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Edição 18
Abril/2005

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Olhar humano
O Brasil é um país que tem um arcabouço legal de reconhecimento dos direitos humanos em um nível que não vejo em outros países

Por Andréa Wolffenbüttel, de Brasília

Ricardo B. LabastierA advogada paquistanesa Hina Jilani esteve no Brasil em dezembro do ano passado. Ela veio como representante do Alto Comissariado para os Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) para acompanhar o julgamento dos assassinos da missionária norte-americana Dorothy Stang. Com o olhar aguçado de quem viajou o mundo buscando proteger os mais fracos, e com a experiência de quem já foi vítima de perseguições e injustiças, ela fala sobre os desafios de seu trabalho.

Desafios - Na sua avaliação, quais são os maiores problemas que o Brasil apresenta em relação aos direitos humanos?
Jilani
- Bem, esta é a primeira vez que venho ao Brasil, portanto só posso falar das informações que recebi ao longo dos anos. Pelo que sei, os maiores problemas são aqueles ligados aos direitos econômicos e sociais, que provocam a discriminação dos mais pobres. Isso acaba ocorrendo em diversas áreas, como no descumprimento das leis trabalhistas, nos litígios pela posse da terra e na violência contra os presidiários, entre outras. Muitos defensores dos direitos humanos me contaram que se sentem ameaçados por causa de suas idéias e de seu trabalho.

Desafios - A senhora poderia mencionar que grupos são esses?
Jilani
- Não. Eu prefiro não citar nomes até ter elaborado o relatório da viagem, que será encaminhado ao Secretariado-Geral da ONU.

Desafios - Apesar dos problemas, a senhora considera satisfatório o resultado do julgamento dos assassinos de Dorothy Stang? As sentenças de prisão foram justas? (Um dos assassinos foi condenado a 27 anos de prisão e o outro a 17.)
Jilani
- Eu não me sinto à vontade para comentar o veredicto em si porque isso é uma parte jurídica. Mas eu acho muito encorajador que uma violação aos direitos humanos, como foi a morte da missionária, tenha sido punida. Outro aspecto muito positivo é que eu tive toda a liberdade para realizar o meu trabalho. Recebi todas as informações que solicitei. Contei com o apoio das autoridades. Falei com todas as pessoas que quis e algumas delas, inclusive, me pediram desculpas pelo ocorrido. Uma demonstração de que a sociedade se sente culpada por não ter conseguido proteger os direitos humanos.

Desafios - Além de acompanhar o julgamento, que outros compromissos a senhora cumpriu no Brasil?
Jilani
- Eu visitei uma série de lugares, estive em Marabá e em Belém, no Pará, fui a Recife e a Salvador. Também estive em São Paulo e em Florianópolis. Em todas essas cidades, eu tive contato com os movimentos pró-direitos humanos. Conversei com os ativistas e eles chamaram minha atenção para as dificuldades que enfrentam. Também tentei descobrir se as ações sociais recebem a proteção que merecem

Desafios - E qual é sua conclusão sobre esses encontros?
Jilani
- Novamente, eu prefiro não mencionar nenhum caso isolado, mas constatei que o Brasil é um país peculiar. Como eu disse, ainda estou aprendendo, mas é um processo muito interessante. Este é um país com um movimento social muito rico, que tem um arcabouço legal de reconhecimento dos direitos sociais e econômicos em um nível que não tenho visto em outros países. Ao mesmo tempo, os defensores dos direitos humanos enfrentam dificuldades. Portanto, há uma questão que precisa de mais reflexão para conseguir descobrir o que há de errado, e essa é a razão fundamental pela qual estou no Brasil.

Ricardo B. LabastierDesafios - A senhora é paquistanesa, um dos maiores países muçulmanos do mundo. Como a senhora vê a questão dos direitos das mulheres nas sociedades islâmicas?
Jilani
- Não é possível falar sobre as sociedades islâmicas como um todo porque elas são muito diversas. Os muçulmanos do meu país são muito diferentes dos da Malásia, que por sua vez são diferentes daqueles do Oriente Médio. Mas, se falarmos de sociedades nas quais o governo adotou a lei religiosa, é uma questão à parte. Nesses lugares, as mulheres enfrentam uma situação difícil. O que eu sinto nesses países é que a religião é usada para a manutenção do poder, para controlar e submeter a população. Nas minhas viagens, percebo que, quase sempre, o povo não é fundamentalista e não apóia essas regras, que são usadas para impor limites a um grupo ou outro. Todos os que trabalham para defender os direitos humanos precisam superar enormes dificuldades por causa da intolerância religiosa. As mulheres, em especial, têm mesmo muitos problemas. Mas eu gostaria de dizer que os direitos das mulheres são desrespeitados em todas as sociedades que apresentam tendências ao totalitarismo. Não apenas no caso do radicalismo religioso, mas também do nacionalismo exacerbado, por exemplo.

Desafios - Quando a senhora menciona o nacionalismo, a que países se refere?
Jilani
- Eu prefiro não citar países específicos. Na minha posição, não é bom fazê-lo. Eu poderia falar de um e deixar outro de lado. Já tive problemas por causa de exemplos. Não seria bom

Desafios - A China tem sido o foco das atenções mundiais devido ao sucesso de sua política econômica, mas pesam sobre ela diversas denúncias de violação aos direitos humanos. Como a senhora vê a situação chinesa?
Jilani
- Novamente, prefiro não falar de países específicos. Se eu falar da China, poderia e deveria falar a respeito de muitos outros lugares.

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