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Edição 26
Dezembro/2006

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Kailash Satyarthi Um herói contemporâneo
Por Lia Vasconcelos, de Brasília

Ricardo LabastierIndicado para receber o Prêmio Nobel da Paz deste ano, o indiano Kailash Satyarthi é um exemplo de gente que faz diferença. Há 25 anos, abandonou a engenharia para combater o trabalho infantil. Nesse período, calcula-se que tenha resgatado mais de 60 mil pequenos trabalhadores, além de outros tantos adultos mantidos em regime de escravidão moderna. Comanda pessoalmente invasões a fábricas para libertar crianças e devolvê-las à infância. De passagem por Brasília, para participar de um seminário sobre educação, pobreza e desenvolvimento, promovida pela Missão Criança ele falou a Desafios a respeito de sua luta e de seus projetos futuros.

Hoje cerca de 218 milhões de crianças trabalham em más condições. Dessas, cerca de 20 milhões são escravizadas

Desafios - Por que o senhor trocou a carreira de engenheiro pelo combate ao trabalho infantil?

Satyarthi - O interesse e a paixão pelo trabalho com crianças têm origem na minha infância. Meus pais queriam que eu fosse engenheiro, o que é comum em famílias de classe média de cidades pequenas da Índia. Quando fui à escola pela primeira vez, aos 5 anos, vi um menino sentado nos degraus do lado de fora, trabalhando como engraxate com seu pai. Fiquei chocado ao descobrir que meninos da minha idade não estudavam como eu e meus amigos. Perguntei ao professor por que essa criança estava lá fora. Ele me disse: "Existem muitas crianças como esse menino. São pessoas pobres, nada de novo". Mas não me conformei. Perguntei a outras pessoas, que também não me convenceram. A resposta era sempre a mesma. Um dia, criei coragem e fui falar com o pai do garoto. Perguntei:"Por que o senhor não leva seu filho à escola?"Ele ficou surpreso e, depois de alguns minutos, disse: "Ninguém nunca havia me perguntado isso, eu nunca pensei no assunto. Meu pai trabalhava desde a infância, isso aconteceu comigo e, agora, meu filho também trabalha. Nascemos para trabalhar". Descobrir que algumas pessoas nascem para trabalhar e outras, como eu, nascem para ir à escola, foi terrível e encarei o caso como um desafio. Foi quando comecei a coletar livros e dinheiro para os que eram obrigados a largar os estudos - o que segui fazendo por toda a vida. Ao terminar a graduação e a especialização em engenharia elétrica de alta voltagem, cheguei a trabalhar como engenheiro por um ano. Depois larguei. Naquele tempo, ninguém combatia a escravidão infantil em meu país. Nem as agências da Organização das Nações Unidas (ONU) atuavam nessa área. Começar foi muito difícil.

Desafios - O senhor é fundador-presidente da Marcha Global contra o Trabalho Infantil e também da Coalizão Sul-Asiática sobre Escravidão Infantil. Como surgiram essas organizações?

Satyarthi - A Coalizão Sul-Asiática sobre Escravidão Infantil teve origem numa organização não-governamental indiana com ação direta na libertação de crianças da escravidão e sua posterior educação e reabilitação. A Marcha Global contra o Trabalho Infantil foi fundada em 1998, depois de uma marcha que envolveu cerca de 2 mil organizações não-governamentais e muitos sindicatos. As pessoas partiram de locais como Manila, capital das Filipinas; São Paulo, no Brasil; e Cidade do Cabo, na África do Sul; se encontraram na Europa e seguiram até Genebra, na Suíça. Ali, os participantes decidiram adotar o mesmo nome, formar uma organização comum. Assim, a Marcha Global contra o Trabalho Infantil passou a ter presença em 140 países.

Desafios - Como essas organizações são f inanciadas?

Satyarthi - Elas são independentes. Captam seus próprios recursos. A coordenação da Marcha Global não repassa dinheiro, mas promove campanhas educacionais e outras atividades conjuntas.

Desafios - O senhor participa pessoalmente do resgate de crianças. Como sabe aonde ir?

Satyarthi - Vou citar um exemplo. Há uma semana, uma pessoa me contou que um menino havia sido levado à força a Nova Délhi, capital da Índia, distante de sua casa cerca de 900 quilômetros. Por aproximadamente quinze meses, trabalhou num pequeno restaurante de rua. Não podia sair, não recebia pagamento e foi avisado de que, se tentasse fugir, apanharia. Havia outras pessoas trabalhando ali, mas o menino não apenas trabalhava: morava lá. Era um escravo. Acordava muito cedo, para limpar o lugar, e ia dormir muito tarde. Reuni um grupo de amigos e representantes da mídia local, fomos ao restaurante e, depois de alguma discussão, saímos com o menino. Então, chamamos a polícia e explicamos a situação. O garoto ficou num abrigo para crianças até que seu pai chegasse a Nova Délhi para levá-lo de volta à sua casa. Isso ocorreu na semana passada.

Cruzada pela infância

Todo de branco, com calça e túnica típicas da Índia, Kailash Satyarthi recebeu Desafios de pés descalços - um hábito cultural indicador de que pretendia ter uma conversa descontraída. Um desavisado jamais imaginaria o trabalho em que está envolvido esse homem de óculos e barba aparada. Aos 51 anos de idade, com jeito tranqüilo, ele não demonstra seu poder como ativista. Fala com serenidade de histórias dramáticas e das ameaças de morte que a família recebe - motivo de sua filha ter deixado a Índia para estudar nos Estados Unidos. O filho, advogado, trabalha com o pai.

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