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Edição 23
Setembro/2005

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Um Rolls-Royce vegetal
Instituto de Química da Universidade de São Paulo, em São Carlos, desenvolve próteses de ossos, à base óleo de mamona, que não são rejeitadas pelo organismo

Por Eliana Simonetti, de São Carlos, SP

Pesquisadores descobriram um modo de triturar pneus usados, misturar a massa com polímero de mamona e produzir pneus novinhos em folha

Fotos Luciana De Francesco
De cima para baixo: próteses para implante de fêmur e de vértebras da coluna, e o coração artificial, todos produzidos com polímeros provenientes do óleo de mamona

Para compreender esse Rolls-Royce: 90% do óleo de mamona é composto de moléculas especiais, raras na natureza, com um nome complicadinho - triglicerídeo de ácido ricinoléico. Elas têm a característica de, depois de quebradas, poderem ser remontadas nos mais diversos formatos, gerando materiais com qualidades absolutamente diferentes. São extremamente versáteis. O óleo chega aos laboratórios da USP de São Carlos em galões. É despejado num reator - centrífuga que, ao girar, quebra suas moléculas. Então os pesquisadores adicionam outras substâncias, como água ou álcool, ao material, para provocar reações. Se o resultado é o que se espera, muito bem. Caso contrário, o óleo misturado passa para outro recipiente, que separa o que foi adicionado, para que o experimento possa ser feito novamente, com as mesmas moléculas de mamona e outro aditivo qualquer.

Tudo isso acontece num ambiente que lembra muito pouco a imagem que se tem de um laboratório. As centrífugas parecem mais com baldes transparentes do que com equipamentos de alta tecnologia. Os balcões poderiam estar em oficinas mecânicas sem causar espanto algum. Os galões de óleo são como aqueles usados nos postos de gasolina. Há pó, vidrinhos e vidrões sem rótulos e tubos por todos os lados. Ali trabalham três doutores e dois técnicos, além de dois professores de pós-graduação e alunos. Quem observa o cenário jamais pensa que dali sai algo de útil. Mas sai. E como. E o conhecimento acumulado é compartilhado com outros centros de pesquisa.

A fisioterapeuta Fábia Alvim Leite, formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora, em Minas Gerais, trabalha em sua tese de mestrado num desses laboratórios. Desenvolveu uma espécie de polímero de óleo de mamona que toma a forma de uma placa fina e maleável, quando aquecida, e extremamente rígida e resistente depois de resfriada. Agora busca acertar o ponto da receita para que, com essa placa, possa fazer um substituto para o gesso, semelhante aos importados, que atualmente permitem às pessoas retirar a prótese para tomar banho - por um custo muito, muitíssimo inferior. Parece uma criança brincando com massinha. Ledo engano. "O polímero de mamona é mais barato do que o polietileno e tem a vantagem de ser um material inóspito para o crescimento de bactérias ou fungos", diz

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