A bandeira do estado dos inconfidentes proclama a liberdade,"ainda que tardia".Algo semelhante ocorre com as idéias políticas brasileiras,que sempre parecem intervir de modo defasado, quando não anacrônico, ou estar "fora do lugar", como afirmaram acadêmicos da Universidade de São Paulo (USP).Weffort é um acadêmico da USP que aderiu precocemente ao PT.Depois, deve ter julgado anacrônicas,ou tardias, as idéias econômicas desse partido e serviu, durante oito anos, como ministro de Fernando Henrique Cardoso.
As idéias e personagens de seu livro não chegam, contudo, à contemporaneidade, com as únicas exceções de Gilberto Freyre e Hélio Jaguaribe (mas até os anos 1950, apenas). Weffort retraça o itinerário de nossa formação política,desde o descobrimento até a segunda República.Os jesuítas ficaram imersos no universo mental da contra-reforma, a ilustração pombalina foi um reflexo tardio do mercantilismo, as idéias avançadas de José Bonifácio foram derrotadas pelos escravistas retrógrados da independência, e o industrialismo e o "papelismo" de Mauá tiveram de confrontarse com as propostas atrasadas dos agraristas e dos "metalistas".
O livro é menos uma formação do pensamento político do país - é duvidoso que ele seja, efetivamente,"brasileiro"- do que um exame da sucessão de idéias em voga no Brasil, importadas,em grande medida. Ele é também uma avaliação do maior ou menor efeito social provocado por seus portadores ou propositores, alguns deles claramente na vanguarda da sociedade, como Nabuco,que teimava em fazê-la avançar, sem grande sucesso porém.Não chega a ser novidade a reafirmação da prevalência do Estado sobre a nação ou a luta inglória dos nossos poucos intelectuais contra o atraso e a desigualdade. Euclides da Cunha constatou como a "civilização" esmagava uma suposta "barbárie"em Canudos, e Oliveira Viana,Sérgio Buarque,Caio Prado e tantos outros não se espantavam em confirmar a persistência do patrimonialismo ibérico.Weffort acredita que ainda temos ressonâncias do medievalismo português e ressalta os modismos importados: as manias francesas, o estilo político inglês do Império, o americanismo da República, tudo isso no quadro de um arraigado iberismo cultural.
Até meados do século XX, quando se completa a "formação do pensamento" tido como relevante pelo autor,as idéias eram trabalhadas à margem das universidades, que só a partir dos anos 1950 começam a fazer a "substituição das importações"no terreno da interpretação.Original, além de precoce, foi Gilberto Freyre, que forneceu idéias que depois seriam trabalhadas pela École des Annales.Mesmo o nosso nacionalismo econômico, consubstanciado no Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb),tem muito a ver com as idéias econômicas da Comissão Econômica para América Latina (Cepal),da Organização das Nações Unidas (ONU),entre elas a que afirma, mais uma vez,o primado do Estado.Na fase inicial, mesmo Roberto Campos era favorável ao planejameto governamental.
Um posfácio sobre a história das idéias discute a dúvida de Raymundo Faoro,que perguntava, já nos anos 1990, se existia um pensamento político brasileiro.Quanto ao presente, a resposta é positiva,mas provavelmente não em relação às idéias e aos autores do passado, estudados por Weffort. Ele acha que sim, mas como extensão do pensamento luso, com algumas originalidades. Pena que não estude Silva Lisboa, provavelmente considerado apenas em sua dimensão econômica.Talvez o indianismo da tradição romântica contenha mais brasilidade do que as idéias políticas e econômicas, importadas de suas matrizes européias. Na passagem do século XIX para o XX, a idéia de brasilidade se confunde com os projetos de superação do atraso, que passa necessariamente pela redução das desigualdades. Parece que ainda não conseguimos levantar esse obstáculo.
Paulo Roberto de Almeida
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Formação do Pensamento Político Brasileiro: idéias e personagens
Francisco C.Weffort Editora Ática, 2006, 360 p., R$ 39,90 |
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