O atual ciclo de crescimento da indústria brasileira foi antecedido por praticamente duas décadas de desempenhos favoráveis pontuais. Foram recorrentes, no passado recente, pelo menos três problemas: a restrição externa, os limites da capacidade instalada e a inflação. É importante, para entendermos o atual ciclo de expansão (iniciado em meados de 2003), detectar que fatores têm puxado a demanda efetiva.
Um aspecto é a evolução do rendimento médio real habitual das pessoas ocupadas nas regiões metropolitanas. Nota-se que a variação mensal de cada ano, em relação à do mesmo mês do ano anterior, só se torna positiva a partir de julho de 2004. Um aspecto análogo dessa questão é a evolução da população ocupada e empregada nas regiões metropolitanas. O indicador tem crescido mensalmente (em relação ao mesmo mês do ano anterior) desde 2003, tendendo a aumentar seu desempenho para patamares entre 4, 5% e 5, 5% em 2005. Essa é uma característica nova do atual ciclo em relação à década de1990: o crescimento com forte ampliação de emprego.
Outro indicador é o aumento mensal (em relação ao mesmo período do ano anterior) do volume de vendas no varejo, que só se torna positivo a partir de dezembro de 2003. E mais: informações acerca da evolução das operações de crédito com recursos livres de pessoas físicas do Sistema Financeiro mostram que variação mensal é positiva e alta (da ordem de 10% a 15%) desde o início de 2003.
Esses comportamentos são interessantes por indicar que, provavelmente, a dinamização da demanda de pessoas físicas, sustentadora do ciclo de expansão industrial experimentado atualmente, se deve, por ordem de importância, a crescimento do emprego, aumento da oferta de crédito e elevação real dos salários.
Mais um componente a ser considerado é o valor, em dólares, das exportações brasileiras. Nota-se seu crescimento após 2003, e a demanda externa provavelmente foi a responsável pelo início do ciclo expansivo. Importante, ainda, é o seguinte:durante o forte crescimento de 2004, as exportações não arrefeceram, como em 2000.
| "A dinamização da demanda de pessoas físicas, sustentadora do atual ciclo de expansão industrial, se deve ao crescimento do emprego, ao aumento da oferta de crédito e à elevação real dos salários" |
Um último aspecto é o da Formação Bruta de Capital Fixo. Por um lado, deve-se notar que seu índice, contido no Sistema de Contas Nacionais trimestrais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra valores relativamente estagnados em 2003, crescentes desde 2004, mas com variação relativamente baixa se comparada às do varejo e das exportações.
O complexo metal-mecânico, principalmente de bens de capital e de consumo durável para exportação, liderou a reativação do crescimento após 2003. Entretanto, em 2004 o setor de bens de capital perdeu fôlego, ao passo que o de bens de consumo durável acelerou. O perfil de 2006 é bem semelhante ao de 2005: liderança mais modesta dos bens de consumo durável. O bom desempenho, dentro desse complexo, dos bens de consumo durável suscita cuidados. A história dos últimos 35 anos mostra que tal segmento tende a enfrentar problemas de realização dinâmica ao tentar crescer à frente da demanda.
A solução poderia ser encontrada se o setor de bens de capital assumisse a liderança, o que significaria não apenas expansão retroalimentadora da renda das famílias, como expansão da capacidade produtiva e maior difusão de progresso técnico. Como, entretanto, dificilmente isso ocorrerá no futuro próximo, acreditamos que a ênfase atual da importação de bens de capital deve continuar tendo como contrapartida o bom desempenho das exportações.
Luiz Dias Bahia é pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)