| A beleza da química
A sala, sem número na porta, é informal. Armários envidraçados
permitem ver crânios, pedaços de ossos, parafusos e um sem-número
de parafernálias - feitas de plásticos produzidos com óleo
de mamona transformado quimicamente. Seu ocupante, o professor
Gilberto Orivaldo Chierice, de 63 anos de idade, prefere chamar
um técnico para buscar informações no computador a tocar no
mouse. Entre os dedos, um cigarro de palha apagado é presença
permanente. Sua fala é fácil, num cantado que não engana ninguém:
é italiano, de Livorno. Melhor dizendo, sua família veio de
lá. Ele nasceu no interior paulista, na pequena cidade de Rincão,
caçula de oito irmãos.
Quando criança queria ser médico. Jovem, resolveu fazer Engenharia. Foi
aprovado em duas escolas. Mas como também prestou vestibular
para Química, em Araraquara, e passou, foi para lá que se
mudou. Ele e a família. "Morava em casa e estudava numa universidade
pública muito boa, com 46 horas de aula por semana. Hoje digo
que não trabalho: sou pago para praticar meu hobby, que é
ensinar e pesquisar a química", diz. Suas explicações são claras. Coisa
de quem entende muito bem do que fala. Ao completar 30 anos
como professor na Universidade de São Paulo, Chierice, especializado
em química analítica, orientador de pós-graduandos, leciona
também a alunos do primeiro ano do curso da faculdade de Química. "Faço
questão de mostrar a esses moços a beleza da química. A maioria
deles chega à escola sem saber o porquê ou o que fará da vida
no futuro. "
Entre as aulas e a pesquisa não lhe sobra muito tempo. Mas
ele aproveita tudo o que pode. Viaja com a família pelo país
afora, conhecendo gente, aventurando-se em estradas pouco
transitadas, experimentando pratos. Aliás, garante ser bom cozinheiro. "Faço
uma codorna com molho de jabuticaba que é imbatível", diz.
"Só não limpo a cozinha, como também não limpo o laboratório
e não penteio o cabelo. "
Aí começa a novela da mamona. Na época, que a Telebrás, antiga
estatal de telefonia, estava enfrentando problemas com seus
cabos subterrâneos, que quando umedeciam provocavam ruídos
nas ligações ou paravam de funcionar. A empresa queria uma
espécie de rolha que isolasse os cabos. Havia dessas rolhas
no mercado internacional, feitas com um tipo de polímero,
mas como no Brasil a variação térmica é diferente da registrada
no hemisfério norte, de onde vinham as rolhas, e oscila muito
de região para região, elas estragavam rapidamente. A encomenda
de uma solução para o problema chegou a Chierice em 1984.
Os laboratórios da USP de São Carlos desenvolveram uma resina
de bloqueio feita de polímero de mamona. O contrato, de seis
meses, foi prorrogado por cinco anos. A tecnologia foi patenteada
pela Telebrás. E o pagamento pelo serviço equipou laboratórios
e biblioteca da faculdade.
A partir da pesquisa, foi possível desenvolver outras tecnologias.
No início dos anos 90, a universidade foi procurada pelo Hospital
Amaral de Carvalho, que pertencia ao Instituto Nacional de
Previdência Social (INPS), então responsável pela prestação
de assistência médica a todos os trabalhadores formais do
país. Esse hospital fica na cidade de Jaú e é especializado
no tratamento de câncer. Carecia de tudo. "Àquela altura, já
tínhamos feito uma série de testes em animais que mostravam
ser possível a produção de próteses com polímeros provenientes
do óleo de mamona. A primeira experiência com seres humanos
foi realizada no Amaral de Carvalho, em 1992, com um homem
que havia sofrido de câncer de próstata. Fizemos uma prótese
testicular. " Hoje, o hospital contabiliza mais de 50 implantes
de próteses desse tipo. |