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Rubens Ricupero
A américa está partida
As tentativas as de ampliação do Mercosul e de criação de uma área sul-americana não deram resul tados e parecem estar em declínio e dissolução
Por Andréa Wolffenbüttel
Homem de mil instrumentos O olhar, de um azul transparente, é tranqüilo. A fala é mansa - em português, francês, inglês, espanhol, italiano ou alemão. Quem passa por ele numa das ruas do bairro de Higienópolis, na capital paulista, onde mora, não diz que Rubens Ricupero, casado, pai de quatro filhos, carrega a bagagem que, de fato, traz nos ombros, na mente e no coração. Em 69 anos de vida, ele fez, e continua a fazer, de tudo. Não é tarefa fácil resumir, em poucas linhas, o currículo do atual diretor da faculdade de Economia da Fundação Armando Álvares Penteado. Aluno dos cursos de Letras Neolatinas e Economia - que, inquieto, não concluiu -, Ricupero se formou em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Preferiu escapar dos tribunais e se voltou para a carreira de diplomata. Em 1961, quando Juscelino Kubitschek passava o bastão da Presidência da República para Jânio Quadros, estreou como funcionário do Itamaraty. Ali foi, entre outras coisas, chefe da divisão de Difusão Cultural e do Departamento das Américas. Escolhido assessor internacional pelo presidente eleito Tancredo Neves, serviu a seu sucessor, José Sarney. Depois, ocupou as pastas do Meio Ambiente e Assuntos Amazônicos e da Fazenda (quando implantou o Plano Real). Sim, também presidiu o Comitê de Finanças na Conferência de Meio Ambiente e Desenvolvimento das Nações Unidas, em 1992, no Rio de Janeiro - a Eco-92. No exterior, comandou embaixadas brasileiras nos Estados Unidos e na Itália, atuou no Acordo Geral de Tarifas e Comércio (Gatt) e foi secretário- geral da Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad). Em sala de aula, ensinou Teoria de Relações Internacionais na Universidade de Brasília e lecionou História das Relações Internacionais do Brasil no Instituto Rio Branco, além de ministrar cursos no Peru, Suriname e Gabão. Nesse universo, mais acadêmico, escreveu vários livros sobre política externa, economia e história. Atualmente, além da faculdade de Economia, dirige o Instituto Fernand Braudel, ONG que realiza pesquisas e debates acerca de problemas brasileiros e latino-americanos. Enfim, dizer que Ricupero é um homem de mil instrumentos talvez seja subestimá-lo. Desafios - Como o senhor vê o momento político que a América Latina atravessa? Desafios - Como é essa diversificação? Desafios - O senhor acha que essa fragmentação é conseqüência da história ou da falta de liderança e iniciativa dos governos? Desafios - O senhor fala de um modo que parece ser azar o Brasil estar distante do conflito islâmico, mas é sorte, não é? Desafios - A construção do gasoduto que ligaria as jazidas venezuelanas à Argentina, passando pelo Brasil, não seria um projeto de integração continental?
O advogado Rubens Ricupero tem vasta experiência em muitas áreas.Perdeu as contas do número de países que visitou e de autoridades com as quais conversou.Professor, embaixador, ex-ministro da Fazenda, ex-secretário do braço da Organização das Nações Unidas que cuida de comércio e desenvolvimento, atual diretor da faculdade de Economia da Fundação Armando Álvares Penteado,de São Paulo, tem cacife para falar sobre política e economia, interna e externa.Nesta entrevista concedida a Desafios,o tema central é a América Latina,que no seu entender passa por um período de desagregação.O cenário observado por Ricupero não é nada bom.Mas ele tem esperança de melhora.
Ricupero - Vejo um panorama de fragmentação.
Não existe uma proposta
agregadora de caráter construtivo nem
temas unificadores, como havia na época
da Guerra Fria,quando a guerrilha
eclodiu na América Central e se
falava nos perigos da influência cubana.
Eram questões de caráter conflituoso,
mas que causavam, senão unanimidade,
pelo menos o surgimento
de grandes maiorias. Atualmente, a
multiplicação de encontros de cúpula
não produz mais que pura retórica.Na
prática, a tendência é a diferenciação.
Os países do norte, México, América
Central, Caribe, estão cada vez mais
incorporados ao espaço econômico
dos Estados Unidos.Essa é uma orientação
comercial histórica, hoje acentuada
porque a integração se dá também
pela imigração. Os grandes contingentes
latinos nos Estados Unidos
são originários do México,do Caribe e
da América Central. Enquanto isso, na
América do Sul há diversificação.
Ricupero - Países como Colômbia,Peru
e Equador tendem a se integrar ao
mercado norte-americano. Os do sul
não têm essa interação, mas não foram
capazes de construir alternativa eficaz.
As tentativas de ampliação do Mercosul
e de criação de uma área sul-americana
não deram resultados e parecem
estar em declínio e dissolução.Para
piorar, dois grandes temas dividem
a América Latina. Um é a postura do
presidente venezuelano,Hugo Chávez.
Outro é o Acordo de Livre Comércio
das Américas (Alca), ou projetos semelhantes.
Ricupero - Creio que metade-metade.
Nenhum governo, inclusive o brasileiro,
apresentou uma proposta convincente,
construtiva, de desenvolvimento
de todo o continente, por meio não só do comércio mas também de financiamento.
O Mercosul é semelhante à
Alca, com o Brasil como o país forte
em lugar dos Estados Unidos.Não oferece
garantias de investimentos para
que os mais fracos diversifiquem suas
exportações.Mas há também raízes na
evolução histórica. No período da
Guerra Fria, a América Latina estava
mais presente na agenda diplomática
mundial do que hoje. Os grandes temas
na política atualmente são basicamente
quatro: o terrorismo internacional,
o radicalismo islâmico, a proliferação
de armas de destruição em massa
e o conflito entre Israel e palestinos.
São tópicos em que a América Latina -
talvez o único continente sem ligação
com o islamismo - é inteiramente irrelevante.
Ricupero - É sorte, mas nos deixa fora
da agenda. Não somos atingidos pela
violência, mas também não despertamos
atenção nem interesse.A preocupação
com o desenvolvimento concentra-
se nas áreas mais miseráveis do
mundo, em 50 países, dos quais 34
estão na África e um único na América,
o Haiti.Mesmo Bolívia e Honduras
já não se enquadram nessa categoria,
a dos mais miseráveis. Assim, a
América Latina se encontra um pouco
órfã da política mundial.
Ricupero - Sim, para a América do Sul
especificamente. Essa é uma idéia
antiga de Eliezer Batista (um dos primeiros
presidentes da Companhia Vale
do Rio Doce, hoje consultor especial
da empresa, ex-ministro de Minas
e Energia do governo João Goulart e
membro do Conselho Coordenador
das Ações Federais no governo Fernando
Henrique Cardoso) - a integração
do miolo do continente, com
redes de estradas, de energia, de telecomunicações. Com base na importação
de petróleo, gás, carvão e energia
elétrica, seria possível criar o que
os europeus fizeram com a Comunidade
do Carvão e do Aço. O projeto é
válido, ainda hoje, em termos conceituais.
Infelizmente,não é factível devido
à grande insegurança pela radicalização
da postura política do presidente
venezuelano, Hugo Chávez. Em março
deste ano, Chávez tentou impor
mudanças a duas empresas petrolíferas
estrangeiras, a francesa Total e a
italiana Eni, e ameaçou expulsar e expropriar as companhias. O caso da
Bolívia foi posterior e criou, obviamente,
uma grande insegurança,mesmo
na Petrobras, que investiu na Bolívia
no contexto de acordos pedidos
pelos próprios bolivianos,de Estado a
Estado.Na realidade, a Petrobras nunca
teve grande interesse pelo gás boliviano
por uma razão simples: ele substituiria,
em São Paulo, o óleo combustível
que a empresa produzia e produz.
Foi à Bolívia porque o governo quis
assim. Então, no momento em que a
Petrobras está representando o Estado brasileiro e é tratada dessa maneira, fica
eliminada qualquer possibilidade de
parceria.Porque confiança é como diz
aquela cantiga infantil: "O anel que tu
me destes era vidro e se quebrou".Quebrou,
não tem mais como consertar - e
quem disse isso foi o ministro Celso
Amorim, em depoimento ao Senado.

