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Edição 23
Setembro/2005

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Um Rolls-Royce vegetal
Instituto de Química da Universidade de São Paulo, em São Carlos, desenvolve próteses de ossos, à base óleo de mamona, que não são rejeitadas pelo organismo

Por Eliana Simonetti, de São Carlos, SP

 

A beleza da química

A sala, sem número na porta, é informal. Armários envidraçados permitem ver crânios, pedaços de ossos, parafusos e um sem-número de parafernálias - feitas de plásticos produzidos com óleo de mamona transformado quimicamente. Seu ocupante, o professor Gilberto Orivaldo Chierice, de 63 anos de idade, prefere chamar um técnico para buscar informações no computador a tocar no mouse. Entre os dedos, um cigarro de palha apagado é presença permanente. Sua fala é fácil, num cantado que não engana ninguém: é italiano, de Livorno. Melhor dizendo, sua família veio de lá. Ele nasceu no interior paulista, na pequena cidade de Rincão, caçula de oito irmãos.

Quando criança queria ser médico. Jovem, resolveu fazer Engenharia. Foi aprovado em duas escolas. Mas como também prestou vestibular para Química, em Araraquara, e passou, foi para lá que se mudou. Ele e a família. "Morava em casa e estudava numa universidade pública muito boa, com 46 horas de aula por semana. Hoje digo que não trabalho: sou pago para praticar meu hobby, que é ensinar e pesquisar a química", diz. Suas explicações são claras. Coisa de quem entende muito bem do que fala. Ao completar 30 anos como professor na Universidade de São Paulo, Chierice, especializado em química analítica, orientador de pós-graduandos, leciona também a alunos do primeiro ano do curso da faculdade de Química. "Faço questão de mostrar a esses moços a beleza da química. A maioria deles chega à escola sem saber o porquê ou o que fará da vida no futuro. "

Entre as aulas e a pesquisa não lhe sobra muito tempo. Mas ele aproveita tudo o que pode. Viaja com a família pelo país afora, conhecendo gente, aventurando-se em estradas pouco transitadas, experimentando pratos. Aliás, garante ser bom cozinheiro. "Faço uma codorna com molho de jabuticaba que é imbatível", diz. "Só não limpo a cozinha, como também não limpo o laboratório e não penteio o cabelo. "

Aí começa a novela da mamona. Na época, que a Telebrás, antiga estatal de telefonia, estava enfrentando problemas com seus cabos subterrâneos, que quando umedeciam provocavam ruídos nas ligações ou paravam de funcionar. A empresa queria uma espécie de rolha que isolasse os cabos. Havia dessas rolhas no mercado internacional, feitas com um tipo de polímero, mas como no Brasil a variação térmica é diferente da registrada no hemisfério norte, de onde vinham as rolhas, e oscila muito de região para região, elas estragavam rapidamente. A encomenda de uma solução para o problema chegou a Chierice em 1984. Os laboratórios da USP de São Carlos desenvolveram uma resina de bloqueio feita de polímero de mamona. O contrato, de seis meses, foi prorrogado por cinco anos. A tecnologia foi patenteada pela Telebrás. E o pagamento pelo serviço equipou laboratórios e biblioteca da faculdade.

A partir da pesquisa, foi possível desenvolver outras tecnologias. No início dos anos 90, a universidade foi procurada pelo Hospital Amaral de Carvalho, que pertencia ao Instituto Nacional de Previdência Social (INPS), então responsável pela prestação de assistência médica a todos os trabalhadores formais do país. Esse hospital fica na cidade de Jaú e é especializado no tratamento de câncer. Carecia de tudo. "Àquela altura, já tínhamos feito uma série de testes em animais que mostravam ser possível a produção de próteses com polímeros provenientes do óleo de mamona. A primeira experiência com seres humanos foi realizada no Amaral de Carvalho, em 1992, com um homem que havia sofrido de câncer de próstata. Fizemos uma prótese testicular. " Hoje, o hospital contabiliza mais de 50 implantes de próteses desse tipo.

 

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