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Excelência da semente ao prato
Em 30 anos, as pesquisas da Embrapa resultaram na produção de alimentos em maior quantidade e qualidade, ajudaram no desempenho da balança comercial, criaram oportunidades de trabalho e, por conseqüência, contribuem para a redução das desigualdades no Brasil
Por Eliana Simonetti, de São Paulo
Se você, leitor, é uma pessoa essencialmente urbana, que nunca se preocupou
com a origem do frango, da verdura, dos ovos e da farinha que vão ao prato
nas refeições, certamente não terá prestado, também, muita atenção no trabalho
desenvolvido pelos pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
(Embrapa). O que se divulga a respeito dela, em geral, está relacionado
à soja, importante produto da pauta de exportações brasileiras, que alcançou
o padrão atual porque a Embrapa, cerca de 20 anos atrás, começou a desenvolver
sementes que permitissem o cultivo da planta em ambiente tropical, já que
ela é de origem asiática e só vingava em clima temperado. Essa é, de fato,
uma marca na história da empresa, que, porém, é muito maior do que a soja.
Em 30 anos, a Embrapa desenvolveu e disponibilizou mais de 9 mil espécies
de sementes, de outros insumos e de tecnologias. A oferta de carne bovina
e suína triplicou. Da mesma forma, cresceu a produção de hortaliças, de
ovos, de leite e de frango. Programas desenvolveram sistemas para aumentar
a eficiência da agricultura familiar e incorporar pequenos produtores ao
agronegócio.

Plantação de girassol: no Paraná os campos são dizimados
por pombos silvestres. A Embrapa pesquisa uma forma de controlar a
população de aves
Mas, mesmo na faceta mais conhecida, que é a soja, há detalhes que valem a pena esmiuçar. Hoje há mais de 230 espécies (ou cultivares) de soja adaptadas a diferentes tipos de solo e clima, resistentes a doenças e a intempéries, e altamente produtivas, em terras que vão do Rio Grande do Sul a Roraima. Em alguns estados, como o Paraná, que tem 40 microclimas, são cultivados 40 tipos de soja. E, como a metade das sementes plantadas no país vem da Embrapa, que é uma empresa do governo, ligada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, o custo do insumo é baixo - inferior ao que se verifica em outras regiões do mundo. Não é a toa que o Brasil é o segundo maior produtor desse grão no planeta - perde apenas para os Estados Unidos.
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| A atuação da Embrapa ocorre nas mais diversas áreas. Nas fotos, acima, um campo de cultivo familiar de batata e, abaixo, pescadores em Maceió. Não se ara mais a terra, assim como não se usam mais redes de pesca com tramas muito estreitas. Os objetivos, nos dois casos, são a preservação e a sustentabilidade. | |
O trabalho não tem fim. Somente nos dez últimos anos surgiram cinco novas doenças que ameaçam o negócio, entre elas a ferrugem. As pragas devem ser combatidas de forma eficiente, rápida, a custo baixo e com o menor dano possível ao meio ambiente para que os indicadores do agronegócio do país continuem a ser positivos. Para desenvolver suas pesquisas, a Embrapa Soja, que tem sede no estado do Paraná, mantém um banco de germoplasmas, um enorme galpão com temperatura controlada que guarda mais de 8 mil espécies, das mais selvagens às mais frágeis, para fazer cruzamentos e experimentos e solucionar os problemas que se apresentam. São sementes que têm de ser plantadas de tempos em tempos para que os exemplares não se percam. "Graças ao trabalho da Embrapa e de outros centros de pesquisa a ela associados, o Brasil possui, hoje, um modelo avançado de agricultura tropical, com alta produtividade inclusive em solos peculiares, como os do cerrado", diz Rogério de Freitas, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). "Esse é um marco importante, pois o país tem potencial para usar uma área agriculturável maior do que o de países como a China e a Índia, por exemplo."
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| Fonte: Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento/Embrapa |
Porteira Até aqui vimos, então, que engenheiros agrônomos, biólogos e técnicos têm muito a fazer em laboratórios, em campos experimentais e no contato com os agricultores para repassar as tecnologias desenvolvidas. A produção e a exportação de grãos no Brasil batem recordes após recordes, também, porque pesquisadores com outros tipos de especialização buscam maneiras eficientes de aproveitamento do solo com a adoção de práticas, o desenvolvimento de máquinas e equipamentos e a utilização de fertilizantes que reduzam os custos na lavoura. Com isso, apesar das estradas esburacadas, do transporte ferroviário deficiente, da ineficiência dos portos, das altas taxas de juro e da elevadíssima carga tributária, o produto brasileiro mantém a competitividade no mercado internacional. "Da porteira para dentro, a produção de grãos no Brasil é exemplar", diz João Flávio Veloso, chefe de pesquisa e desenvolvimento da Embrapa Soja. Está certo que a soja é um produto importante, assim como o café, o açúcar, a laranja. Vão do campo à indústria de alimentos e de lá à mesa do brasileiro. Também saem do país em troca de dólares, essenciais para o equilíbrio das contas externas. Mas há muito mais no campo brasileiro e no universo de pesquisa da Embrapa. Por que devemos prestar atenção no que ocorre nessa empresa? Em primeiro lugar, porque ela é o maior e mais profícuo centro público de pesquisas do país em matéria de agronegócio - e o Brasil é um dos campeões mundiais nesse setor. Depois, porque os resultados de seus trabalhos têm efeito direto no bolso e na saúde da população. A fartura, o acesso a alimentos mais nutritivos, sem contaminação e mais baratos, são questões que interessam a todos.
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