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Uma luz na escuridão
Aliando educação e tecnologia, a Laramara, uma instituição de apoio a deficientes visuais, consegue capacitar centenas de pessoas para o mercado de trabalho, preparando-as para viver e conviver em um mundo onde quase nada foi pensado para elas
Ottoni Fernandes Jr
Nos últimos anos, o empresário Victor Siaulys, que fundou a instituição junto com a esposa, dedicou boa parte de sua energia ao projeto de fabricar no Brasil máquinas de escrever em braille, um instrumento decisivo na inclusão social dos deficientes visuais. É por meio dela que um estudante consegue acompanhar as aulas e escrever em braille suas anotações. Em 1997, Siaulys enviou um grupo de dez pessoas à Escola Perkins para Cegos, em Boston, nos Estados Unidos, com o intuito prepará-las para montar o equipamento aqui. Nos Estados Unidos, era possível comprar uma máquina por 660 dólares (aproximadamente 1,5 mil reais), mas no Brasil ela não saía por menos de 3,5 mil reais. Após o treinamento, o grupo retornou e, em janeiro de 1998, começaram a ser vendidas as máquinas fabricadas aqui, com componentes importados, ao preço de 2,2 mil reais. Desde então, já foram vendidas cerca de 3,5 mil unidades, segundo conta o engenheiro metalúrgico Júlio Pires, coordenador da Laratec - unidade da Laramara que vende equipamentos e softwares destinados a ajudar os deficientes visuais em suas atividades cotidianas, educacionais ou profissionais. “A cooperação com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) foi fundamental para a montagem das máquinas e atualmente eles fornecem todo o ferramental que garante a fabricação local”, explica Pires. O objetivo da Laramara é conseguir vender as máquinas por 1,5 mil reais a partir de janeiro. Além de nacionalizar a produção, a Laratec aperfeiçoou o projeto cedido pela Escola Perkins. “Conseguimos reduzir o peso de 4,5 quilos para 3,8 quilos, principalmente por usar plástico em lugar de metal na fabricação do gabinete externo.” A Laratec terá condições de fabricar até 50 máquinas por mês, com uma equipe de dez pessoas, informa o coordenador da produção, Cristiano Gomes, que fez parte do grupo que esteve em Boston em 1997. A máquina de escrever em braille é fundamental para os deficientes visuais que estudam, pois já não existem classes especiais e eles estão integrados em classes comuns. Em tese, cada escola deveria ter um centro de apoio aos alunos cegos ou com visão subnormal equipado com máquinas de escrever em braille e outros recursos, mas a realidade é bem diferente. O único equipamento fornecido é uma reglete plástica que serve como guia para que o deficiente visual grave numa folha de papel, com auxílio de uma punção, as letras em braille. “As escolas deveriam fornecer uma máquina de escrever para os alunos deficientes visuais usarem nas salas de aula, porque permitem escrever 20 vezes mais rápido do que com uma reglete. Mas a lei de inclusão dos deficientes não é praticada, pois faltam equipamentos e professores especializados”, conta a pedagoga Mara Campos Siaulys, esposa de Vitor e também fundadora da instituição. Patrocínio Ainda que a Laramara tenha conseguido reduzir o preço das máquinas de escrever em braille, o instrumento continua é inacessível financeiramente para grande parte das entidades que atendem deficientes visuais. Para contornar o problema, a Laramara procura empresas que patrocinem a doação dos equipamentos. A Petrobras, por exemplo, doou 150 máquinas e já autorizou outras 170, que serão fornecidas a partir de janeiro, informa Pires. O patrocínio de empresas permitiu a distribuição de um total de 600 máquinas de escrever em braille. Cabe à Laramara selecionar as entidades que receberão as doações. “Damos prioridade às regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste e fazemos uma pesquisa para avaliar as necessidades e a qualidade dos serviços prestados”, conta Pires. A carência é enorme. No Maranhão, por exemplo, existe apenas uma máquina de escrever em braille.
Autonomia, independência e inclusão são as palavras de ordem no quartel-general de uma organização não-governamental que tem sede no bairro de Campos Elíseos, na região central da capital paulista. Mas a Laramara nada tem de subversiva, embora procure passar esses valores para os milhares de deficientes visuais que foram acolhidos pela entidade desde sua fundação, em 1991. A dose de subversão existente por lá é a procura constante da inovação no tratamento das pessoas afetadas pela cegueira ou pela baixa visão, principalmente ao evitar atitudes paternalistas: desde que entram na Laramara, ainda bebês, são orientados a estudar ou a trabalhar no mesmo ambiente que as pessoas dotadas de visão normal. Existem outras instituições de qualidade que atendem deficientes visuais, como a Fundação Dorina Nowill e o Instituto Padre Chico, ambos em São Paulo, mas a Laramara se destaca por oferecer serviços para todas as faixas etárias, por manter diversos núcleos que atendem à instituição e geram receita, tais como uma editora e um estúdio de gravações, e, acima de tudo, por produzir e comercializar equipamento para pessoas cegas ou com baixa visão.

