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Podemos fazer melhor
Ganhamos mais desenvoltura na geração de conhecimento do que na transformação desse processo em bens e serviços
Lia Vasconcelos
Um dos principais responsáveis pela organização da III Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação diz que o desenvolvimento tecnológico brasileiro depende essencialmente do envolvimento e da exigência de toda a sociedade. Para Evando Mirra, presidente do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, a inovação não tem campos privilegiados e circula com a mesma desenvoltura desde a cozinha até o laboratório, basta ser convidada. Um homem de muitos talentos Em 1986, a carreira de Mirra tomou outro rumo ao tornar-se pró-reitor de pesquisa e pós-graduação da UFMG. A gestão em ciência e tecnologia começou, então, a ocupar grande parte de seu tempo. Participou da montagem de diversos programas nacionais de cooperação universidade-empresa, da implantação de estratégias de avaliação de pesquisa e de iniciativas como a criação do Programa Institucional de Iniciação Científica (Pibic). Entre 1999 e 2001, foi presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), onde coordenou a criação da Plataforma Lattes, principal fonte de registros de ciência e tecnologia do país, com cerca de 447 mil currículos e 20 mil grupos de pesquisa cadastrados. Em 2001, aceitou o desafio de montar uma nova instituição, o CGEE, do qual foi presidente até novembro deste ano. Incansável, parte agora para novas aventuras ao assumir a direção de inovação da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI). Desafios - Muitos dizem que o grande problema do Brasil é não conseguir transformar criatividade em dinheiro. Qual o caminho para superar essa dificuldade?
O Brasil tem mostrado uma notável capacidade criativa e inovadora.
Também vamos encontrar esses traços no empreendimento científico e tecnológico
Engenheiro mecânico e elétrico de formação, o mineiro Evando Mirra de Paula Silva é dono de duas habilidades que poucas vezes se encontram numa só pessoa: talento para a ciência e para a administração. Essa rara combinação foi o que permitiu que ele fosse eleito membro da Academia Brasileira de Ciências, na categoria Ciências da Engenharia, no mesmo momento em que trabalhava arduamente à frente do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) para organizar a III Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, ocorrida no mês passado, em Brasília. Professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Mirra já correu o mundo. Fez doutorado na Universidade de Paris, aperfeiçoamento na Universidade George Washington, nos Estados Unidos, e esteve nas Universidades de Tóquio, Japão, Berkeley, Estados Unidos, e Compiègne, França, como pesquisador visitante.
Evando Mirra - A inovação é essencialmente uma questão de sociedade, de compreensão e de envolvimento globais. O foco, naturalmente, é na empresa, mas ela não acontece se o conjunto de atores da sociedade não participar e não exigir que isso aconteça. É verdade que no caso brasileiro ganhamos mais desenvoltura na geração de conhecimento do que na transformação desse processo em bens e serviços. Porém, a industrialização do país fez com que construíssemos um parque que é ao mesmo tempo amplo, diversificado, competente e, em alguns dos domínios, de qualidade mundial. Conjugando isso com o fato de que possuímos hoje recursos humanos do mais alto nível, treinados em pesquisa e desenvolvimento, temos, obviamente, dois dos ingredientes essenciais. Agora, eles precisam operar num movimento de sociedade, que é um movimento mais amplo, que envolve a própria dimensão do exercício da cidadania.

