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Um Rolls-Royce vegetal
Instituto de Química da Universidade de São Paulo, em São Carlos, desenvolve próteses de ossos, à base óleo de mamona, que não são rejeitadas pelo organismo
Por Eliana Simonetti, de São Carlos, SP
Super-Homem Mais de 2 mil
cirurgias já foram feitas com o material desenvolvido em São Carlos. A
maioria delas na Argentina, onde o processo foi aprovado há algum tempo. Outras
mais no Chile. Algumas já nos Estados Unidos, onde o Food and Drug Administration
(FDA) - organismo encarregado de regulamentar e monitorar os produtos
nas áreas de alimentação e medicina - aprovou a realização de testes em
2005 e autorizou a importação e o uso nos hospitais a partir de junho
deste ano. O polímero, produzido apenas no Brasil e numa única empresa, a
Poliquil, localizada em Araraquara, no interior paulista, foi registrado
como Composto Ósseo de Ricinus (COR), já que o nome científico da mamona
é Ricinus communis. Nos Estados Unidos, é denominado RG Kryptonite, numa
alusão ao planeta Krypton, onde nasceu o Super-Homem, o poderoso herói
das histórias em quadrinhos, idealizado, em 1938, por Joe Shuster e Jerry
Siegel. Até o momento, só é cedido para experiências. Não pode ser vendido, pois,
embora a Poliquil tenha o certificado de Boas Práticas de Fabricação,
aguarda licença da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para
a comercialização - o que normalmente demora três anos. Outro produto proveniente do óleo de mamona, fabricado na Poliquil, é o
fio para rejuvenescimento. O leitor já deve ter ouvido falar dos fios de
ouro, que implantados sob a pele da face repuxam o tecido e dão aparência
de juventude. Pois é, mas esses fios já caíram em desuso, pois provocavam
inflamação e desconforto. A alternativa para os que querem ter a pele
lisinha, sem se submeter ao bisturi, é o botox, aplicado com injeção para
o preenchimento de rugas. O problema é que o botox estica a pele, mas
paralisa a musculatura. Dessa forma, a pessoa perde expressão. O que se
desenvolveu, em São Carlos, é um fio composto de moléculas de óleo de
mamona. Ele é serrilhado, ou seja, tem dentes, ou franjas, para ficar firme
e não escorregar, e é aplicado sob a pele com o uso de microcânulas. Requer
apenas anestesia local e traciona a pele imediatamente. O que acontece, então? Da mesma forma como no caso do osso, o organismo
"pensa"que aquele intruso é gordura e o envolve de colágeno, proteína que
dá sustentação à pele. O procedimento, rejuvenescedor e sem contra-indicações, está
em uso no Brasil desde 2004. "Normalmente, os efeitos duram cerca de seis
anos. Mas tudo depende do estilo de vida da pessoa. Naqueles que se expõem
muito ao sol, por exemplo, a degradação é mais rápida", diz Athanase Christos
Dontos, médico paulista especializado em medicina estética, responsável
pelo desenvolvimento do fio. Dontos agora pesquisa novas maneiras de aproveitar
o polímero do óleo de mamona em seus pacientes. Sua intenção é fazer tendões, meniscos
e artérias com o material. "Há uma enorme gama de aplicações para o polímero
de mamona que podem beneficiar a medicina e outros setores", diz. "Estamos
apenas no início das descobertas. "
Rolls-Royce Até aqui pudemos perceber que o óleo retirado daquelas bolinhas de espinhos macios, que são como pragas em terrenos baldios, têm utilidade muito mais nobre do que servir de munição para estilingue e até de combustível para veículos (para saber mais leia quadro Saiba mais sobre a mamona). Sim, porque, como sabemos, a mamona vem sendo utilizada na produção de biodiesel para a substituição de combustíveis à base de petróleo. É menos poluente do que a gasolina ou o diesel e ainda abre mercado de trabalho para pequenos agricultores familiares, especialmente no Nordeste. Já existem algumas usinas em funcionamento e outras em construção no Brasil. Porém, o professor Chierice lembra que outros vegetais menos nobres podem gerar biodiesel. Usar mamona para essa finalidade é um desperdício. "É como arar a terra com um Rolls-Royce", diz. Na equipe de pós-graduandos de Chierice há fisioterapeutas, dentistas, engenheiros, médicos, veterinários e especialistas de outras áreas. Somam 20 no momento. Em 15 anos esse núcleo gerou mais de 100 teses. Um exemplo: a turma de engenharia descobriu um modo de triturar pneus usados (um lixo que causa dor de cabeça em todos os países, por não ser reaproveitável), misturar a massa com polímero de mamona e produzir pneus novinhos em folha. Uma fábrica desses pneus deve ser implantada, em breve, em Rio Preto, outra cidade do interior paulista.
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