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Edição 24
Outubro/2005

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Riquezas e misérias de uma paixão nacional
Com a derrota na Copa do Mundo, o Brasil, a "Pátria de Chuteiras", acorda do sonho dos maravilhosos estádios alemães para a realidade econômica do futebol nacional. Se a seleção canarinho costuma ter uma trajetória vitoriosa nas disputas campais pelo mundo, o esporte praticado nos clubes e nos gramados locais, tem um longo caminho para encontrar o sucesso na geração de riquezas e empregos

Por Anderson Gurgel

Antonio Gaudério/Folha Imagem

Depois de um mês assistindo aos jogos da Copa do Mundo rotineiramente, uma grande parte dos torcedores brasileiros passará por um estranhamento ao retornar à rotina do futebol no nosso país.A realidade bissexta do evento ocorrido até o dia 9 deste mês na Alemanha - onde os nossos melhores craques jogaram em campos moderníssimos e abarrotados de gente, sem que necessariamente houvesse brigas,desconforto nem atrasos - dará espaço ao nosso cotidiano futebolístico.Os estádios do nosso país,para os poucos que ousam ir até eles, não serão tão confortáveis e seguros; os jogos podem até ser bons, mas estranharemos a falta dos atletas que costumamos acompanhar.

A distinta realidade do futebol brasileiro jogado em campos locais nos faz ter claramente a impressão de que existem "dois mundos" no esporte que é a paixão nacional. Na prática, essa constatação - que até poderíamos chamar de "óbvio ululante", para homenagear o dramaturgo e jornalista Nelson Rodrigues - reforça ainda mais o conceito de "instituição nacional" que foi dado por alguns teóricos da área para essa prática desportiva criada há séculos no Oriente,organizada pelos ingleses e "canibalizada", reinventada,pelos que moram aqui.

Em resumo, como em outras poucas coisas, o Brasil tem no futebol um fator de identidade. Isso, para o bem e para o mal, revela muito sobre nosso país, pois ousaríamos dizer que, nesse quesito, sofremos de dupla personalidade.Quando nos voltamos para o impacto econômico do esporte, por exemplo,deparamos com a mesma "Belíndia"já há muito estudada.O conceito sociológico criado há vários anos para dizer que a realidade brasileira apresenta extremos entre uma ponta de pirâmide de riqueza à la Bélgica e uma base de miséria como à da Índia também se mostra na nossa maior paixão.

Na disputa pela equipe nacional mais cara, a seleção brasileira ficou em terceiro lugar. E la perde para a Ing laterra, primeira colocada, e para a Itália

Na Copa do Mundo, de forma geral, vivemos um pouco do nosso lado "Bélgica", pois tivemos em campo a presença de um time milionário, formado por alguns dos maiores jogadores em atividade.Um estudo feito por consultores da Federação Internacional de Futebol (Fifa) e publicado no site Globoesporte.com,pouco antes do mundial, avaliou a Seleção Brasileira em 235 milhões de euros.Um jogador como o Ronaldinho Gaúcho, sozinho, antes da competição,estava avaliado em 50 milhões de euros. Esses números impressionam, sem dúvida.Mas já traz uma informação bastante reveladora: a seleção canarinho não era a mais cara do mundo.Começam a surgir,em meio à riqueza,nossos problemas estruturais.Na disputa pela equipe nacional mais rica, deu a Inglaterra em primeiro e a Itália em segundo,com 246,3 milhões e 237,5 milhões de euros, respectivamente.

Um dos mais interessantes estudos feitos para entender a importância do futebol em nosso país foi o Atlas do Esporte no Brasil, fruto de imenso empenho de uma grande equipe de pesquisadores, capitaneada pelo professor Lamartine DaCosta.Nesse estudo, é revelado que o esporte mais amado pelos brasileiros movimenta atualmente cifras em torno de 250 bilhões de dólares anuais no mundo todo.Sendo o nosso futebol um dos melhores do planeta, seria de esperar que estivéssemos bem colocados na distribuição dessa riqueza.Mas a verdade é que,desse total,a fatia do bolo que representa a prática futebolística no Brasil não chega a 2%.Em números mais precisos, aproximadamente 3,2 bilhões de dólares.

É muito pouco de concretização financeira, se comparado ao que realizamos com a bola nos pés. Enquanto batemos um "bolão"nos campos de futebol, ainda não jogamos "uma bola redondinha"no jogo econômico desse esporte.Antes de tentarmos entender melhor algumas raízes desse problema, é importante que se diga que o que representa hoje esse esporte na economia nacional está longe de ser desprezível, mas também não faz jus à tradição que temos na sua prática.

Estigma

O futebol já levou grande parte da culpa pela alienação do brasileiro.Por muito tempo,esse esporte foi praticamente ignorado academicamente,colocado como um tema secundário ou menos importante. O motivo desse desdém era o uso político-ideológico dado a essa paixão do povo. Não sem razão: historicamente, essa prática é inegável."Desde Getúlio Vargas, os governantes usam o futebol como peça política",relembra o pesquisador Ary Rocco Júnior, que é também doutorando em futebol e novas tecnologias pela Pontifícia Universidade de São Paulo (PUC-SP) e vice-coordenador da Faculdade de Jornalismo da Universidade de Santo Amaro (Unisa), em São Paulo. Para Vargas, lugar de política era no campo de futebol, e ele não mediu esforços para isso, anunciando medidas de interesse trabalhista e fazendo desfiles de 1º de maio justamente nesse local. A ditadura militar soube trabalhar esse modelo de nacionalismo criado por Vargas e, na tabelinha com a seleção, criou a geração dos "90 milhões em ação". Não teve jeito: conquistamos o tricampeonato, em 1970; a Taça Jules Rimet era definitivamente nossa, até ter sido roubada da sede da CBF, no Rio, no começo da década de 1980.

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