Publicidade
Edição 3
Janeiro/2004

Publicidade
Caixa
Embraer
Imprimir

A volta por cima
A história de sucesso de um empresário que conseguiu salvar sua empresa da falência tomando os funcionários como aliados e compensando-os com educação, conscientização, respeito - e participação nos lucros, depois da virada.

Por Andréa Wolffenbüttel, de São Paulo

Sommer AndreyNo final de 1995, depois de três tentativas de reerguer sua empresa por meio de processos de reengenharia, Michel Haradom recebeu um abraço comovido do consultor Jabob Grajew, um dos mais respeitados do mercado, que pronunciou a seguinte sentença: “Desista, meu caro. A Fersol está morta - só falta deitar”. Dito isso, o consultor retirou-se deixando Haradom com uma dívida de dez milhões de dólares, uma empresa falida, um sócio querendo abandonar o barco e um sentimento de profunda solidão. Haradom saiu para caminhar por sua empresa, a Fersol, uma fábrica de defensivos agrícolas, que a essa altura já dava sinais de decadência em suas instalações maltratadas. Perguntava-se se haveria alguém a quem apelar, alguém que ainda se importasse com o futuro da companhia e tivesse alguma disposição para ajudar.Foi quando olhou para seus funcionários e percebeu que para eles o destino da Fersol fazia toda a diferença.

Tomou uma decisão radical. Convocou os pouco mais de sessenta empregados para uma reunião, apresentou-lhes os números da empresa, mostrou-lhes a situação nua e crua e pediu ajuda.Acenou com cortes das remunerações e sobrecarga de trabalho,mas garantiu que não desistiria da luta e que saberia recompensar aqueles que permanecessem a seu lado. De comum acordo com os funcionários, todos os salários foram reavaliados, inclusive a retirada mensal de Haradon, que ficou estabelecida em oito mil reais. Alguns se foram, mas para sua surpresa a maioria aceitou o desafio.Os que ficaram hoje fazem parte de uma companhia que consta da lista das 150 melhores empresas para se trabalhar publicada pela revista Exame. Em junho passado cada um recebeu, em média, 22 mil reais de participação nos lucros.“Eu comprei um Palio zero quilômetro.Meu bebezinho!”, exclama Roseli Cavalari, analista de logística. Sua colega Regiane Inocenti foi mais longe: com o dinheiro que recebeu conseguiu comprar um apartamento.

Fersol - Resultado operacionalSalvar a Fersol foi uma operação complexa que envolveu estratégias especiais junto aos concorrentes, renegociação de dívidas com os fornecedores, adiantamento de pagamento por parte dos clientes, e, sobretudo revolucionou completamente as relações trabalhistas na empresa. Em primeiro lugar os funcionários não são mais considerados empregados, senão colaboradores e, em verdade, atualmente são sócios. Em 2002, trinta por cento das ações da empresa foram entregues aos funcionários com mais de dois anos de casa.As ações dão direito a voto nas assembléias, mas não na mesma proporção. O peso do voto do presidente, que detém 70% das ações, é de 35%. Os 65% restantes dependem da decisão dos colaboradores. “Distribuí os votos dessa maneira para que, caso um dia eu venha a vender a Fersol, os novos proprietários não possam modificar a estrutura da empresa sem o consentimento de todos os acionistas”, explica Haradom. E para que esses acionistas soubessem distinguir o que é melhor para a companhia e para eles próprios, passaram por um longo período de preparação.

Fersol - FaturamentoA primeira providência de Haradom foi qualificar o seu time de aliados. Ele conta que ficou apreensivo ao constatar que entre seus colaboradores muitos apresentavam dificuldades até para ler e escrever. Estabeleceu uma meta: em dez anos todos teriam, no mínimo, o segundo grau completo. Para cumprir o objetivo, diariamente, depois do expediente, o refeitório se transformava em sala de aula, devidamente decorada com a foto do educador Paulo Freire, inspirador da linha pedagógica adotada. Todos estudavam juntos e ajudavam uns aos outros. Esse tempo ficou para trás.Hoje em dia, a escola funciona com quatro classes separadas e não recebe apenas os alunos da Fersol. Abriu suas portas para a vizinhança. No fim deste ano, a festa de conclusão de curso deve reunir cerca de trezentos estudantes, quase todos externos, porque os funcionários, em sua maioria, já concluíram o segundo grau, e agora escalam novos degraus nas faculdades de Itu e Sorocaba, as duas maiores cidades próximas a Mairinque, onde está instalada a Fersol, no interior do estado de São Paulo.


Fersol - Investimento em educação


Haradom conta que, ao contrário do ele esperava, nem todos os funcionários se interessaram espontaneamente pela possibilidade de estudar.Por isso foi criado o “Incentivo à Educação e Cidadania”. Funciona da seguinte forma: todo empregado da produção que estuda recebe um extra de 5% em seu salário, e todo aquele que continua estudando depois de completar o segundo grau recebe 10%. Resultado: as salas de aula ficaram lotadas.

PÁGINAS :: 1 | 2 | 3 | Próxima >>


Copyright © 2007 - DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação sem autorização.
Revista Desafios do Desenvolvimento - SBS Quadra 01, Edifício Bndes, sala 801 - Brasília - DF - Fone: (61) 3315-5188