Quando uma iniciativa de geração de trabalho e renda é desenvolvida a partir de um mergulho profundo na realidade em que se insere e nas vocações e tradições das pessoas, sem assistencialismo eleitoreiro, é possível conquistar um feito tão inimaginável quanto transformar donas-de-casa de uma favela carioca em artesãs de prestígio internacional nos universos da moda e do design.Criada no fim dos anos 1980,a Cooperativa de Trabalho Artesanal e de Costura da Rocinha,do Rio de Janeiro, mais conhecida como Coopa-Roca,produz peças para as marcas Osklen,M.Officer,Eliza Conde e Amazonlife,com as quais mantém parceria comercial,além de receber encomendas pontuais de outras grifes nacionais como Dautore e Lenny.
Formada por cerca de cem artesãs, a cooperativa também atende pedidos do exterior. O mais recente foi feito no mês passado pela marca japonesa Jun Co,que encomendou cem colares.Os japoneses descobriram a Coopa-Roca na edição deste ano da London Fashion Week.Além da capital inglesa,o trabalho dessas talentosas mulheres já desfilou pelas passarelas de Paris,Berlim e Nova York e nos corpos de modelos como Ana Hickmann e Isabeli Fontana.Mundialmente famosa por sua explosão demográfica e pelo contraste com as mansões e condomínios de luxo dos bairros vizinhos da Gávea e de São Conrado,a Rocinha supera os preconceitos e ganha o planeta,não pelo estigma da pobreza e da violência, mas pelo requinte e glamour das peças de alta-costura que produz.
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| Cooperativa de costureiras da favela da Rocinha dá show de empreendedorismo. As peças confeccionadas pelas artesãs cariocas ganham o mundo, vestem modelos internacionais e desf ilam nas passarelas de Londres, Paris e Berlim |
| Osklen - São Paulo Fashion Week, julho 2006 - Coleção Verão 2007 - vestido de paeté de látex - bordado COOPA-ROCA -modelo Bruna Sottili |
Envolvimento A história da Coopa-Rooca começou a ser desenhada em 1981, quando uma jovem moradora do Leblon,motivada pela leitura do educador Paulo Freire, decidiu conhecer de perto a vida cotidiana do morro."Comecei visitando a empregada de uma amiga, que passou a me apresentar às vizinhas.O envolvimento com a comunidade acabou fazendo com que eu iniciasse uma oficina de reciclagem para crianças.Um dia,consegui uma doação de retalhos de tecidos e pedi a uma das moradoras que me ajudasse a fazer bonequinhas de pano. Ela se negou a deixar os retalhos nas mãos das crianças.Disse que tinha uma idéia melhor para aproveitá-los e chamou amigas para fazer almofadas, tapetes e colchas.Estava plantada a semente", conta a socióloga Maria Teresa Leal, cofundadora da Coopa-Roca e responsável pela coordenação executiva dos setores de produção e gestão da cooperativa.
Encantada com a riqueza das peças produzidas pelas migrantes nordestinas,a carioca Tetê Leal, como é conhecida, passou a dedicar-se à organização de um grupo de artesãs. O trabalho começou a ser desenvolvido em 1982, com apenas cinco mulheres."A iniciativa foi o desdobramento de uma postura de chegar à Rocinha com os olhos e ouvidos bem abertos.Ao perceber que as migrantes nordestinas haviam trazido consigo o domínio de técnicas artesanais, vi naquilo uma ótima oportunidade para unir interesses e capacidades ", afirma Tetê.
As peças, feitas com sobras de corte industrial, foram vendidas a amigos e vizinhos e em eventos como festas juninas de colégios e universidades, e feiras de artesanato no Circo Voador.Sem falar no bazar de Natal na casa da mãe da Tetê.Depois de cinco anos, foi criada a cooperativa. "O grupo começou a se empenhar no projeto. Para que o trabalho pudesse evoluir,no entanto, era preciso que existisse legalmente. Pensando nisso, levei dois profissionais à Rocinha,um para explicar o funcionamento de uma associação e outro para falar sobre cooperativas.As artesãs acabaram ficando com a segunda opção", lembra a socióloga.
Com a sobra do corte industrial de confecções, as artesãs começaram produzindo colchas, tapetes e almofadas de retalhos, vendidos a amigos e vizinhos Perto de completar vinte anos de existência, a cooperativa conta hoje com uma estrutura de produção bem organizada e cerca de cem cooperadas com renda mensal média de 300 reais
Tradições A Coopa-Roca nasceu com a proposta de elaborar produtos artesanais para decoração por meio do resgate de técnicas tradicionais,como o fuxico,o crochê, o bordado, o nozinho e o patchwork.Com apenas um ano de vida, obteve uma linha de crédito do governo federal e adquiriu a casa onde hoje funciona a sede de três andares, na Rua Um,parte alta da favela (mais próxima da Gávea).A projeção veio quando a cooperativa ingressou no mundo da moda."No início da década de 1990,notei que havia um movimento de vanguarda acontecendo no eixo Rio-São Paulo, com uma visibilidade muito bacana. Fui atrás de quem estava organizando esses eventos e consegui que a Coopa-Roca entrasse no circuito.A moda com selo social era a grande novidade",diz Tetê Leal.
O primeiro desfile aconteceu na Fundição Progresso,no Rio, em abril de 1994. Onze meses depois, o talento e a criatividade das mulheres da Rocinha ganharam as passarelas de Berlim. Tetê Leal recorda que ficou assustada com o convite para participar de um desfile na Alemanha."Na época, o alemão Alfons Hug, curador das duas últimas bienais de São Paulo e atual diretor do Instituto Goethe no Rio de Janeiro,estava organizando uma mostra sobre o Brasil na capital alemã e queria exibir um trabalho que tivesse não só uma linguagem bem brasileira, mas uma proposta original.Ele tomou conhecimento da cooperativa e ligou para mim.Quando atendi, achei que fosse trote e desliguei o telefone.Ele ligou novamente e me deu uma broca. Não acreditei que pudesse ser verdade",diverte-se.
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