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Edição 23
Setembro/2005

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Um Rolls-Royce vegetal
Instituto de Química da Universidade de São Paulo, em São Carlos, desenvolve próteses de ossos, à base óleo de mamona, que não são rejeitadas pelo organismo

Por Eliana Simonetti, de São Carlos, SP


Luciana De Francesco
Experimento: o óleo de mamona passa por uma centrífuga que quebra suas moléculas, depois adicionadas a outros ingredientes para produzir polímeros de diferentes qualidades e aplicações
Coração O óleo da mamona é usado pelos homens há milênios. Entrava na fórmula de mumificação, no Egito antigo. Era combustível das candeias dos escravos na Índia. Servia de componente em medicamentos que aumentavam a contração uterina de parturientes, está presente em cosméticos como batons e em pomadas como a vaselina. Agora é usado na produção de adesivos, bactericidas, fungicidas e sais minerais que complementam a alimentação animal. Descobriu-se também que ele é vasodilatador periférico, que retira as células mortas das feridas e estimula o crescimento de células novas - é debridante. E a relação de utilidades não pára por aqui. Com o mesmo polímero, o Instituto do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas da USP constrói um coração artificial extracorpóreo. É eficiente, prático, portátil e melhora muito a qualidade de vida do paciente no tempo que passa dentro do hospital, à espera de um transplante. O objeto, que parece um pedaço de uma boneca antiga, daquelas de borracha, tem uma saída para a veia cava e outra para a aorta. É ligado a um diafragma, que bombeia o sangue, e a um computador portátil, que monitora seu funcionamento.

As escolas da USP de São Carlos trabalham de forma interdisciplinar. São Carlos é, há anos, um ponto de referência tecnológica no país. É um centro universitário com uma característica interessante: as pessoas que se formam ali não voltam às suas regiões de origem. Abrem empresas no município, prestam serviços e fornecem produtos que são vendidos no Brasil e exportados para o mundo inteiro. Gilberto Orivaldo Chierice foi um dos pioneiros na prática da pesquisa aplicada "Cumprimos nosso papel como funcionários de uma instituição pública ao disponibilizar tecnologias à sociedade", diz ele.

 

Saiba mais sobre a mamona

Arbusto com diversas colorações de caule, folhas e cachos, a mamona, que provavelmente surgiu na Etiópia, na África, pertence a uma família de vegetais que engloba um grande número de plantas tropicais - entre elas a mandioca, a seringueira e o pinhão. O extrato da semente é o conhecido óleo de rícino, do qual quem foi criança antes dos anos 1960 deve bem se lembrar. Era o vermífugo mais usado naqueles tempos. De sabor insuportável. De qualquer maneira, considerando que hoje suas utilidades são menos sofridas, é bom registrar que 1 hectare de mamoneiras pode gerar até 750 quilos de óleo.

Mais. Os restos da mamoneira devolvem ao solo 20 toneladas de biomassa. As folhas servem de alimento para o bicho-da-seda. O caule pode ser usado como celulose para a produção de papel. A mamona está presente em muitos produtos sem que se perceba. Compõe fios e tubos de carros, aviões, linhas telefônicas; ceras, lubrificantes, plásticos e tintas; tecidos, detergentes, materiais elétricos e filtros industriais, entre outros. A torta de mamona, cujo preço está em alta, é excelente adubo orgânico, com alta dose de nitrogênio e propriedades nematóides.

O Brasil já foi o maior produtor mundial de mamona (573 mil toneladas em 1974) e o maior exportador de seu óleo. Atualmente, é o terceiro no ranking (perde para Índia e China), mas tem potencial para aumentar rapidamente sua participação no mercado, já que dispõe de tecnologia e área para plantio. Uma boa notícia do ponto de vista econômico e também ambiental. Pelas contas da Embrapa, 1 hectare de lavoura de mamona absorve, anualmente, cerca de 8 toneladas de gás carbônico, devolvendo à atmosfera quase 6 toneladas de oxigênio puro - uma arma e tanto contra o efeito estufa.

Seu cultivo vem crescendo em terras brasileiras desde que o governo decidiu estimular a produção de biodiesel. A planta se dá bem na região Nordeste, área em que pequenas famílias de agricultores encontram dificuldades em produzir bens comercializáveis que lhes garantam sustento. A Embrapa, a Petrobras e o governo do estado de Sergipe promoverão, em agosto, o 2. º Congresso Brasileiro de Mamona. A primeira edição desse evento, em 2004, atraiu mais de 600 participantes e contou com a apresentação de 140 trabalhos técnico-científicos. Dessa vez o tema central será "O cenário atual do desenvolvimento da ricinocultura e perspectivas de novos produtos". A expectativa é que os debates não se restrinjam ao biodiesel.

 

 

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