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Edição 23
Setembro/2005

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Glauco Arbix Pensando o Brasil
Depois de mais de três anos na presidência do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o professor de sociologia Glauco Arbix volta à carreira acadêmica na Universidade de São Paulo.Nesta entrevista, ele conta como enxergou o governo, o Estado e o país a partir da ampla janela de seu gabinete, no 15º andar de um prédio com vista para a Esplanada dos Ministérios.

Por Andréa Wolffenbüttel , de São Paulo

Pensar no longo e médio prazo é uma prática custosa. Implica não só nos gastos materiais, mas investimentos enormes na preparação de pessoas

Marco Antonio SáDesafios - Depois de mais de três anos à frente do Ipea, basicamente um órgão de planejamento de longo prazo, o senhor concorda com o entendimento comum de que o governo não tem cultura de planejamento?
Arbix - Não é só o governo que não tem essa cultura. A sociedade não tem. Eu não sei se teve no passado, mas, se teve, desaprendeu. Pensar no longo e médio prazo é uma prática custosa. Implica não só gastos materiais, mas investimentos enormes na preparação de pessoas. Não é uma atividade corriqueira e trivial, como muitos pensam. Não é uma atividade de que o Ipea, e muito menos o Estado brasileiro, possa prescindir. As grandes empresas aprenderam, muitas vezes com os Estados, a pensar no longo e médio prazo, a desenvolver atividades para reduzir incertezas e riscos. Os Estados precisam desse tipo de atividade, especialmente o nosso. O problema é que, por temor da “mão torta” do Estado, dos erros, dos abusos, dos excessos, da ação impensada e eventualmente incompetente, desenvolveu-se aqui uma resistência que impede muitas pessoas de ver com bons olhos a ação do Estado. Mas ela é necessária à sociedade brasileira, e o Ipea tem capacidade para ajudar a repensar como o Estado deve funcionar e trabalhar. Não há nenhum erro que justifique o abandono do planejamento no longo e médio prazo, como nós exercitamos há 20 ou 30 anos.

Desafios - E o governo tem essa consciência?
Arbix
- Certamente alguns setores têm. Na área de ciência e tecnologia, por exemplo, quem não consegue pensar no médio e longo prazo está fadado ao fracasso. Ou se detectam tendências para saber onde investir, ou não se consegue avançar no sentido de construir uma base forte de que tanto precisamos. O Ministério da Ciência e Tecnologia sabe disso e desenvolve muita coisa. A política industrial, que o governo definiu, abandonou aquela visão mais vulgar de defesa da empresa nacional com protecionismo e subsídios, ou com a reedição da política de substituição de importações. Graças a Deus, a política industrial definida pelo governo foi diferente e procurou pautarse pelo médio e longo prazo. Definiu áreas extremamente sensíveis da atividade industrial, pensou na tecnologia, no comércio exterior e na indústria de forma integrada, como uma unidade. Não definiu uma política pesada, de intervenção do Estado, mas uma política orientada para as empresas, porque são elas que constituem o foco da inovação e da ampliação da competitividade brasileira.

Desafios - Houve essa preocupação em outras áreas?
Arbix
- Eu acredito que na área de defesa da concorrência também se avançou. E pensou-se no médio e longo prazo na definição da política fiscal. O Estado brasileiro, além da oscilação de seus governantes, tem instituições sólidas que tendem a sustentar a trajetória no longo prazo. Na Secretaria do Tesouro Nacional, existe um guardião do gasto público, que está de olho na qualidade dos investimentos. Essa maturação institucional é essencial. Se não for assim, ficamos à mercê dos humores da política e dos governantes. Isso ocorre, faz parte da vida, ninguém quer negar a política como uma atividade real, mas eu creio que a função do Estado é justamente dar estabilidade, garantir seqüência, evitar interrupções e guinadas bruscas, perseguir objetivos e cumpri- los. Claro que de vez em quando ocorrem escorregões, mas estão em curso avanços institucionais extremamente importantes.

Desafios - Falando em inovação, um dos trabalhos que o senhor promoveu no Ipea foi uma ampla pesquisa sobre o tema. O que o levou a se entusiasmar pelo assunto?
Arbix
- Dois motivos. O primeiro é que acho que o Brasil precisa ter um mapa de seu sistema produtivo e de sua capacidade de inovar, que não é alta se comparada com os países mais avançados, mas vem crescendo ao longo do tempo. A idéia de rastrear, de capturar informações sobre o que estamos fazendo, me anima muito, porque permite discutir potencialidades. Captar o estágio do sistema produtivo brasileiro, na indústria, no comércio, nos serviços, na agricultura, é fundamental para definir as melhores formas de estimular a inovação, que hoje é chave para aumentar a competitividade das nações.

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