas.

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