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Edição 27
Janeiro/2006

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Belita Koiller
O Brasil perdeu vários bondes com essa mania de comprar a tecnologia pronta. Mas na área de computação quântica temos competência

Por Andrea Wolffenbuttel de Brasília

Rafael Andrade

Pesquisadora do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Belita Koiller foi uma das três cientistas brasileiras a ganhar o prêmio L'Oréal-Unesco para Mulheres na Ciência. Seus estudos estão voltados para duas áreas inovadoras: a computação quântica e as nanociências.Nesta entrevista,a professora conta como é a vida de uma mulher que decidiu permanecer no Brasil, trabalhar com ciência e competir com os estudiosos de todo o mundo em pé de igualdade

Desafios - A senhora trabalha com pesquisa de propriedades eletrônicas, estruturais e modelagem computacional de materiais. Por que escolheu essa atividade?
Koiller - Eu queria trabalhar em alguma área da física que tivesse atividade experimental, que fosse próxima das aplicações e das experimentações acessíveis no Brasil.

Desafios - A senhora conseguiria explicar a um leigo como é seu trabalho?
Koiller -
Na verdade, trabalho com física da matéria condensada, que é a área da física mais próxima das aplicações em engenharia. Eu estudo as propriedades eletrônicas dos materiais.Por que alguns materiais são isolantes, as pedras, os cristais,por exemplo, enquanto outros são condutores e transportam corrente elétrica, sobretudo os metais.

Essa diferença é fundamental. Embora isso já fosse familiar desde a antiguidade - desde a Idade da Pedra o homem sabe que os materiais têm características diferentes - foi só com o advento da mecânica quântica, em 1930, que essa questão foi respondida.Foi a partir desse ponto que se conseguiu explicar o comportamento dos elétrons.Esse foi o início da física moderna da matéria condensada. É essa grande revolução que a gente vive, ou sofre, até hoje de "domesticar"os elétrons.

Desafios - Colocá-los nos trilhos.
Koiller -
Na primeira metade do século XX, verificou-se que era necessário um meio mais robusto para controlar a corrente e surgiram as válvulas. Elas também são dispositivos que controlam os elétrons,só que os elétrons na sua forma despida, como nos raios, não em seu hábitat natural. O hábitat natural do elétron são os materiais e pensou- se primeiro nos materiais metálicos, nos quais os elétrons caminham livremente, só que os metais são muito lineares, a causa e o efeito são muito lineares.Para chegar aonde queríamos era necessário conseguir outros comportamentos, mais inesperados, mais diversificados. Foi quando em 1949, 1950, surgiu esse dispositivo baseado em materiais semicondutores que era o patinho feio dos materiais, não era nem uma coisa nem outra,nem isolante nem condutor, mas era justamente essa coisa da intuição. Um grupo de três pesquisadores no laboratório da Bell, nos Estados Unidos, desenvolveram um dispositivo chamado transistor, o substituto das válvulas, que é uma mistura de resistor com transmissor. O transistor fazia a mesma coisa que a válvula, só que com elétrons controlados dentro dos materiais semicondutores.

Uma mulher quase normal

Com o olhar sempre agitado, apesar da voz mansa, a professora Belita Koiller parece estar o tempo todo à procura de respostas para perguntas que só ela conhece. Mas não é assim. Como ela mesma admite nesta entrevista, sua especialidade é formular perguntas.

As respostas vêm naturalmente. Foi usando esse método estranho que a jovem, descendente de russos e romenos, construiu uma carreira de sucesso numa área pouco freqüentada por mulheres: a física quântica. Carioca da gema (nasceu e cresceu em Botafogo), formou-se em Física pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUCRJ), fez doutorado na Universidade da Califórnia, Berkeley, nos Estados Unidos, e voltou para o Brasil. Lecionou e pesquisou na PUCRJ por dezoito anos, de onde saiu em 1994 para trabalhar no Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

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