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Inteligência solidária
O Centro de Referência em Informação Ambiental (Cria) constrói e mantém uma infra-estrutura que compartilha, on-line, dados sobre o mosaico da biodiversidade brasileira. Os frutos do conhecimento de milhares de pesquisadores estão ao alcance de um clique para quem quiser colaborar com a preservação da vida no planeta
Por Eliana Simonetti, de São Paulo
Onde quer que você esteja, olhe em volta com atenção. Verá, certamente, pessoas de origens diferentes. Plantas com as mais variadas características. Insetos, animais, um mosaico de diversidade. Agora amplie o que verificou, em seu pequeno campo de visão, para os mais de oito mil quilômetros quadrados do território brasileiro, nos hemisférios sul e norte, com mais de 55 mil quilômetros de águas internas, e um litoral que excede os sete mil quilômetros. Nesse espaço, inúmeros tipos de minerais e rochas; montanhas, planaltos, planícies e depressões; clima tropical, equatorial, semiárido e subtropical; um sem-número de seres. O país detém aproximadamente 23% da biodiversidade do planeta. Só a Amazônia conta com 34 ecossistemas, cerca de um terço das florestas tropicais do mundo e um terço da biodiversidade global, bem como a maior bacia de água doce da Terra - e 63, 7% da região amazônica estão em terras brasileiras. Essa é uma riqueza que se perde quando o homem age descuidadamente
sobre o ambiente natural, para modificá- lo conforme seus interesses. Existe um batalhão de cientistas e pesquisadores trabalhando na tentativa de reduzir o impacto da ganância e da postura predatória, de compreender e preservar vidas que fazem falta. Trata-se de uma questão de sobrevivência da humanidade, isto é, de vida ou morte de gente, animais e plantas. A carta escrita por Pero Vaz de Caminha, a bordo dos navios portugueses desembarcados no Brasil em 1500, já continha descrição encantada da exuberância natural brasileira. Mas deixemo-la de lado. Há uma obra espetacular, de autoria do médico e botânico alemão Carl Friedrich Philipp Von Martius, vindo ao Brasil em 1817 na comitiva que acompanhou a princesa Leopoldina, depois esposa do imperador Pedro I. Esse homem, um curioso insaciável, percorreu dez mil quilômetros em três anos, descreveu 22. 767 espécies e desenhou 3. 811 plantas, flores, frutos e sementes do cerrado, da caatinga e das florestas Amazônica e Atlântica. Até pouco tempo atrás, quem quisesse consultar a obra, ainda considerada o mais completo levantamento da flora brasileira, tinha de visitar a Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, ou o Instituto Martius Staden, em São Paulo. A coleção Flora Brasiliensis, com seus 15 volumes de textos em latim e ilustrações, está agora ao alcance de qualquer curioso ou interessado. Foi digitalizada, e suas informações podem não apenas ser vistas, mas baixadas para o computador do usuário, em alta resolução. A digitalização das imagens foi feita pelo Jardim Botânico de Missouri, nos Estados Unidos. O sistema foi desenvolvido e é gerenciado pelo Centro de Referência em Informação Ambiental (Cria), Organização não Governamental (ONG) com sede em Campinas, no interior paulista. Democracia Desde a década de 1960, os cientistas usam as redes de computadores como suporte à pesquisa. Mas, nas origens, elas eram utilizadas por grupos fechados de acadêmicos que competiam entre si. O fenômeno que vem se verificando nos últimos tempos é impressionante, por reverter uma cultura que parecia imutável. "É espantoso que 500 pesquisadores acadêmicos disponham-se a liberar os dados primários de suas investigações, e a compartilhar seus achados com outros", diz José Fernando Perez, conselheiro do Cria - referindo- se apenas a um dos projetos da organização, que envolve cientistas do estado de São Paulo. Mas não são somente os paulistas que andam se conectando, democratizando o acesso a seus descobrimentos e invenções. Isso está acontecendo em todo o país, e no mundo. Essa, na verdade, é uma decisão tomada internacionalmente, em 1992, quando foi adotada a Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), durante a Conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) de Nairóbi, aberta para assinatura no Rio de Janeiro, durante a Conferência sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, conhecida como Eco-92. É notável que o Brasil tenha sido um dos primeiros países a dispor de estrutura legal e institucional acerca do acesso e compartilhamento de benefícios relativos aos recursos genéticos e aos conhecimentos tradicionais. O Ministério das Relações Exteriores tem ressaltado a experiência em suas negociações na defesa dos direitos dos países e das comunidades indígenas e locais às suas heranças genéticas. Pois bem. O Cria viabiliza esse processo de intercâmbio. Desenvolve ferramentas que disseminam o conhecimento científico e tecnológico e promovem a educação. Seus sites disponibilizam projetos e programas desenvolvidos nas áreas de biodiversidade e sistemas de informação. Mesmo quem não tem nenhum interesse em pesquisa científica pode passar horas viajando nos sítios do Cria. Alguns são mais técnicos, outros mais lúdicos. Para ensinar, e difundir conhecimentos que melhorem a situação do meio ambiente brasileiro, tudo é válido. Informações surpreendentes podem ser encontradas nos sítios mantidos pelo Cria. Depois de 12 anos de investigações em 48 parques e áreas verdes da cidade de São Paulo, constatou-se que uma das maiores metrópoles do planeta ainda abriga 433 espécies de animais, entre elas preguiças, carpas, gaviões, rãs, gambás, tatus, furões, capivaras, veados, beija-flores, cágados, cobras, lagartos e preás. Há 25 ameaçadas de extinção, como a anta, a onça-parda, a lontra, o jacaré-de-papo-amarelo e a araponga. O Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP), o Instituto Butantã, o Centro de Controle de Zoonoses do município e o Instituto Adolfo Lutz trabalharam na identificação. A descoberta é ainda mais espantosa quando se considera que a média paulistana de área verde é de 4 metros quadrados para cada um de seus mais de 11 milhões de moradores, enquanto a Organização Mundial da Saúde recomenda um mínimo de 12 metros quadrados por habitante. Pouco distante da megalópole, há mais. Embora a biodiversidade marinha paulista seja relativamente melhor conhecida do que a de outros locais do litoral brasileiro, foram descobertas recentemente dezenas de novas espécies de invertebrados, crustáceos e moluscos. 

