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A volta por cima
A história de sucesso de um empresário que conseguiu salvar sua empresa da falência tomando os funcionários como aliados e compensando-os com educação, conscientização, respeito - e participação nos lucros, depois da virada.
Por Andréa Wolffenbüttel, de São Paulo
No final de 1995, depois de três
tentativas de reerguer sua empresa
por meio de processos de
reengenharia, Michel Haradom
recebeu um abraço comovido do consultor
Jabob Grajew, um dos mais respeitados
do mercado, que pronunciou a
seguinte sentença: “Desista, meu caro. A
Fersol está morta - só falta deitar”. Dito
isso, o consultor retirou-se deixando
Haradom com uma dívida de dez milhões
de dólares, uma empresa falida, um
sócio querendo abandonar o barco e um
sentimento de profunda solidão. Haradom
saiu para caminhar por sua empresa,
a Fersol, uma fábrica de defensivos
agrícolas, que a essa altura já dava sinais
de decadência em suas instalações maltratadas.
Perguntava-se se haveria alguém
a quem apelar, alguém que ainda se importasse
com o futuro da companhia e
tivesse alguma disposição para ajudar.Foi
quando olhou para seus funcionários e percebeu que para eles o destino da Fersol fazia toda a diferença.
Tomou uma decisão radical. Convocou
os pouco mais de sessenta empregados
para uma reunião, apresentou-lhes os
números da empresa, mostrou-lhes a situação
nua e crua e pediu ajuda.Acenou
com cortes das remunerações e sobrecarga
de trabalho,mas garantiu que não desistiria
da luta e que saberia recompensar
aqueles que permanecessem a seu lado.
De comum acordo com os funcionários,
todos os salários foram reavaliados, inclusive a retirada mensal de Haradon,
que ficou estabelecida em oito mil reais.
Alguns se foram, mas para sua surpresa a
maioria aceitou o desafio.Os que ficaram
hoje fazem parte de uma companhia que
consta da lista das 150 melhores empresas
para se trabalhar publicada pela
revista Exame. Em junho passado cada
um recebeu, em média, 22 mil reais de
participação nos lucros.“Eu comprei um
Palio zero quilômetro.Meu bebezinho!”,
exclama Roseli Cavalari, analista de
logística. Sua colega Regiane Inocenti foi
mais longe: com o dinheiro que recebeu
conseguiu comprar um apartamento.
Salvar a Fersol foi uma operação complexa
que envolveu estratégias especiais
junto aos concorrentes, renegociação de
dívidas com os fornecedores, adiantamento
de pagamento por parte dos clientes,
e, sobretudo revolucionou completamente
as relações trabalhistas na empresa.
Em primeiro lugar os funcionários
não são mais considerados empregados,
senão colaboradores e, em verdade, atualmente
são sócios. Em 2002, trinta por
cento das ações da empresa foram entregues
aos funcionários com mais de dois
anos de casa.As ações dão direito a voto
nas assembléias, mas não na mesma proporção.
O peso do voto do presidente,
que detém 70% das ações, é de 35%. Os
65% restantes dependem da decisão dos
colaboradores. “Distribuí os votos dessa
maneira para que, caso um dia eu venha
a vender a Fersol, os novos proprietários
não possam modificar a estrutura da
empresa sem o consentimento de todos
os acionistas”, explica Haradom. E para
que esses acionistas soubessem distinguir o que é melhor para a companhia e
para eles próprios, passaram por um longo período de preparação.
A primeira providência de Haradom
foi qualificar o seu time de aliados. Ele
conta que ficou apreensivo ao constatar
que entre seus colaboradores muitos
apresentavam dificuldades até para ler e
escrever. Estabeleceu uma meta: em dez
anos todos teriam, no mínimo, o segundo
grau completo. Para cumprir o objetivo,
diariamente, depois do expediente, o
refeitório se transformava em sala de
aula, devidamente decorada com a foto
do educador Paulo Freire, inspirador da
linha pedagógica adotada. Todos estudavam
juntos e ajudavam uns aos outros.
Esse tempo ficou para trás.Hoje em dia, a
escola funciona com quatro classes separadas
e não recebe apenas os alunos da
Fersol. Abriu suas portas para a vizinhança.
No fim deste ano, a festa de conclusão
de curso deve reunir cerca de
trezentos estudantes, quase todos externos,
porque os funcionários, em sua
maioria, já concluíram o segundo grau, e
agora escalam novos degraus nas faculdades
de Itu e Sorocaba, as duas maiores
cidades próximas a Mairinque, onde está
instalada a Fersol, no interior do estado
de São Paulo.

Haradom conta que, ao contrário do
ele esperava, nem todos os funcionários
se interessaram espontaneamente pela
possibilidade de estudar.Por isso foi criado
o “Incentivo à Educação e Cidadania”.
Funciona da seguinte forma: todo empregado
da produção que estuda recebe
um extra de 5% em seu salário, e todo
aquele que continua estudando depois de
completar o segundo grau recebe 10%.
Resultado: as salas de aula ficaram lotadas.
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