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Edição 24
Outubro/2005

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Inteligência solidária
O Centro de Referência em Informação Ambiental (Cria) constrói e mantém uma infra-estrutura que compartilha, on-line, dados sobre o mosaico da biodiversidade brasileira. Os frutos do conhecimento de milhares de pesquisadores estão ao alcance de um clique para quem quiser colaborar com a preservação da vida no planeta

Por Eliana Simonetti, de São Paulo

Jacek/kino.com.br

Onde quer que você esteja, olhe em volta com atenção. Verá, certamente, pessoas de origens diferentes. Plantas com as mais variadas características. Insetos, animais, um mosaico de diversidade. Agora amplie o que verificou, em seu pequeno campo de visão, para os mais de oito mil quilômetros quadrados do território brasileiro, nos hemisférios sul e norte, com mais de 55 mil quilômetros de águas internas, e um litoral que excede os sete mil quilômetros. Nesse espaço, inúmeros tipos de minerais e rochas; montanhas, planaltos, planícies e depressões; clima tropical, equatorial, semiárido e subtropical; um sem-número de seres. O país detém aproximadamente 23% da biodiversidade do planeta. Só a Amazônia conta com 34 ecossistemas, cerca de um terço das florestas tropicais do mundo e um terço da biodiversidade global, bem como a maior bacia de água doce da Terra - e 63, 7% da região amazônica estão em terras brasileiras. Essa é uma riqueza que se perde quando o homem age descuidadamente sobre o ambiente natural, para modificá- lo conforme seus interesses. Existe um batalhão de cientistas e pesquisadores trabalhando na tentativa de reduzir o impacto da ganância e da postura predatória, de compreender e preservar vidas que fazem falta. Trata-se de uma questão de sobrevivência da humanidade, isto é, de vida ou morte de gente, animais e plantas.

A carta escrita por Pero Vaz de Caminha, a bordo dos navios portugueses desembarcados no Brasil em 1500, já continha descrição encantada da exuberância natural brasileira. Mas deixemo-la de lado. Há uma obra espetacular, de autoria do médico e botânico alemão Carl Friedrich Philipp Von Martius, vindo ao Brasil em 1817 na comitiva que acompanhou a princesa Leopoldina, depois esposa do imperador Pedro I. Esse homem, um curioso insaciável, percorreu dez mil quilômetros em três anos, descreveu 22. 767 espécies e desenhou 3. 811 plantas, flores, frutos e sementes do cerrado, da caatinga e das florestas Amazônica e Atlântica. Até pouco tempo atrás, quem quisesse consultar a obra, ainda considerada o mais completo levantamento da flora brasileira, tinha de visitar a Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, ou o Instituto Martius Staden, em São Paulo. A coleção Flora Brasiliensis, com seus 15 volumes de textos em latim e ilustrações, está agora ao alcance de qualquer curioso ou interessado. Foi digitalizada, e suas informações podem não apenas ser vistas, mas baixadas para o computador do usuário, em alta resolução. A digitalização das imagens foi feita pelo Jardim Botânico de Missouri, nos Estados Unidos. O sistema foi desenvolvido e é gerenciado pelo Centro de Referência em Informação Ambiental (Cria), Organização não Governamental (ONG) com sede em Campinas, no interior paulista.

Democracia Desde a década de 1960, os cientistas usam as redes de computadores como suporte à pesquisa. Mas, nas origens, elas eram utilizadas por grupos fechados de acadêmicos que competiam entre si. O fenômeno que vem se verificando nos últimos tempos é impressionante, por reverter uma cultura que parecia imutável. "É espantoso que 500 pesquisadores acadêmicos disponham-se a liberar os dados primários de suas investigações, e a compartilhar seus achados com outros", diz José Fernando Perez, conselheiro do Cria - referindo- se apenas a um dos projetos da organização, que envolve cientistas do estado de São Paulo. Mas não são somente os paulistas que andam se conectando, democratizando o acesso a seus descobrimentos e invenções. Isso está acontecendo em todo o país, e no mundo. Essa, na verdade, é uma decisão tomada internacionalmente, em 1992, quando foi adotada a Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), durante a Conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) de Nairóbi, aberta para assinatura no Rio de Janeiro, durante a Conferência sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, conhecida como Eco-92. É notável que o Brasil tenha sido um dos primeiros países a dispor de estrutura legal e institucional acerca do acesso e compartilhamento de benefícios relativos aos recursos genéticos e aos conhecimentos tradicionais. O Ministério das Relações Exteriores tem ressaltado a experiência em suas negociações na defesa dos direitos dos países e das comunidades indígenas e locais às suas heranças genéticas.

Pois bem. O Cria viabiliza esse processo de intercâmbio. Desenvolve ferramentas que disseminam o conhecimento científico e tecnológico e promovem a educação. Seus sites disponibilizam projetos e programas desenvolvidos nas áreas de biodiversidade e sistemas de informação. Mesmo quem não tem nenhum interesse em pesquisa científica pode passar horas viajando nos sítios do Cria. Alguns são mais técnicos, outros mais lúdicos. Para ensinar, e difundir conhecimentos que melhorem a situação do meio ambiente brasileiro, tudo é válido.

Informações surpreendentes podem ser encontradas nos sítios mantidos pelo Cria. Depois de 12 anos de investigações em 48 parques e áreas verdes da cidade de São Paulo, constatou-se que uma das maiores metrópoles do planeta ainda abriga 433 espécies de animais, entre elas preguiças, carpas, gaviões, rãs, gambás, tatus, furões, capivaras, veados, beija-flores, cágados, cobras, lagartos e preás. Há 25 ameaçadas de extinção, como a anta, a onça-parda, a lontra, o jacaré-de-papo-amarelo e a araponga. O Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP), o Instituto Butantã, o Centro de Controle de Zoonoses do município e o Instituto Adolfo Lutz trabalharam na identificação. A descoberta é ainda mais espantosa quando se considera que a média paulistana de área verde é de 4 metros quadrados para cada um de seus mais de 11 milhões de moradores, enquanto a Organização Mundial da Saúde recomenda um mínimo de 12 metros quadrados por habitante. Pouco distante da megalópole, há mais. Embora a biodiversidade marinha paulista seja relativamente melhor conhecida do que a de outros locais do litoral brasileiro, foram descobertas recentemente dezenas de novas espécies de invertebrados, crustáceos e moluscos.

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