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Edição 24
Outubro/2005

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livros e publicações
A economia em centímetros quadrados...

Nos dicionários - como nas enciclopédias -, espaço é tudo.A "centimetragem" dos verbetes costuma refletir a importância relativa de cada um.Por isso,pode parecer bizarro que, nesse dicionário, o espaço ocupado pelo "mágico de Oz"(yes,o famoso personagem de Frank Baum) seja duas vezes maior do que o alocado ao verbete "capitalismo": duas páginas inteiras (de duas colunas) para o "mágico", ante apenas três quartos de uma única página para capitalismo, sendo que seu ex-inimigo,o defunto "comunismo",ganha uma página e meia.

Essa é uma das peculiaridades dessa, ainda assim,utilíssima ferramenta de consulta, que não deixa de refletir os gostos e as preferências de seu autor,um bem-sucedido professor de Economia hoje convertido em sinônimo de obra de referência.

Sim, a partir da quinta edição de uma obra publicada originalmente em 1985, para acompanhar a coleção Os Economistas (da Editora Abril), já se pode falar do "Sandroni" como usualmente se fala do "Aurélio", com algumas diferenças,no entanto. Se o "primo"da língua portuguesa procura seguir o cânon da Academia Brasileira de Letras, Sandroni não segue nenhum padrão consagrado, a não ser o seu próprio. Será por isso que o verbete "protecionismo" ostenta o dobro do espaço dado ao "livre-comércio"? Não parece estranho, novamente, que o Mercosul ocupe menos da metade da área atribuída ao Nafta, ao passo que um acordo que ainda nem existe, a Alca, tenha mais do dobro deste último? Infelizmente,o verbete Mercosul não é apenas insuficiente,mas claramente inadequado, inclusive conceitualmente. Se o Mercosul dependesse do "Sandroni" para validar sua relevância, estaria condenado ao museu das antiguidades, ao lado do machado de bronze e da roca de fiar,destino do Estado previsto por Engels.

Esse tipo de inconsistência não passaria por uma academia de economia se esta chancelasse dicionários do gênero. Não que Sandroni tenha trabalhado sozinho:

"Essa utilíssima ferramenta
de consulta não deixa
de refletir os gostos
e as preferências de seu autor"

os créditos consignam pelo menos três dúzias de consultores mais três dezenas de pesquisadores.Mas ele certamente exerceu o direito de aumentar, aqui e ali, as fichas individuais cada vez que um tema crescia em importância em sua mente.Daí o caráter irregular de algumas informações,bem como erros primários de revisão (o verbete "monocultura", por exemplo, é repetido na imediata seqüência).

Não são observáveis apenas espaços desiguais, mas também insuficiências notórias ou deslizes clamorosos.Certos verbetes - "Escola Clássica", por exemplo - apresentam quase uma aula e outros induzem a erro: Hayek nunca foi "neoliberal"pela simples razão de sempre ter sido um liberal clássico, tout court.

Mas por que a "interpretação econômica" do "mágico de Oz"valeria duas vezes e meia a descrição do capitalismo? Sem cair de novo nas preferências do autor,digamos que a fábula de Baum ilustra os dilemas da transição do bimetalismo (ouro e prata) ao monometalismo do padrão-ouro na construção dos sistemas monetários nacionais durante a segunda onda da globalização (final do século XIX e início do seguinte). Ainda assim,há um notório exagero na dimensão do texto (que,aliás,é bem escrito).

A atualização de alguns verbetes também deixa a desejar, considerando-se a data do "fechamento": julho de 2005.Mesmo dando-se desconto de um ano, é inexplicável que na anotação sobre o Mercado Comum Europeu esteja registrado que a entidade "congrega" (assim, no presente) doze membros,quando ela já se tinha transformado na Comunidade Econômica Européia desde 1967, sendo esta substituída pela expressão Comunidades Européias na década seguinte.A União Européia,por sua vez,existe desde 1993,tendo passado de 12 a 15 membros dois anos mais tarde; e a 25 nos dias atuais (encore plus em negociações).

Mais surpreendente ainda,MCE remete ao verbete "União Européia",que simplesmente não há, esquecido entre a União Escandinava (uma união monetária que funcionou entre 1873 e 1905) e a União Européia de Pagamentos (um sistema de pagamentos compensados que deixou de existir em 1958). Surpreendente ou inexplicável, esse tipo de omissão é imperdoável numa compilação do "século XXI".

Na verdade,pouca coisa pertence ao século XXI.A maior parte das informações vem dos séculos XIX e XX.Mas o verbete FMI já traz Rodrigo Rato como diretor, a partir de 2004.Os temas recentes estão registrados. Alguns exemplos são o "índice Big Mac", do semanário inglês The Economist, o "consenso de Washington"(erroneamente definido como defesa do "Estado mínimo") e os acordos de Basiléia 1 e 2 (normas prudenciais para atividades bancárias). Para um dicionário do século XXI, o verbete "globalização"não poderia ser mais anêmico: escassas dez linhas (em meia coluna, recorde-se),mais voltadas para o fenômeno do global sourcing do que aos processos de integração de mercados.Talvez o autor não goste da globalização,mas ela ainda assim existe e incomoda.

Interessantes e úteis são os verbetes dedicados às idiossincrasias econômicas brasileiras, como o jogo do bicho - cálculos de probabilidade indicam que os banqueiros ficam com de 60% a 70% das receitas -, as mordomias, tais como oficialmente definidas pela administração,ou os diversos planos brasileiros de desenvolvimento e de estabilização econômica.Comparecem sínteses históricas sobre a legislação e os padrões monetários, sobre os valores do salário mínimo, bem como listas de ministérios e de ministros da Fazenda do Brasil: o ex-presidente Itamar Franco foi um campeão de ministros!

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