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Edição 23
Setembro/2005

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Um Rolls-Royce vegetal
Instituto de Química da Universidade de São Paulo, em São Carlos, desenvolve próteses de ossos, à base óleo de mamona, que não são rejeitadas pelo organismo

Por Eliana Simonetti, de São Carlos, SP

O Brasil já foi campeão em produção e exportação de óleo de mamona. Hoje, é o terceiro no ranking mundial. Um hectare de mamoneiras gera até 750 quilos de óleo

Luciana De Francesco

Cacho de mamona: o óleo extraído das sementes é um produto químico de moléculas muito versáteis

Imagine a seguinte hipótese, que, convenhamos, não é muito agradável, mas é útil para que se compreenda a razão desta reportagem aparecer em Desafios como um exemplo de Melhores Práticas. Numa queda, você quebra uma perna, numa fratura exposta, e perde uma lasca de osso. O que faz o ortopedista que comanda a cirurgia para recompor sua perna? Normalmente, coloca um pino metálico ou plástico para unir os dois pedaços rompidos e, se a lasca de osso perdido for muito grande, pode até implantar uma prótese, em geral retirada de outra parte de seu próprio organismo. A técnica, que é um avanço enorme diante do que havia disponível poucos anos atrás, tem contra-indicativos, alguns riscos e provoca certos incômodos. Pode haver rejeição ao material estranho e conseqüente infecção. Passado algum tempo, você terá de voltar ao médico para nova cirurgia de retirada do pino. E, depois de tudo isso, haja sessões de fisioterapia até que sua perna volte a ser mais ou menos o que era antes de o tormento começar.

Fotos Luciana De Francesco
O professor Gilberto Orivaldo Chierice e um dos laboratórios do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP) em São Carlos: descoberta aprovada pelo FDA para venda nos Estados Unidos

A ortopedia é um dos ramos da medicina que apresentaram maior progresso nos últimos anos. Continua em plena aceleração. No Brasil, registrou-se uma descoberta que vem sendo considerada uma revolução nessa área. Gilberto Orivaldo Chierice, professor do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP) em São Carlos, desenvolveu um polímero que pode adquirir a porosidade do osso, além de pinos feitos de outra espécie de polímero - tudo à base de óleo de mamona. O sensacional dessa história é que o organismo não reconhece o implante como corpo estranho. A cadeia de ácidos graxos da mamona tem estrutura molecular semelhante à que existe nas gorduras do corpo humano. Por isso, não há rejeição. Ao contrário, o que ocorre é um fenômeno de absorção. O sangue infiltra-se nos poros da peça implantada e a substitui por células ósseas num processo que leva cerca de dez anos. O paciente sai do hospital pronto para retomar a vida normal e sem ter de marcar retorno ao médico. Com o tempo, a prótese é simplesmente absorvida. Desaparece. Vira osso.

Implantes assim já foram testados em pessoas que tiveram desgastes em vértebras da coluna, em gente que perdeu parte do crânio ou do maxilar e em crianças que nasceram com má-formação. Alguns deles são esculpidos na sala de cirurgia, conforme a necessidade constatada no momento (caso das fraturas expostas ou de substituição da cabeça do fêmur, cujo tamanho varia de pessoa para pessoa). Outros são pré-formatados. Esses requerem a utilização de equipamento tecnológico adicional. Quando a perda óssea é grande, os médicos radiografam e fazem tomografia computadorizada da parte lesada e do que restou na região. As informações alimentam um programa de computador que produz um projeto de molde, depois materializado em silicone, por exemplo, e preenchido com o polímero de mamona. Quando a peça endurece, tem exatamente a forma que o médico precisa para fazer o encaixe, preencher o espaço vazio e deixar o paciente sem qualquer marca.

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