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| No sentido horário: igreja na zona rural de Santa Rosa de Lima (foto
maior); Pousada Vitória; sede da Associação de Desenvolvimento Sustentável;
placa na praça principal de Anitápolis |
O retrato meio escondido em cima de um armário na cozinha da PousadaRecanto
das Cachoeiras lembra um tempo não muito feliz para seus proprietários, Marilda
e Gabriel Rieg, quando trabalhavam como caseiros numa residência em São
Paulo. Na fotografia, ela aparece vestida com um avental de cozinheira
e ele como garçom, embora também atuasse como jardineiro. A foto foi tirada
na casa da Granja Julieta, onde trabalharam durante cinco dos 14 anos
que passaram na metrópole paulistana. Mudar para São Paulo não foi uma
opção, mas a única alternativa, pois não conseguiam obter renda suficiente
para viver de seu pequeno sítio, em Anitápolis, no sudeste de Santa Catarina. "A
gente ganhava bem em São Paulo e o serviço não era tão pesado quanto na
roça, mas acabamos voltando há 11 anos porque a saudade era muita", conta
Marilda, de 47 anos, enquanto prepara o almoço para o casal de hóspedes
que receberá no fim de semana, pois agora o sítio do casal funciona como
pousada para turistas atraídos pela beleza da região serrana, onde ficam
as nascentes dos principais rios que abastecem cidades como Florianópolis,
Criciúma, Laguna e Tubarão.
A principal renda da família Rieg vem da pousada, que é capaz de receber
13 visitantes em suas acomodações simples e acolhedoras, mas nada que
garanta estrelas num guia turístico. A proprietária conta que eles começaram
a receber hóspedes em um quarto dentro da casa, mas agora já são três,
além de dois outros num antigo galpão que servia para guardar a produção
agrícola. Um chalé foi construído no ano passado, com duas suítes, uma pequena
sala e uma vista deslumbrante da varanda, voltada para o vale do rio da
Prata, com as encostas cobertas pela vegetação da Mata Atlântica. O dinheiro
para fazer as melhorias veio de um financiamento do Programa Nacional
de Apoio à Agricultura Familiar (Pronaf), do Ministério do Desenvolvimento
Agrário (MDA). "Temos 50 nascentes e dez cachoeiras nos 70 hectares de
nosso sítio", conta o orgulhoso Rieg, de 54 anos, enquanto conduz seus
hóspedes até a cachoeira da Manjedoura, bem próxima da nascente do rio
da Pedra Branca, afluente do rio da Prata.
A vida da família Rieg mudou - para melhor - a partir de 2001, quando
aderiram à Associação de Agroturismo Acolhida na Colônia, uma organização
nãogovernamental que abriu uma nova alternativa de renda para os agricultores
familiares de cinco cidades do sudeste de Santa Catarina: o agroturismo,
inspirado numa experiência francesa, que já funciona há 50 anos. As propriedades
familiares foram adaptadas para receber hóspedes, seguindo um conjunto
de normas semelhante ao adotado pela Accueil Paysan, entidade nascida
na França que atua em 15 países e congrega os agricultores que aderiram
ao agroturismo. A Acolhida na Colônia representa a organização francesa
no Brasil. Toda a comida servida aos turistas que ficam nas pousadas vem
da própria propriedade ou é fornecida por agricultores orgânicos da região,
ligados à Associação dos Agricultores Ecológicos das Encostas da Serra
Geral (Agreco). Os alimentos são produzidos sem o uso de agrotóxicos, adubos
químicos, hormônios de crescimento ou antibióticos. Além disso, os agricultores
filiados à Acolhida na Colônia têm de funcionar como guardiões ambientais
e fazer de suas propriedades exemplos de que é possível tirar o sustento
da terra sem agredir o meio ambiente.
A sede da Acolhida fica em Santa Rosa de Lima, cidade de 2, 5 mil habitantes,
24 quilômetros ao sul de Anitápolis e a 124 quilômetros de Florianópolis.
Todas as pousadas cobram o mesmo preço, 44 reais diários por pessoa, com
direito a quatro refeições, servidas com a comida típica dessa região
que foi colonizada por alemães, a partir do final do século XIX. Quem
liga para a sede da Acolhida para fazer reserva já é alertado de que as
estradas são ruins, pois Anitápolis e Santa Rosa de Lima são as duas únicas
cidades do sul de Santa Catarina que ainda não têm acesso por rodovia
asfaltada. Isso é uma grande desvantagem para os agricultores da região, mas
não atrapalha o agroturismo, já que quem opta por essa modalidade valoriza
o contato com a natureza e as estradas sinuosas da região proporcionam
paisagens deslumbrantes, pois quase sempre seguem o percurso de um rio. "Percebemos
que será possível atrair gente que gosta de caminhadas ou que faz trilhas
com motocicletas ou bicicletas", conta Leonilda Boing Balmann, de 37 anos,
coordenadora da Acolhida na Colônia e que também é proprietária da Pousada
Vitória, com duas casas para hóspedes, capaz de abrigar 20 pessoas.
Quando a Acolhida na Colônia foi criada, em junho de 1999, a região em
torno de Santa Rosa de Lima estava em crise. Sem perspectivas, os jovens
migravam para as grandes cidades, à procura de emprego. Era difícil tocar
as pequenas propriedades agrícolas, pois a área disponível para cultivo
é reduzida, devido à topografia acidentada. O plantio de fumo era a principal
atividade agrícola, mas os agricultores estavam desanimados, lembra a coordenadora
da Acolhida, "pois os preços estavam muito baixos, já que existia um único
comprador, a fábrica de cigarros Souza Cruz". Além disso, conta Nilso Tenfen, de
55 anos, proprietário da pousada Tenfen, "a gente tinha de usar muito
agrotóxico no plantio do fumo, o que acabava com nossa saúde". Ele aderiu
primeiro à Agreco e depois à Acolhida e hoje a antiga estufa que servia
para secar as folhas de fumo foi convertida em duas suítes para os hóspedes
de sua pousada.
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