Os divergentes convergem
Esse livro representa, mais que um título,uma clara vitória.Em primeiro lugar, contra aqueles que Gustavo Franco chama de representantes do esquerdismo nacionalista jurássico, que pretendem ser desenvolvimentistas, mas só contribuem para o atraso do país.Em segundo lugar, contra o jargão econômico, pois apresenta, de modo claro, idéias sofisticadas de forma amplamente compreensível ao mais leigo dos leitores. Em terceiro e mais importante lugar, contra o esquecimento da história, em face da tendência a diluir a luta contra a inflação num continuumcoletivo liderado por Fernando Henrique Cardoso, sem dar o devido crédito aos matadores do dragão.O autor merece ganhar a estátua de São Jorge.
Gustavo Franco não precisaria humilhar, mas o fato é que muitos dos 189 artigos aqui reunidos arrasam os partidários da pseudociência e do curandeirismo econômico com tamanha lucidez e ironia que não se sabe como eles resenharão esse livro em suas revistas universitárias.Ele provavelmente será ignorado nesses bastiões da magia econômica, o que é uma pena, pois tem muito a ensinar,mesmo a marmanjos da academia.
Triste saber, porém, que o debate econômico no Brasil é escamoteado não apenas nas universidades. Um garoto de 13 anos escreveu com dúvidas sobre a dívida externa (p. 566),mas dificilmente Gustavo Franco poderia ajudá-lo na tarefa escolar: o professor estava querendo uma denúncia do Fundo Monetário Internacional (FMI), ao estilo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), e não uma explicação sobre as contas externas. Da mesma forma, os antiglobalizadores não estão interessados em saber como funciona o mundo, apenas em perturbar o ambiente dos negócios, reduzindo empregos e impedindo o desenvolvimento dos mais pobres.
A maior parte do livro se ocupa da economia doméstica, isto é,de nossa difícil reconversão à normalidade.Gustavo Franco não se cansa em rebater idéias simples e erradas,como quando pede,por exemplo, "por uma política não industrial",ou quando retraça a trajetória do Banco Central na difícil tarefa de defender o poder de compra da moeda,com todos os políticos trabalhando contra.Nada mais hilário do que ler, hoje, sobre as heróicas tentativas dos parlamentares de elevar,nos anos 1990, o salário mínimo ao "inédito"valor de 100 dólares: como diz o autor,"os governantes estão livres para errar" (p. 217). E como erram os governantes! A julgar pelos debates desses anos e os que ainda hoje ocorrem, parece que avançamos a passos de cágado, quando não andamos para trás.
Paulo Roberto de Almeida
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Crônicas da Convergência: ensaios sobre temas já não tão polêmicos
Gustavo H.B. Franco Editora Topbooks, 2006, 598 p., R$ 59,00 |
Uma aventura alemã
Quem vê um exemplar de A Fuga do Bremen nas livrarias,de autoria de Peter A.Huchthausen, pode pensar que se trata de um alemão entusiasmado com uma das maiores façanhas de guerra realizadas por um navio de passageiros. Não é o caso.Huchthausen é capitão da Marinha norte-americana e atuou na Guerra do Vietnã.
Talvez por ser homem do mar, consiga avaliar bem o feito do capitão AdolfAhrens. Ao comando do Bremen,o maior e mais luxuoso navio de cruzeiros do mundo, ele estava atracado no porto de Nova York em agosto de 1939, quando explodiu a Segunda Guerra Mundial.Contrariando os esforços do presidente Roosevelt, fugiu rumo à Alemanha disposto a enfrentar o bloqueio britânico do Atlântico Norte. A imensa embarcação foi camuflada em movimento e em alto-mar, pintada com cores cinzas e sem nenhuma identificação de nacionalidade. Até lançar âncora em Bremerhaven, a tripulação permaneceu por quatro meses e três semanas a bordo do transatlântico.Durante todo esse tempo, os marinheiros estiveram prontos para afundar o navio caso caísse nas mãos dos ingleses.
O livro é repleto de cartas,mensagens de rádio e depoimentos que dão um tom realista à narrativa. É uma leitura envolvente,só prejudicada pela péssima qualidade da tradução.
Andréa Wolffenbüttel
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A Fuga do Bremen
Peter A. Huchthausen Editora Record, 2006, 320 p., R$ 48,90 |
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