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O imperador americano das PPPs
Paulo Roberto de Almeida
Quem imagina que as parcerias público- privadas (PPPs) sejam uma modernidade faria bem em revisar sua lição de história. Elas começaram mais de um século atrás, em pleno império, como solução à crônica falta de capitais no Brasil para obras de grande porte. E persistiram durante a Velha República. Percival Farquhar foi, segundo Gauld, o “maior vulto americano da história do Brasil”, demonizado pelos nacionalistas, incompreendido pelos políticos, hostilizado pelos xenófobos e nada conhecido pelos atuais promotores das PPPs. Nos países vizinhos, ele seria chamado de gringo explorador. No Brasil, foi respeitado no início de seus muitos investimentos em obras públicas e empreendimentos extrativistas, passou a ser temido quando adquiriu as dimensões de um Mauá estrangeiro e foi impiedosamente expropriado ao longo da era Vargas. Poucos sabem que a Vale do Rio Doce começou pelas suas mãos: a Itabira Iron Ore Company, que, aliás, já existia antes de ele adquiri-la, em 1919. A Vale, a Acesita, a Ports of Pará - construída para exportar a borracha da Amazônia e que começou a funcionar no momento mesmo da crise trazida pela concorrência da Malásia, em 1913 - e várias outras companhias fundadas por Farquhar foram nacionalizadas no decorrer da dura batalha que ele travou contra os demolidores do formidável império econômico que foi construindo a partir de 1904.
A despeito do tom laudatório, Gauld reconstrói, além do itinerário desse imperialista exemplar, vários capítulos de nossa história econômica: quase não há setores - que os militares chamariam de “estratégicos” - em que ele não tenha colocado os capitais de seus associados estrangeiros: bondes, ferrovias, navegação, portos, hidrelétricas, pecuária, processamento de carne, agricultura e silvicultura, extração mineral, indústrias de papel e siderurgia. Como Mauá, ele enfrentou inúmeros problemas, a maior parte vinda do próprio Estado brasileiro, mesmo tendo praticado a arte (não inusitada) de “comprar”deputados e jornalistas para defender os seus interesses. Imperialista bizarro, Farquhar apreciava mais o risco do investimento do que a cor do dinheiro; foi um verdadeiro pioneiro, como seus ancestrais quacres, podendo até ser equiparado, sem nenhum exagero, aos nossos bandeirantes.
“Os brasileiros”, disse uma vez Farquhar, “chamaram minha atenção pela rapidez de raciocínio, embora estejam igualmente prontos a chegar a conclusões apressadas. ” Em 1906, ele já se queixava da “constante flutuação da taxa de câmbio”e, no final da vida, em 1952, registrava a “vã manifestação de esperança”, mantida durante meio século, de que algum dirigente corrigisse a “instável economia do Brasil, em perpétua inflação”. A obra reflete o momento em que foi escrita (1962), quando os EUA consideravam que o Brasil corria o risco de tornarse uma “grande Cuba”. Gauld não esconde uma incontida admiração pelo seu herói e certa impaciência com os nacionalistas brasileiros. Os editores e a tradutora estão de parabéns pela corajosa iniciativa de publicar essa obra esquecida.

Farquhar, o Último Titã: um empreendedor
americano na América Latina
Charles A. Gauld
São Paulo: Editora de Cultura, 2006
520 p. , R$ 88, 00
O esqueleto chinês
Carlos Campos NetoA infra-estrutura é uma face da economia chinesa nem sempre valorizada. Os recursos inicialmente aplicados no litoral para instalação das Zonas Econômicas Especiais (ZEE's) permitiram transferências para o interior, criando uma economia continental integrada e inserida no contexto mundial. O geógrafo Elias Jabbour visitou e estudou as três maiores obras de infra-estrutura do mundo atual: a Usina Hidrelétrica de Três Gargantas, o Gasoduto Oeste-Leste (Xinjiang-Xangai) e a ferrovia Qinghai-Tibet. Outras são apresentadas em detalhes.
As idéias de Ignácio Rangel sobre os mecanismos de desenvolvimento econômico ajudaram o autor a decifrar seu tema. Elias Jabbour demonstra que na China os meios de aceleração da acumulação de riqueza social criados pelo capitalismo são administrados de forma planejada pelo Estado. O planejamento combina controle flexível e pragmático dos principais instrumentos de acumulação, como sistemas de crédito, câmbio e finanças; descentralização administrativa; e competição no mercado de bens. Há políticas industriais e normas destinadas a favorecer a formação de grandes conglomerados nacionais, freqüentemente em associação com empresas estrangeiras, na busca de apropriação tecnológica.

China - Infra-estruturas e crescimento econômico
Elias Jabbour
Editora Anita Garibaldi, 2006, 256 p. , R$ 30, 00

