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Edição 27
Janeiro/2006

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O longo caminho para a escola
Por Lia Vasconcelos, de Brasília

Depois de garantir que todas as crianças entrem na escola, o Brasil agora enfrenta o enorme desafio de melhorar a qualidade da educação. Nossos estudantes, em qualquer série, apresentam desempenho que equivale ao de um aluno europeu com cinco anos menos de estudo. Além disso, daqueles que se matriculam no primeiro ano, apenas 57% concluem o ensino fundamental porque muitos abandonam o colégio por desânimo ou para trabalhar

Ilustração OrlandoO quadro apresentado a seguir não é nenhuma surpresa, faz parte da velha e conhecida lista de mazelas sociais brasileiras. Mas não é porque não venha encoberta com o frescor da novidade que a discussão sobre a qualidade da educação básica seja menos importante. Ao contrário, é assunto dos mais urgentes. Para começar, o Brasil ainda conta com um grande contingente de analfabetos. A recém-divulgada Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2005, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra que 10, 9% dos brasileiros com mais de 15 anos não sabem ler nem escrever. Em 2002, essa taxa era de 11, 8%, totalizando 14, 8 milhões de analfabetos. Portanto, em três anos, apenas 213 mil pessoas tiveram a chance de se alfabetizar. Só para ficar na América Latina, a taxa de analfabetismo na Argentina era de 2, 8% em 2001, e no Chile, 4, 3% em 2002.

Outro aspecto particularmente importante é que, apesar de virtualmente todas as crianças com sete anos entrarem na escola, de acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), somente 84% concluem a 4. ª série e 57% terminam o ensino fundamental. O funil estreita-se mais ainda no nível médio: apenas 37% dos que ingressaram no ensino fundamental conseguem concluir a próxima etapa. A escolaridade média do brasileiro, que era de 6, 8 anos de estudo em 2004, permanece abaixo da escolaridade obrigatória no país (leia tabela Média de anos de estudo segundo grupos de idade). Em qualquer série, um jovem brasileiro tem um nível de competências educativas que corresponde aproximadamente ao de um europeu médio com cinco anos a menos de estudo. O fato de todas as crianças entrarem na escola é, sem dúvida, uma grande conquista, mas é só o primeiro passo. Agora é preciso investir incansavelmente em qualidade, o que inclui aperfeiçoamento dos professores, melhoria da infra-estrutura e motivação dos profissionais envolvidos. Ter boas escolas não é só uma urgência social, mas também econômica, já que um diploma de ensino médio permite que os rendimentos médios dessa força de trabalho sejam o dobro dos que não têm escolaridade. E o ensino superior quase triplica esse rendimento, comparado com o médio. Essa discussão está no capítulo dedicado à educação da publicação Brasil:O Estado de uma Nação, recentemente lançada pelo Ipea.

Em 2005, 10,9% dos brasileiros com mais de 15 anos não sabiam ler nem escrever. Na Argentina, a taxa de analfabetismo, quatro anos antes, era de 2,8%, e no Chile, 4,3%

Para muitos, o problema começou lá atrás. Mais sério do que os erros do presente, segundo Cláudio Moura e Castro, presidente da rede de ensino Pitágoras e coordenadordo capítulo, foi o que deixou de ser feito durante os primeiros quatro séculos de vida do país. Se na Europa a escola se difundiu rapidamente a partir do século XVIII e quase todos os países do continente conseguiram universalizar o acesso à educação ainda no século XIX ou no início do século XX, no Brasil a história foi bem diferente. Em meados do século XVIII, cerca de apenas um em cada 10 mil brasileiros freqüentava a escola, e em torno de 70% da população era analfabeta em 1900. As razões por trás disso são fáceis de entender. Nessa época, aproximadamente dois terços da população de Portugal também era analfabeta. O cenário estava pronto, pois o Brasil não herdou de seu colonizador uma tradição educativa. “O grande problema não é o que fazemos de errado, mas o que não fizemos por quatro séculos. Só há cinqüenta anos as coisas começaram a acontecer e aí tudo foi feito na correria, às pressas”, diz Moura e Castro. Segundo ele, o crescimento que se deu depois de 1950 foi impressionante, mas não conseguiu recuperar esse atraso acumulado.

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