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Sem perder o fôlego
Aquecimento do mercado mundial e estratégia das empresas aumentam exportações
Edna Simão
As exportações brasileiras não param de bater recordes, apesar de os
empresários do setor reclamarem que a valorização do real em relação ao
dólar tira a competitividade de nossos produtos no mercado internacional.
Ficaram ultrapassadas até mesmo as previsões do ministro do Desenvolvimento,
Indústria e Comércio, Luiz Fernando Furlan, que prometera alcançar exportações
de 100 bilhões de dólares anuais até o final do atual governo. Mas essa
meta foi atingida em fevereiro deste ano e em agosto passado as vendas
externas já estavam na casa dos 111,2 bilhões de dólares, no acumulado
de 12 meses. Sem dúvida, o crescimento do comércio internacional, puxado
pela China e pelos Estados Unidos, contribuiu para o crescimento das exportações
brasileiras, mas existem razões de ordem estrutural para justificar o
sucesso do Brasil como exportador. No início da década de 90, pouco mais de 8 mil empresas brasileiras vendiam
seus produtos no mercado externo. De lá para cá, com a abertura das fronteiras
do país para o mundo, esse número saltou para algo entre 18 mil e 20 mil
e as exportações passaram a estar mais presentes nas estratégias das companhias
para incrementar os negócios. Agora, o objetivo não é apenas abastecer
o mercado interno e exportar o excedente, mas sim agregar valor aos produtos
para garantir e ampliar a atuação no mercado mundial. A pauta brasileira
de exportação, ainda que fortemente dependente de produtos com baixo índice
de industrialização, passou a incluir mercadorias de maior valor agregado,
como é o caso dos aviões, telefones, automóveis e caminhões. Déficit A decisão do governo de colocar as exportações como prioridade
foi fundamental para que o país revertesse os consecutivos déficits na
balança comercial entre 1995 e 2000. Em 1994, quando
1 real chegou a corresponder a 1 dólar, os produtos importados invadiram
o país. A situação só começou a se reverter em 1999, quando houve a desvalorização
do real e passou a vigorar o sistema flutuante, em vez do fixo. Os resultados
positivos apareceram somente em 2001, quando o Brasil conseguiu registrar
um superávit na balança comercial de 2,6 bilhões de dólares. Desde então,
as exportações têm ganhado importância para as empresas e, conseqüentemente,
para o crescimento econômico do país. Atualmente, a venda de produtos
brasileiros aos estrangeiros é a maior financiadora do balanço de pagamentos
- que contabiliza todas as negociações entre o Brasil e o exterior -,
contribuindo para a redução da vulnerabilidade externa. Para o diretor
de Estudos Setoriais do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea),
João Alberto De Negri, os consecutivos recordes nas exportações brasileiras
refletem uma mudança gradual de comportamento do empresariado, iniciada
com a abertura comercial. "Antes, as empresas exportavam apenas o excedente
de produção. A partir de 1994, houve uma mudança na estratégia das empresas,
que passaram a enxergar as exportações como um componente de crescimento
independente do mercado doméstico", explica. As empresas exportadoras
abriram novos mercados no exterior e não querem perdê-lo, mesmo quando
o real se valoriza frente ao dólar, diminuindo a competividade dos produtos
brasileiros em outros mercados. É fato que a cotação do dólar, que esteve
favorável às exportações entre 2002 e 2004, agora está jogando contra
os empresários. A "choradeira" é que a desvalorização da moeda norte-americana
está comprometendo as margens de lucro e poderá influenciar, no médio
prazo, na redução do fôlego das exportações. Por enquanto, o que se vê
é que ela não pára de crescer. O professor titular
aposentado do Instituto de Economia da Unicamp, Luiz Gonzaga Belluzzo,
acredita que os números brasileiros poderiam ser bem melhores se o câmbio
estivesse favorável às exportações no início dos anos 90 e se o país tivesse
aproveitado o boom de investimentos estrangeiros existentes no mundo na
época. "Poderíamos ter avançado muito mais", afirmou. Diante das reclamações dos empresários em relação ao câmbio, por que
as exportações brasileiras não param de crescer? Muitos economistas, empresários
e acadêmicos não pensam duas vezes para dar a resposta. Acreditam que
esse movimento está atrelado ao crescimento internacional e ao aumento
do preço das commodities, sem contar a decisão das empresas de incluir
as exportações na estratégia de crescimento. O coordenador da Unidade
de Pesquisa e Desenvolvimento da Confederação Nacional da Indústria (CNI),
Renato Fonseca, acha que a valorização do real frente ao dólar não vai
prejudicar as exportações no curto prazo. "Não se sabe o que vai acontecer
em 2007. O câmbio deve retornar para o patamar de 3 reais por dólar. O
que está mantendo as exportações é o fato de muitas empresas terem conquistado
novos mercados", sustenta Fonseca. De Negri concorda que a valorização
cambial não deve prejudicar no curto prazo as exportações brasileiras.
Isto é porque as empresas fizeram contratos de longo prazo com seus clientes
no exterior e devem cumpri-los para não perder mercado. Para Marcelo Nonnenberg,
economista do grupo de acompanhamento de conjuntura do Ipea, os exportadores
raciocinam no prazo longo e não respondem tão rapidamente às variações
nas taxas de câmbio. "Se o exportador perder os mercados que conquistou,
ficará muito difícil retomá-los. É melhor perder por dois ou três meses
do que sair agora e perder a fatia de mercado para outro país", afirma
Nonnenberg.

