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Matriz de novos empreendedores
A Fundação Certi, de Florianópolis, atingiu a maioridade aos 21 anos e funcionou como articuladora de empresários, cientistas e poder público para gerar uma das melhores experiências brasileiras de fomento ao empreendedorismo e de estímulo à inovação em tecnologia e negócios
Ottoni Fernandes Jr
A Fundação Certi, de Florianópolis, é um bom exemplo de que é possível
criar uma ponte entre as empresas e o talento e a pesquisa da universidade
para gerar inovação e uma safra de novos empreendedores. Ela faz pesquisa
na área de tecnologia e abriga uma das mais bem-sucedidas incubadoras
de novas empresas tecnológicas existentes no Brasil. O nome da entidade
já revela seu objetivo - Fundação Centros de Referência em Tecnologias
Inovadoras. Foi criada em outubro de 1984 dentro de um laboratório da
escola de Engenharia da Universidade de Santa Catarina (UFSC), quando
Florianópolis era mais conhecida pelas boas praias para a prática de surfe.
A fundação ajudou a transformar a capital catarinense em referência na
área de desenvolvimento de software, automação bancária e eletrônica. A proposta da entidade é posicionar-se como organização líder em pesquisa
e desenvolvimento na área de "economia da experiência", no ambiente de
inovação, sistemas mecatrônicos, metrologia e garantia da qualidade. E
tem sido bem-sucedida, conforme o testemunho de Ronald Dauscha, presidente
da Associação Nacional de Pesquisa, Desenvolvimento e Engenharia das Empresas
Inovadoras (Anpei), para a qual a Certi "não é apenas uma instituição
de pesquisa e um centro de estudos estratégicos, mas também chancela a
viabilidade mercadológica de projetos inovadores aos quais é chamada a
dar consultoria". De fato, quando aparece alguém com uma boa idéia no
campo da tecnologia, o primeiro filtro é aplicado no Centro de Inovação
em Negócios da fundação, que avalia a consistência mercadológica e tecnológica
do produto ou projeto. O trabalho de consultoria da Certi levou seus especialistas
a várias partes do país, inclusive à Amazônia. Dauscha lembra que a Certi
ajudou a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) a planejar
e a implantar o pólo tecnológico de Manaus. Segundo Dauscha, a Siemens,
da qual é diretor de Gestão de Tecnologia, é uma cliente satisfeita com
os serviços prestados pela Certi. Para contrariar ditados populares, como "santo de casa não faz milagre"
ou "casa de ferreiro, espeto de pau", a Certi, embora tenha a maioria
de seus clientes fora de Santa Catarina, fez muito pela cidade e pelo
estado onde está implantada. Ajudou a definir e a pavimentar o caminho
que fez de Florianópolis uma referência nacional em tecnologia da informação
e comunicação. Deu um empurrão para que fossem criadas a Associação Catarinense
de Empresas de Tecnologia (Acate), em abril de 1986, e a Incubadora Empresarial
e Tecnológica, em outubro de 1986. Foi o berço para que surgissem muitas
das 26 empresas fabricantes de equipamentos eletrônicos e as 110 de desenvolvimento
de software que hoje funcionam na cidade de 365 mil habitantes, considerada
uma das que oferece a melhor qualidade de vida no Brasil. O grande responsável pelo sucesso da Fundação Certi é o engenheiro Carlos
Alberto Schneider, seu atual diretor-superintendente e seu grande animador.
Depois de se formar em Engenharia Mecânica pela UFSC, ele passou cinco
anos em Aachen, na Alemanha, fazendo doutorado. Ao voltar, em 1979, já
estava contratado para dar aula na faculdade na qual estudou e foi trabalhar
no laboratório de metrologia, onde passou a ter muito contato com empresas
catarinenses. "O curso de Engenharia foi criado em 1965, já ligado às
demandas da indústria local, sendo que o estágio em empresas era obrigatório",
lembra Schneider, que não era estranho ao ambiente industrial, pois sua
família era proprietária de uma fábrica de bombas hidráulicas em Blumenau.
Ele foi o idealizador da fundação, que se materializou graças ao apoio
de 16 empresas catarinenses que bancaram um investimento de 400 mil dólares
ao longo de dois anos. Não foi necessário investir em instalações, pois
a Certi ficou abrigada no laboratório de metrologia da faculdade de Engenharia.
"No dia seguinte da fundação, contratamos dez engenheiros e passamos a
dar consultoria às empresas", conta Schneider. O primeiro cliente foi
a Metal Leve, fábrica de auto-peças de São Paulo, interessada nos sistemas
de controle de qualidade da Certi. Em seguida, a fábrica de geladeiras
Cônsul, de Santa Catarina, bateu à porta da fundação para que testasse
os motores que equipavam seus produtos. A maioria dos clientes, no entanto, vinha de fora de Florianópolis e,
para corrigir o rumo, o conselho de curadores da Certi deu, em 1986, a
orientação para que a fundação trabalhasse com empresas da cidade. "Nas
eleições de 1985, todos os candidatos a prefeito falavam em geração de
emprego e a Certi passou a bater na tecla de que era preciso dar força
às empresas de informática", diz Schneider. O discurso chegou até o governador
do estado e, assim, a Certi acabou contratada pela Secretaria de Indústria
e Comércio para montar a primeira incubadora, que foi instalada num prédio
que estava embargado pela prefeitura, devido a irregularidades, a 2 quilômetros
do campus da UFSC. Foi preciso muita saliva para conseguir a autorização
de funcionamento, mas, em contrapartida, o proprietário cobrou um aluguel
barato. A incubadora funciona até hoje, no mesmo edifício, com o nome
de Midi Tecnológico, ligada ao Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e
Pequenas Empresas (Sebrae) de Santa Catarina e operada pela Acate. "Demos
prioridade às empresas fabricantes de equipamentos de telecomunicações,
da área de mecânica fina", conta Schneider, "e lançamos a pedra fundamental
do atual pólo tecnológico de Florianópolis." 
Matriz de novos empreendedores

