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Livros e publicações
Fábulas fabulosas a preço de custo...
Paulo Roberto de Almeida
As fábulas dessa obra estão mais para a dramaturgia de Shakespeare
do que para contos da carochinha em linguagem keynesiana. Tragédias econômicas
não faltam nesse livro de Eliana Cardoso, professora da Fundação Getulio
Vargas de São Paulo (FGV-SP) e colunista do jornal Valor Econômico,
de onde saem os artigos. Cada uma das oito partes está dedicada a um problema
fundamental. A primeira,"Três léguas", trata do crescimento do Brasil ou, às vezes,
da falta de crescimento,pelo menos nas últimas duas décadas.Nosso desempenho
entre 1900 e 2000 não foi ruim,melhor em todo caso do que o da Argentina,
mas inferior ao da Coréia e ao do Japão.A segunda parte,"Fome de Leão",
aborda a política fiscal,onde aprendemos "com quantos paus se faz uma
canoa", isto é,que os governos devem adotar instrumentos de longo prazo
para a dívida pública, não indexados e de preferência na moeda do país. A terceira,"Beijo de dragão é fogo", trata da política monetária e da
inflação, hoje controlada mais pela taxa de juro do que pelos agregados
monetários.Mas no meio do caminho existe a pedra da taxa cambial. A quarta
parte,"Dance comigo", traz o dilema das reformas estruturais na América
Latina,onde os rótulos - liberal,populista, neoliberal ou neopopulista
- são altamente voláteis: "O novo político latino-americano se veste de
populista na véspera das eleições e no dia seguinte troca a fantasia pela
casaca neoliberal". A quinta parte,"Parceiros e rivais",analisa o comércio mundial. Ela constata
que "os políticos não aprenderam as lições econômicas que David Ricardo
ensinou", daí a "mixórdia de acordos bilaterais".O Brasil e o Congresso
dos EUA se unem num "chiclete com banana"para frear a liberalização das
trocas.Ela acha que o Mercosul acabou em 1999,mas "continua vagando pela
Terra como alma penada". Na sexta parte,"De conversa em conversa", somos confrontados com as moratórias
e as crises financeiras: risco-país e dívida externa são elementos relevantes
nessa área.O Brasil libertou-se da rigidez cambial em 1999 e "ganhou maior
flexibilidade tanto para enfrentar as tormentas externas quanto para gerir
sua política macroeconômica". A sétima parte,"Dois e dois são cinco", trata da pobreza e da distribuição
de renda. A renda cresceu ao longo do século XX, mas as desigualdades
aumentaram.Mesmo programas como o Bolsa Escola não conseguem reduzir a
desigualdade.Mas a distribuição de renda melhorou no mundo, como demonstra
Xavier Sala-i-Martin. Todo crescimento reduz a pobreza, mas ele pode vir
combinado com um brutal aumento da desigualdade, como ocorre na China.Uma
das causas da miséria dos excluídos é a falta de acesso à propriedade,como
evidenciou Hernando de Soto.O ideal para o Brasil seria substituir "gastos
no ensino superior por investimentos na qualidade da educação básica". A oitava parte,"As cores do camaleão", enfoca as relações entre política
e eleições. Ao ganhar a simpatia dos grupos financeiros com sua nova postura,"Mr.Lula
goes to Washington"e ali promete continuar na trilha responsável.
Essa é a origem da "metamorfose ambulante", ou seja, o dilema entre preservar
as bases de apoio tradicional e aderir ao novo credo.A dança entre os
compromissos históricos e as novas realidades do poder assume ares de
Macbeth com a descoberta da corrupção em 2005. O artigo final expõe escolhas difíceis: o pluripartidarismo e o voto
proporcional garantem maior representatividade,mas é o bipartidarismo
e o voto majoritário que proporcionam governabilidade.Eliana Cardoso acha
que "mais importante do que qualquer reforma é que a legislação vigente
seja de fato aplicada",pois "sem a confiança dos eleitores não existe
política civilizada". Belo final para lições de economia aplicada, temperadas
pela referência erudita à mitologia grega e à dramaturgia shakespeareana.
Um duplo prazer pelo preço de um... Fábulas Econômicas
Eliana Cardoso
Ed. Pearson Education do Brasil, 2006
306 p., R$ 55,00

